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domingo, 16 de agosto de 2026

China domina mercado de robôs humanoides; entenda por que os EUA decidiram barrá-los

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China respondeu por 85% dos usos de humanoides em 2025 e tem seis empresas entre as dez maiores do setor. EUA alegam riscos de segurança para barrar modelos estrangeiros, enquanto analistas veem tentativa de proteger fabricantes locais.
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TOPO
Por Deutsche Welle — Estados Unidos

Postado em 16 de Agosto de 2.026 às 06h00m

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A fabricante chinesa de robôs humanoides e quadrúpedes Unitree Robotics abriu na segunda-feira (10) as inscrições para sua oferta pública inicial de ações na Bolsa de Valores de Xangai. É a primeira empresa do setor a dar esse passo na China, em uma operação que pode elevar seu valor de mercado a mais de 50 bilhões de yuans (R$ 37,7 bilhões).

A empresa ganhou destaque internacional pela capacidade de fabricar robôs sofisticados a preços competitivos, ajudando a impulsionar a liderança chinesa no mercado global. Agora, deve ganhar ainda mais projeção com a entrada de capital privado.

A movimentação ocorre em paralelo à decisão dos Estados Unidos, anunciada no fim de julho, de proibir a entrada no país de novos robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior.

A medida, justificada por "riscos inaceitáveis" à segurança nacional, foi interpretada por analistas como um sinal de que os EUA temem que sua liderança tecnológica seja ameaçada por Pequim. O gigante asiático respondeu por 85% dos usos de robôs humanoides em 2025, segundo o banco britânico Barclays.

O argumento da Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos EUA é que os robôs "coletam dados que poderiam ser explorados por agentes mal-intencionados para vigiar americanos, ampliar as capacidades de serviços de inteligência estrangeiros ou assumir remotamente o controle dos robôs".

Em junho, o Pentágono já havia incluído a Unitree e outras grandes empresas chinesas de tecnologia em uma lista de companhias acusadas de manter vínculos com as Forças Armadas chinesas. Robôs da empresa já foram utilizados em exercícios militares.

China vendeu quase 11,6 mil robôs humanoides em 2025, contra apenas algumas centenas de empresas americanas — Foto: Imaginechina/Sipa USA/picture alliance
China vendeu quase 11,6 mil robôs humanoides em 2025, contra apenas algumas centenas de empresas americanas — Foto: Imaginechina/Sipa USA/picture alliance

Quão séria é a ameaça dos robôs chineses à segurança dos EUA?

Autoridades americanas alertam que robôs humanoides e quadrúpedes chineses podem coletar dados detalhados de localização e informações pessoais, ser controlados remotamente e representar riscos para infraestruturas críticas dos EUA. As preocupações se concentram principalmente no potencial uso duplo dos robôs, tanto para fins civis quanto militares.

Pesquisadores já demonstraram que robôs da Unitree apresentam falhas de segurança que permitem a invasores assumir o controle por meio de um comando de voz e, em seguida, utilizar um robô para controlar outros.

Washington também teme que uma grande quantidade de robôs chineses de baixo custo possa fornecer dados do mundo real a sistemas chineses de inteligência artificial, que vêm se aproximando rapidamente de seus concorrentes americanos.

A ameaça, porém, ainda é em grande parte teórica, já que a maioria dos robôs humanoides comerciais está em estágios iniciais de desenvolvimento.

A China rejeitou as acusações e afirmou que os EUA estão usando a segurança nacional como pretexto para o protecionismo e para restringir a tecnologia chinesa.

Dias depois do anúncio da Casa Branca, a China respondeu com a imposição de controles sobre as exportações de drones aos EUA e a proibição de negócios com seis entidades americanas.

Ação de Trump vai impulsionar a indústria americana de robôs?

O governo de Donald Trump nunca escondeu seu objetivo de apoiar a indústria doméstica de robótica dos EUA, que, por sua vez, sustenta a expansão da infraestrutura de IA do país, avaliada em quase US$ 1 trilhão.

Segundo observadores do setor, Trump quer proteger empresas como Figure AI, Tesla Optimus e Agility Robotics da concorrência de fabricantes chineses de grande escala, cujos robôs frequentemente custam metade do preço, ou menos, dos modelos americanos.

Robôs humanoides ganham espaço na indústria, como fábricas de automóvel e centros de armazenamento — Foto: VCG/IMAGO
Robôs humanoides ganham espaço na indústria, como fábricas de automóvel e centros de armazenamento — Foto: VCG/IMAGO

Washington já impôs restrições semelhantes a drones e painéis solares chineses e atualmente aplica uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses.

A medida é vista como uma tentativa de Trump de ganhar tempo diante da rapidez com que a China expandiu sua produção de robôs.

Segundo a empresa de pesquisa tecnológica Omdia, a China tem seis empresas entre as dez maiores do setor de robótica. Essas companhias venderam quase 11,6 mil robôs humanoides em 2025, contra apenas algumas centenas de unidades vendidas por empresas americanas.

Em março, o Bank of America projetou cerca de 90 mil unidades embarcadas até o fim deste ano.

Os EUA são considerados mais fortes no desenvolvimento do "cérebro" dos robôs, por meio de IA avançada, enquanto a China lidera na produção em massa de robôs mais baratos, com movimentos aprimorados por atuadores de alto desempenho, uma espécie de músculo robótico.

Elon Musk tem grandes planos para o robô Optimus, da Tesla. — Foto: Reprodução/DW
Elon Musk tem grandes planos para o robô Optimus, da Tesla. — Foto: Reprodução/DW

Rush Doshi, do think tank americano Conselho de Relações Exteriores (CFR), descreveu o veto da Casa Branca como "uma das ações mais significativas já tomadas em apoio ao ecossistema de robótica dos EUA".

Evan Beard, CEO da fabricante de braços robóticos Standard Bots, diz que o governo Trump está enviando uma mensagem "inequívoca" à China.

"A robótica é uma tecnologia que os Estados Unidos precisam liderar e dominar, e robôs subsidiados por governos estrangeiros não terão permissão para dominar injustamente a robótica americana...", escreveu Beard na rede X.

Críticos, porém, avaliam que a proibição pode desacelerar a inovação em IA nos EUA, já que pesquisadores utilizam robôs chineses de baixo custo para realizar testes.

"Restrições podem reduzir a exposição a riscos de segurança, mas, por si só, não criam um ecossistema doméstico competitivo", disse Georg Stieler, consultor da indústria de robótica, via X.

Há também quem avalie que a proibição pode levar Pequim a "restringir ainda mais as vendas de terras raras para empresas americanas e [...] o acesso de companhias americanas, como Tesla e Nvidia, ao mercado chinês", como argumentou Marc Einstein, diretor de pesquisas da Counterpoint Research, ao canal americano de TV CNBC.

Robôs humanoides em demonstração de artes marciais em programa de TV chinesa — Foto: Reprodução/CCTV
Robôs humanoides em demonstração de artes marciais em programa de TV chinesa — Foto: Reprodução/CCTV

Mercado de robôs humanoides é promissor

O Barclays estima que o mercado, atualmente avaliado entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões (R$ 10,2 bilhões a R$ 15,3 bilhões), poderá chegar a US$ 200 bilhões (R$ 1 trilhão) até 2035, no cenário mais otimista, caso haja avanços no cérebro, na força física e nas baterias dos robôs.

Elon Musk, o homem mais rico do mundo, é ainda mais otimista. Ele aposta que o Optimus, da Tesla, pode se tornar "o maior produto de todos os tempos", com vendas que, no longo prazo, poderiam chegar a US$ 10 trilhões (R$ 51 trilhões).

Em larga escala, ele acredita que os robôs, atualmente vendidos por cerca de US$ 100 mil, poderão custar entre US$ 20 mil e US$ 30 mil por unidade, tornando-se acessíveis para fábricas, armazéns e, posteriormente, residências.

Combinando a projeção do Barclays com a meta de preços de Musk, o mercado poderia chegar à venda de aproximadamente 7 milhões a 10 milhões de robôs humanoides por ano até 2035.

No curto prazo, a expectativa é que os humanoides assumam tarefas repetitivas e fisicamente exigentes em armazéns e fábricas. Mais adiante, poderão atuar também em áreas como saúde, assistência a idosos e trabalhos domésticos.

sábado, 15 de agosto de 2026

Os livros que passaram décadas encalhados e agora têm um misterioso comprador — a inteligência artificial

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Livreiros relatam pedidos suspeitos em grandes quantidades. Acredita-se que as obras estejam sendo usadas ​​para treinar chats de IAs como o Claude.
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TOPO
Por BBC

Postado em 15 de Agosto de 2.026 às 15h40m

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As livrarias de livros usados, conhecidas como sebos, tornaram-se um novo reduto para buscar o 'alimento' da IA — Foto: Getty Images
As livrarias de livros usados, conhecidas como sebos, tornaram-se um novo reduto para buscar o 'alimento' da IA — Foto: Getty Images

Algo misterioso vem acontecendo no mundo dos livros usados. Nos últimos meses, livreiros independentes têm observado um padrão estranho de compras, que resulta no envio de grandes quantidades de seus romances para armazéns distantes.

Em uma semana típica, Stuart Manley, da livraria Barter Books, em Northumberland, um condado no norte da Inglaterra, costumava vender entre dois e três mil livros. Mas um único pedido feito recentemente, por uma empresa canadense, igualou o volume que ele esperaria movimentar em sete dias.

Ele afirma que "nunca viu nada parecido em 30 anos no ramo de livros usados".

Manley não é o único. Livreiros de todo o mundo têm relatado megapedidos igualmente incomuns. Eles não sabem ao certo qual é o destino final de seus livros.

Mas a suspeita é que eles não estejam sendo comprados por leitores ávidos no exterior, e sim por algo mais com um apetite voraz por novas informações: a inteligência artificial (IA).

A ideia de que o aumento nas vendas de livros usados ​​está sendo impulsionado pelo crescimento explosivo da IA ​​remonta a uma decisão judicial nos Estados Unidos.

Em 2025, um juiz decidiu que o uso de livros adquiridos dessa maneira para treinar softwares de IA não constituía violação da lei de direitos autorais americana. A decisão foi resultado de um processo movido contra a empresa de IA Anthropic por três autores.

Em sua sentença, o juiz William Alsup afirmou que o uso dos livros dos autores pela Anthropic era "extremamente transformador" e, portanto, permitido pela legislação americana.

Quando os documentos judiciais foram tornados públicos no mês passado, revelou-se também que livros estavam sendo destruídos durante o processo de treinamento do chatbot de IA da Anthropic, o Claude.

"O Claude é treinado com uma combinação de dados da web disponíveis publicamente, conjuntos de dados adquiridos comercialmente e dados que nós mesmos geramos", disse um porta-voz.

Eles ressaltaram que a obtenção de livros para treinamento é uma prática amplamente utilizada em toda a indústria de IA. "Nenhum de nossos programas de aquisição de dados compra e destrói livros raros ou de antiquário", acrescentaram.

Ainda assim, a ideia de que livros estão sendo transformados em polpa de papel causa inquietação.

David Tobin, que administra a livraria Walden Books, no norte de Londres, também tem registrado vendas incomuns. "De certa forma, é muito bom vender alguns desses títulos que não eram comercializados há muitos anos, mas seria triste se eles acabassem sendo destruídos", diz ele.

Sistemas de câmeras usam inteligência artificial e prometem se antecipar a crimes
Sistemas de câmeras usam inteligência artificial e prometem se antecipar a crimes

Documentos judiciais relacionados ao caso da Anthropic revelaram que o projeto de ingestão de livros antigos era referido em comunicações internas da empresa como "

".

Os documentos indicavam que o objetivo da empresa era "digitalizar de forma destrutiva todos os livros do mundo".

A digitalização destrutiva é o processo de enviar livros para locais onde possam ser digitalizados em escala industrial.

Isso inclui remover a lombada do livro para que todas as páginas possam ser digitalizadas rapidamente — e os restos, reciclados.

"Há muito mistério em torno do Projeto Panamá", diz Manley, da livraria Barter Books. "O nome é novidade para mim, mas a realidade do projeto não é. Ele tem sido objeto de muita discussão nos fóruns de livreiros."

Ele não sabe que seus livros estão sendo comprados para esse ou para projetos semelhantes de outras empresas de IA. Mas diz que também é difícil rastrear as vendas, que parecem aleatórias e "sem qualquer lógica aparente".

Elas variaram de textos obscuros em latim a romances de faroeste.

Especialistas afirmam que a diversidade de temas também aponta para a IA, uma vez que textos incomuns e raros poderiam fornecer material novo para aprimorar o treinamento de grandes modelos de linguagem — a tecnologia que sustenta ferramentas de IA generativa, como os chatbots.

A professora Emily Hudson, especialista em propriedade intelectual da Universidade de Oxford, afirma que as leis de direitos autorais no Reino Unido diferem das dos EUA.

"O ponto de partida no Reino Unido é que todos esses atos de cópia — criar a biblioteca de treinamento e realizar o treinamento — exigem a permissão do titular dos direitos autorais", diz ela.

As livrarias de livros usados, conhecidas como sebos, tornaram-se um novo reduto para buscar o 'alimento' da IA — Foto: Getty Images
As livrarias de livros usados, conhecidas como sebos, tornaram-se um novo reduto para buscar o 'alimento' da IA — Foto: Getty Images

Preocupações éticas

Para os livreiros, isso representa um dilema.

Eles se sentem desconfortáveis ​​com a ideia de livros serem destruídos — mesmo reconhecendo que nem todo título precisa ser preservado.

"Uma obra acadêmica recente, publicada em uma tiragem de apenas cem exemplares — dos quais 75 já estão em bibliotecas —, pode ser muito rara no mercado; mas talvez não seja uma perda tão grande se um exemplar for destruído", diz Derek Walker, proprietário da livraria McNaughtan's, em Edimburgo, na Escócia.

"Mas temos — e já vendemos — livros que são, por exemplo, o único exemplar conhecido de uma edição do século 18. Seria um problema muito mais grave se um livro desses fosse comprado para ser destruído, depois de ter sobrevivido por tanto tempo."

Manley afirma que a reciclagem de livros é uma boa solução para muitos títulos que o público não quer mais em suas estantes, especialmente quando isso impulsiona os negócios.

"Algumas pessoas podem ter preocupações éticas sobre o destino dos livros e se eles serão destruídos", diz ele. "Mas o mundo não precisa mais de cinco milhões de exemplares de O Código Da Vinci. Já tive livros anunciados na internet por 20 anos que não foram vendidos até hoje."

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Pai conta como descobriu que filha se automutilava em desafios no Discord: 'Ela podia ter morrido pela minha ignorância'

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Brasileiro, que contou sua experiência no livro 'Aconteceu com minha filha', celebra decisão da ANPD de suspender transmissões ao vivo na plataforma: 'Precisam sentir as consequências'.
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TOPO
Por BBC

Postado em 14 de Agosto de 2.026 às 11h00m

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O Discord reconhece que não identificou, a tempo, risco na transmissão que terminou com a morte de uma menina de 13 anos
O Discord reconhece que não identificou, a tempo, risco na transmissão que terminou com a morte de uma menina de 13 anos

Aviso de conteúdo sensível: esta reportagem contém detalhes que podem ser perturbadores para alguns leitores.

A notícia do suicídio de uma menina de 13 anos no mês passado, transmitido ao vivo na rede social Discord, chocou o Brasil. Mas ela calou ainda mais fundo no peito de um pai que salvou a filha, então um ano mais nova do que a vítima de Naviraí (MS), de um ciclo de automutilações induzidas por usuários da plataforma.

"Fiquei chocado, porque minha filha podia ter chegado a esse fim", diz Paulo Zsa Zsa, pseudônimo adotado pelo pai, que contou sua história familiar no livro Aconteceu com minha filha (Geração Editorial, 2025). "Essa menina tinha mais ou menos a idade que ela tinha quando começaram a aparecer os primeiros sinais."

Paulo, que é pai solo, conta que o primeiro sinal de alerta veio num passeio de barco com a filha e amigos da família.

"Uma amiga notou que tinha alguns cortes no corpo da minha filha, escondidos por debaixo daquela blusa de proteção UV", lembra. "E, de noite, ela me liga e diz: 'Olha, Paulo, eu acho que a Júlia está se cortando'."

Passado o choque inicial com a informação, Paulo questionou a filha.

"Fui ao quarto dela e perguntei: 'Minha filha, você está se cortando?'. Ela ficou parada, sem nenhuma reação ou negação. Então, pedi a ela: 'Você pode me mostrar?'. E aí, a virilha estava toda mutilada."

Paulo conta que perguntou à filha por que ela estava fazendo aquilo, e a menina disse que não sabia.

"Esse foi o grande choque que eu tive na minha vida, mas então eu não sabia que isso tinha a ver com desafios, com internet, com o Discord." 
Um celular para curar a solidão

Paulo conta que cria a filha sozinho desde que ela era pequena, e que percebia que a menina era introspectiva, não se misturava com as outras e se sentia excluída.

"Eu me lembro de participar daquelas festividades que têm na escola, e me doía muito no coração quando eu via as outras meninas em turminhas e ela sempre escanteada", lembra.

Nesses encontros, Paulo via as outras crianças utilizando o celular. Então presenteou a filha com um aparelho, na esperança de que pudesse ser algo que fizesse ela se integrar melhor em grupos.

"Eu não tinha a menor ideia de que o celular era uma porta aberta para esse inferno em que a nossa vida se transformou", afirma.

O pai conta que sentiu os primeiros sinais de que havia algo errado na relação da menina com as telas durante a crise da covid-19.

"Ela foi uma menina vítima da pandemia, como milhões de crianças. Que foi obrigada, de uma hora para outra, a viver confinada numa casa, tendo aulas online, então com o computador disponível, e que o lazer que tinha era passar o dia assistindo a vídeos no YouTube e utilizando o celular."

Discord — Foto: Ivan Radic/Flickr
Discord — Foto: Ivan Radic/Flickr

Júlia começou o que seu pai percebe hoje como um vício em telas jogando Minecraft, um game em que o jogador constrói e explora mundos formados por blocos semelhantes a peças de Lego.

Depois, ela passou ao Roblox, plataforma em que o usuário pode escolher entre milhares de jogos criados por outros participantes, e assistia por horas tutoriais de jogo no YouTube. A menina foi apresentada ao Discord por alguém que conheceu no Roblox, relata o pai.

Paulo conta que já percebia, desde a pandemia, o crescente vício em telas da filha, que cada vez menos queria fazer outras coisas, como socializar, ou sair do quarto.

Na volta às aulas presenciais, o isolamento de Júlia e sua dificuldade em interagir na escola se tornaram ainda mais evidentes, diz ele.

'Pai, me interna!'

Depois do episódio do barco, Paulo conta que a filha foi gradativamente passando a se cortar em áreas mais aparentes, como os pulsos e os braços.

"E aí acontece o primeiro episódio, em que ela toma um monte de remédio e diz que queria se matar", conta o pai.

Nessa ocasião, a menina foi levada ao hospital e passou a fazer acompanhamento psiquiátrico e tomar remédios, além do acompanhamento psicológico que fazia desde a infância.

Número de denúncias envolvendo o Discord aumentou 54% neste ano — Foto: Getty Images via BBC
Número de denúncias envolvendo o Discord aumentou 54% neste ano — Foto: Getty Images via BBC

"Eu achava que era uma menina que perdeu a mãe, que tinha esse trauma, que se sentia excluída e que estava de alguma forma se automutilando em resposta a isso", diz Paulo.

Até que um dia, por volta das 23h, ele estava em seu quarto assistindo televisão, quando a filha bateu à porta, chamando-o.

"Quando eu entro no quarto dela, ela está de calcinha e sutiã, totalmente cortada, os pulsos, a virilha, e o sangue escorrendo", recorda. "E ela fala: 'Pai, eu surtei, me interna! Eu surtei'."

Apesar do choque, Paulo agiu com pragmatismo. Tirou foto dos ferimentos e enviou à psiquiatra, e deu um banho na filha, quando notou que, apesar de todo o sangue, os cortes eram superficiais.

Ao se preparar para levar a pré-adolescente ao hospital, ela só quebrou o silêncio para pedir para levar o celular com ela. Paulo negou e entregou o aparelho à funcionária da família, que ele chama no livro de Dona Tereza.

O pai pediu a Dona Tereza que inspecionasse cuidadosamente o conteúdo do celular, e enviasse a ele qualquer coisa que chamasse a atenção.

"A partir daí, o mundo se descortina", diz Paulo. Enquanto pai e filha davam entrada no hospital, Dona Tereza mandava a ele capturas de tela e vídeos que encontrava no celular.

"Aí eu comecei a ver aquelas coisas, vídeos dela se mutilando e, ao mesmo tempo que ela fazia uma cara triste, ela dava um joinha para o vídeo", recorda.

"E falando: 'Eles me obrigaram a tatuar uma suástica no meu rosto, eles me obrigaram a me queimar com fósforos, eles me obrigaram a jogar perfume em cima das minhas feridas, eles me obrigaram a beber água da privada'", conta.

"E ela tinha printado todo o diálogo da panela em que ela tinha participado. E aí aparece um termo lá chamado LULZ."

LULZ

A princípio, Paulo achou que se tratava de um erro de digitação. Mas, pesquisando, encontrou uma reportagem do programa Fantástico de 2023 sobre o Discord.

A reportagem mostrava o caso de uma menina de 13 anos que ateou fogo à própria casa, transmitindo tudo ao vivo pela plataforma. A menina chegou a registrar a presença dos bombeiros e postar: "Botei fogo na casa, daora".

Assim, Paulo foi apresentado da maneira mais dura ao LULZ, gíria da internet derivada de LOL (laughing out loud, ou rindo alto), usada para descrever a diversão obtida às custas do sofrimento, constrangimento ou irritação de outras pessoas.

"Eram crianças e adolescentes, que participavam de grupos com transmissão ao vivo, grupos fechados, sem nenhum monitoramento", afirma.

Criado em 2015 como um espaço para jogadores online compartilharem mensagens, imagens, áudios, memes e transmissões em um só lugar, o Discord permite a criação de comunidades fechadas, onde só se entra com convite.

São os chamados servidores ou "panelas", no caso de um subgrupo dentro de um servidor. A filha de 12 anos de Paulo, como ele veio depois a saber, era parte de uma panela do Discord.

"E aí, um ia ser o mediador e dizia: 'Hoje vou fazer LULZ, quem quer ser a cobaia?' Como se fosse aquela brincadeira de 'o mestre mandou', mas uma coisa sórdida."

Paulo conta que os registros do celular mostravam a filha fazendo coisas sob as ordens de outros adolescentes, enquanto centenas de pessoas acompanhavam, gritando, se xingando, e estimulando uns aos outros a fazer mal a si mesmos.

"Todos são vilões e todos são vítimas. Não é um 'bicho papão', uma pessoa mais velha induzindo a fazer maldades. São os próprios adolescentes agindo, como se isso fosse uma coisa bacana."

O pai conta que descobrir tudo isso foi um choque, mas ao mesmo tempo um alívio.

"Ali era um caminho em que eu estava descobrindo o que estava acontecendo, que não era simplesmente da cabeça dela que ela estava se cortando", diz Paulo.

"Toda segunda-feira, quando eu checava os lençóis dela, estavam sempre marcados de sangue. Ela se cortava muito aos domingos", lembra ele.

"E eu vim depois a descobrir que ela participava muito desses grupos de desafio aos domingos. Foi assim que eu descobri esse mundo nefasto do Discord."

Da culpa à ação

Desde esse momento de virada, Paulo conta que a filha recebeu tratamento psiquiátrico e psicológico e, agora, aos 15 anos, já teve alta. Júlia agora faz academia e teatro, namora e tem amigos, mas o caminho não foi fácil.

"Foi um processo longo e doloroso, de muita reação agressiva, e que custou muita energia para sustentar", diz Paulo.

Para eles, o caminho passou primeiro pela proibição total de acesso ao celular e às redes sociais.

Com a evolução do tratamento, Júlia recebeu novamente acesso a um aparelho, mas sem redes sociais ou WhatsApp. Agora, ela voltou a ter WhatsApp, mas o pai tem acesso à senha, e jogos online e redes sociais seguem proibidos.

"Minha filha agora está muito bem, mas eu me sinto culpado até hoje. Porque a obrigação do pai é educar e proteger seus filhos dos perigos do mundo", diz Paulo.

"Por isso, quando ele vai para a rua, você quer saber com quem ele está, para onde ele vai. Com a internet é a mesma coisa, só que eu não sabia que o Discord era essa rua, mas à enésima potência. Minha filha podia ter morrido pela minha ignorância."

Paulo diz que escrever o livro foi a sua forma de ajudar outros pais a terem o conhecimento que ele não tinha quando passou por tudo isso com a filha.

O caso da menina de 13 anos que morreu por suicídio em Naviraí (MS) reforçou nele esse sentimento.

"Quando vejo uma notícia dessas, eu agradeço a Deus por ter descoberto a tempo de ter salvado minha filha", diz Paulo.

"E lamento que esses pais não tenham tido as informações que pudessem ter ajudado a salvar a vida de seus filhos. Por isso, eu escrevi esse livro."

Paulo vê com bons olhos o debate sobre regulamentação do Discord que emergiu a partir desse episódio. E celebra a decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), na última quarta-feira (12/8), de suspender transmissões ao vivo na plataforma no Brasil.

"Alguma coisa tem de ser feita e, infelizmente, essas grandes corporações só se mexem quando a corda aperta", afirma. "Se não conseguem garantir um ambiente minimamente seguro, precisam ser responsabilizadas e sentir as consequências."

Quanto ao pedido da primeira-dama Janja da Silva e do Instituto Defesa Coletiva para que a plataforma seja suspensa no Brasil, Paulo acredita que esse pode ser de fato um instrumento de pressão para que a empresa tome medidas mais efetivas de moderação de conteúdo.

"Para mim, o que funcionou foi banir o Discord da vida da minha filha, foi botar ele offline. Talvez esse seja o caminho para o Brasil", afirma.

Em nota à BBC News Brasil, o Discord afirmou que não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência e que está cooperando com as autoridades policiais na investigação do caso da menina de Naviraí (MS).

A empresa disse ainda que "mantém um diálogo contínuo com as autoridades brasileiras, incluindo o Ministério da Justiça, e tem atuado de forma proativa ao reportar indivíduos às autoridades policiais brasileiras, contribuindo para operações que resultaram em prisões".

"Temos o compromisso com a segurança dos nossos usuários e contamos com equipes dedicadas a desarticular esses grupos, remover conteúdos que violem nossas políticas e tomar medidas contra os responsáveis por essas condutas."

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