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Montadora alemã amplia programa de reestruturação e pretende reduzir quadro de funcionários até 2035, para enfrentar queda nas vendas, altos custos e a crescente concorrência, sobretudo da China. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Por Deutsche Welle Postado em 27 de Julho de 2.026 às 15h50m . #.* $ Post. - Nº.\ 5.484$*.#.
Fábrica da Porsche em Zuffenhausen, Alemanha — Foto: Divulgação / Porsche
A fabricante alemã de carros esportivos Porscheanunciou nesta segunda-feira (27/07) um novo plano de reestruturação que prevê o corte de 5 mil postos de trabalho até 2035.
A medida foi acordada entre a direção da empresa e os representantes
dos trabalhadores e faz parte de uma estratégia para aumentar a
competitividade da montadora em um cenário marcado por queda nas vendas, especialmente na China, custos elevados e forte concorrência internacional.
O novo programa amplia uma série de medidas de redução de custos já colocadas em prática pela subsidiária da Volkswagen.
No início do ano, a Porsche havia anunciado a eliminação de cerca de 3.900 empregos, além de outros 500 postos de trabalho.
Segundo a empresa, as novas reduções ocorrerão sem demissões por motivos operacionais, ou seja, sem demissões compulsórias.
De acordo com o comunicado conjunto da direção e do conselho de
fábrica, os funcionários deixarão a empresa principalmente por meio de
aposentadorias graduais, desligamentos naturais e acordos voluntários de
rescisão.
Ao mesmo tempo, parte dos aumentos salariais previstos será suspensa
até 2035, os bônus de Natal serão reduzidos e a remuneração variável
passará a depender mais diretamente dos resultados da companhia.
A Porsche
limitará o número de dias de trabalho remoto a oito por mês, abaixo dos
doze atualmente permitidos. Além disso, uma parcela significativa da
alta gerência abrirá mão de reajustes salariais previstos para 2027 e
2028.
Garantia de empregos e investimentos
Apesar dos cortes, a montadora prorrogou até 2035 o acordo de garantia
das unidades produtivas na Alemanha. Com isso, ficam excluídas demissões
por razões operacionais durante esse período.
A
empresa também anunciou investimentos de 2,1 bilhões de euros nas
instalações de Zuffenhausen, onde produz modelos como o 911 e o Taycan, e
no centro de desenvolvimento de Weissach.
Segundo a direção, os investimentos são fundamentais para preparar a Porsche para as transformações tecnológicas e as mudanças do mercado automotivo.
Linha de montagem de carroceria do Porsche Macan elétrico em Leipzig, Alemanha — Foto: Divulgação / Porsche
A crise também afeta a Audi, outra marca do grupo.
A empresa, sediada em Ingolstadt, anunciou recentemente uma revisão de
suas projeções financeiras para 2026 e segue implementando um programa
que prevê a eliminação de até 7.500 empregos até 2029.
Durante a apresentação dos resultados semestrais da Audi,
o diretor financeiro Jürgen Rittersberger afirmou que as medidas de
economia já adotadas tiveram efeitos positivos, mas não são suficientes
diante dos desafios atuais.
Segundo ele, a empresa precisa se tornar mais eficiente, reduzir custos
estruturais e acelerar os processos de tomada de decisão.
Linha de produção do Audi Q7 na cidade de Bratislava, capital da Eslováquia. — Foto: Divulgação / Audi
Vendas em queda na China
A desaceleração do mercado chinês continua sendo uma das principais preocupações das montadoras alemãs.
Tanto Audi quanto Porsche registraram queda nas vendas no país asiático, hoje um dos mercados mais importantes para a indústria automotiva mundial.
A situação também impactou os resultados financeiros da Volkswagen. O grupo registrou uma forte redução dos lucros no segundo trimestre e revisou suas expectativas para o restante do ano.
Apesar das dificuldades, o presidente-executivo da Volkswagen, Oliver Blume, insiste que o fechamento de fábricas deve ser evitado.
Em declarações recentes, ele afirmou que existem alternativas mais
eficientes para recuperar a competitividade das marcas do grupo e
classificou o encerramento de unidades produtivas como "o último
recurso".
A construção de centros de dados em todo o território dos EUA, impulsionada pela IA, gera danos ao meio ambiente, à saúde pública e ao abastecimento de energia. Empresas experimentam influências governamentais flexibilizando leis. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Por Refael Kubersky 24/07/2026 10h22 Atualizado há 2 dias Postado em 26 de Julho de 2.026 às 06h00m . #.* $ Post. - Nº.\ 5.483$*.#.
Em todo o território dos EUA, os moradores estão saindo das ruas para
protestar contra os data centers — Foto: Ghawam Kouchaki/ZUMA/aliança de
imagens
Quando obras para a construção de um grande data center da Amazon
começaram no pequeno condado rural de Frederick, em Maryland, a ativista
local Elizabeth Bauer não se preocupou muito.
Porém, quando o projeto original foi expandido em cerca de mil acres
além dos planos originais, invadindo áreas verdes e terras agrícolas sem levar em conta a comunidade, a situação mudou de figura.
Junto de outros moradores, Bauer deu início a protestos contra a
proximidade do canteiro de obras às áreas residenciais, o que, segundo
ela, está causando poeira e poluição, o que agrava problemas de saúde
como a asma na população local.
"Não tenho nada contra os data centers, desde que estejam no local
certo. O que não aceito é que eles ocupem terras agrícolas de primeira
qualidade", disse Bauer.
Protestos contra data centers estão ganhando força
A reação contra os data centers vem se intensificado nos Estados
Unidos, com manifestações em todo o país exigindo que políticos
democratas e republicanos tomem medidas.
A região que abrange Maryland, Virginia e o distrito de Columbia tem
sido um ponto nevrálgico. Só na Virginia, há hoje cerca de 640 data
centers registrados.
Esses conflitos ocorrem não apenas na fase de construção das
instalações, mas também dizem respeito aos impactos a longo prazo. Data
centers exigem enormes quantidades de energia para funcionar – o
equivalente ao consumo de eletricidade de 100 mil residências, segundo a
Agência de Proteção Ambiental dos EUA.
Mas os que estão em construção poderiam consumir 20 vezes mais, em
grande parte devido ao aumento da demanda por recursos de armazenamento e
processamento de dados necessários para dar suporte ao desenvolvimento e
ao uso da inteligência artificial.
No geral, os data centers representam 4,4% do consumo de energia dos
EUA, mas um estudo realizado pelo banco de investimentos Goldman Sachs
projeta um aumento de até 8,5% até o final de 2027.
Devorando água e eletricidade
A disputa em Frederick reflete tensões em todo o território dos EUA. O
país já abriga 4,6 mil centros de dados – cerca de mil a mais do que os
dez países seguintes no ranking mundial dessa estatística juntos.
Quase 40% dos americanos vivem em um raio de cinco milhas de pelo menos
uma dessas instalações, e esse número provavelmente aumentará, já que
mais de 1,5 mil outras instalações estão em construção. Em nenhum outro
lugar do mundo a concentração é maior do que no norte da Virginia.
Tudo isso está ocorrendo em um contexto de descontentamento. Uma
pesquisa recente da Gallup indica, por exemplo, que 71% da população se
opõe à implantação de data centers em suas comunidades.
Os data centers podem consumir até 5 milhões de galões de água por dia
(o equivalente ao consumo de uma cidade de 50 mil habitantes). No
entanto, não é incomum que sejam construídos em áreas com escassez
hídrica. De acordo com o monitor de secas dos EUA, o condado de
Frederick está passando por uma severa escassez de chuvas.
Segundo Francesca Dominici, professora de bioestatística da Escola de
Saúde Pública de Harvard, as empresas de tecnologia costumam ignorar
essa questão.
"Eles não estão levando em conta as questões hídricas, de forma
alguma", diz ela à DW. "Os donos priorizam os locais onde podem adquirir
o terreno por um preço mais baixo e onde haja políticos que deem a
aprovação o mais rápido possível."
Poluição e alta nos combustíveis
Preços da eletricidade nos estados americanos com alta concentração de
data centers registraram um aumento de 267% nos últimos cinco anos.
"Concessionárias de energia elétrica estão construindo um grande número
de novas linhas de transmissão para atender essas instalações", conta
Hannah Wiseman, professora de direito ambiental da Universidade da
Pensilvânia. "Mas os custos dessas linhas de transmissão estão sendo
repassados aos consumidores."
Também há a preocupação de que os data centers possam sobrecarregar a
rede elétrica, o que significaria que a necessidade de suprir a demanda
extra com geradores a diesel. No caso da comunidade de Frederick, o
centro planejado contaria com 99 desses equipamentos, que além disso
acarretam riscos à saúde.
"A exposição a partículas finas, mesmo em níveis baixos, [implica] um
risco maior de malformações congênitas, doenças respiratórias,
cardiovasculares e neurocognitivas, além de mortes prematuras", pontua
Dominici, da Universidade de Harvard, acrescentando que também ameaçam a
fauna local e prejudicam o crescimento e o rendimento das plantas.
Como data centers são regulamentados?
Apesar dos efeitos negativos sobre as comunidades, Wiseman diz que a
localização dos data centers é, em grande parte, supervisionada no
âmbito municipal e que muitos estados oferecem às empresas um ambiente
regulatório que permite um desenvolvimento rápido, independentemente da
proximidade com as pessoas ou com a natureza.
"Muitas
administrações locais optaram por não definir regras sobre o uso do
solo; nesse caso, uma empresa desenvolvedora de data centers pode,
basicamente, fazer o que bem entender", acrescenta a professora da
Universidade da Pensilvânia.
Em nível federal, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
reduziu a burocracia para a criação de data centers como parte de um
decreto de 2025 intitulado "Eliminando Barreiras à Liderança Americana
em IA".
Muitas empresas de tecnologia têm insistido para que as autoridades
locais assinem acordos de confidencialidade, diminuindo a transparência e
impedindo comunidades de compreender a magnitude dos projetos e as
consequências do consumo generalizado de recursos.
Assim, em vez de buscar a opinião dos moradores, eles estão trabalhando
diretamente com as autoridades municipais para elaborar seus planos.
Wiseman também observa que as empresas de tecnologia e desenvolvimento
estão colaborando cada vez mais com os governos estaduais no
estabelecimento de normas de zoneamento e de consumo de energia.
"Elas têm participado de todos os processos regulatórios estaduais para
criar tarifas especiais de energia elétrica para esses centros de
dados", diz a especialista. "Parece que as empresas de tecnologia estão
se envolvendo cada vez mais nas diversas propostas legislativas
estaduais para restringir o poder de decisão das administrações
municipais".
Construção de data center no Arizona, nos Estados Unidos — Foto: Eduardo Barraza/ZUMA/IMAGO
Como as empresas estão reagindo?
Embora as empresas de tecnologia argumentem que os data centers
dinamizam as economias locais, um estudo da Universidade de Michigan
constatou que essas estruturas geram empregos temporários na construção
civil para as comunidades locais, mas não vagas de longo prazo na área
de tecnologia.
Porém, há sinais de que essas empresas estejam buscando construir uma
relação de confiança com as comunidades. Em março, a Microsoft deixou de
utilizar acordos de confidencialidade com governos locais para o
desenvolvimento de data centers, afirmando que desejava construir uma
relação de maior confiança com os vizinhos. E a Meta afirma que está
testando e utilizando concreto de baixo carbono na construção de seus
data centers.
Dominici afirma enxergar "um caminho para o futuro em que todos saiam
ganhando", que combina avanço tecnológico com benefícios para a
população. "Eu adoraria ver uma avaliação científica apartidária de todo
o impacto, e que o data center pudesse agir com o objetivo de minimizar
esse impacto tanto quanto possível", diz ela.
Protesto em Frederick, Maryland, contra a expansão de data centers — Foto: Elizabeth Bauer
Acionando os freios, ao menos temporariamente
Os protestos locais parecem ter surtido efeito. Na semana passada, Nova
York se tornou o primeiro estado dos EUA a suspender a construção de
novos data centers de grande porte por até um ano. Também foram
propostas moratórias em outros estados, e alguns condados e municípios
promulgaram suas próprias proibições temporárias.
Em Frederick, Bauer e outros ativistas continuam a se opor à construção
da estrutura em sua vizinhança. Eles coletaram assinaturas suficientes
para propor que a lei fosse submetida a um referendo nas eleições do
condado, embora qualquer possibilidade de isso acontecer tenha sido
rejeitada pela Suprema Corte de Maryland.
O condado reagiu suspendendo temporariamente a construção de novos
centros de dados, mas Bauer considera que o processo democrático falhou
com os moradores de Frederick.
"O
cidadão comum não tem chance", diz ela. "Todo esse esforço não foi para
lutar contra os data centers, mas para dar voz às pessoas".
Apesar dos desafios, ela ainda vê esperança. Segundo a ativista, há
candidatos ao conselho do condado nas próximas eleições que se opõem à
expansão. "Se o novo conselho assumir o cargo, poderá revogar essas
medidas", argumenta ela. "Estamos decepcionados, mas não vamos
desistir."
Pesquisadores identificaram que vídeos de baixa qualidade são sugeridos pelo algoritmo da plataforma e que criadores não avisam sobre o uso de tecnologia. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Por Luiz Fernando Toledo 25/07/2026 05h00 Atualizado há 02 horas Postado em 25 de Julho de 2.026 às 07h00m . #.* $ Post. - Nº.\ 5.482$*.#.
Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da
história, sem qualquer explicação, aparecem em vídeos de IA no Youtube —
Foto: Bloomberg via Getty Images
Um urso panda reencontra um antigo cuidador e reage com surpresa, quase
como se fosse um ser humano. A imagem é extremamente realista.
Um avatar de Jesus aparece em uma praia construindo estátuas de si mesmo.
Músicas infantis que não têm refrão claro, trazem letras incompreensíveis e misturam trechos em mais de um idioma.
Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da história, sem qualquer explicação.
Estes são alguns dos vídeos aparentemente criados com inteligência artificial e sugeridos pelo algoritmo do YouTube, inclusive após buscas relacionadas ao universo infantil.
Em um teste da BBC News Brasil, bastaram cerca de 15 minutos navegando
pelos vídeos curtos da plataforma para que clipes desse tipo
aparecessem. A busca inicial havia sido por temas como os jogos Roblox,
Minecraft e vídeos de animais.
Produzidos em escala e replicados por diferentes canais, muitos desses
conteúdos acumulam dezenas ou centenas de milhares de visualizações.
Criadores chegam a recomendar o nicho infantil como uma oportunidade de
negócio e afirmam ser possível obter renda com esses vídeos.
Já especialistas ouvidos pela BBC News Brasil alertam que esse material
pode levar as crianças a confundir realidade e ficção e afetar de forma
significativa e permanente sua capacidade de atenção e seu
desenvolvimento cognitivo e social.
O que explica essa invasão de vídeos gerados por IA no YouTube, o maior serviço de streaming do mundo?
Um dos fatores é econômico, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem.
O YouTube,
por sua vez, diz priorizar o combate a conteúdos de IA de baixa
qualidade e adotar regras mais rígidas para vídeos destinados a
crianças.
Como são os vídeos infantis feitos com IA
Pesquisadores identificaram músicas, conteúdo religioso e cópias de
personagens com direitos autorais em vídeos gerados por IA no Youtube —
Foto: Reprodução/André Mintz/Youtube
Ainda não é possível dimensionar com clareza o tamanho e alcance deste fenômeno.
A reportagem tentou estimar a frequência com que vídeos feitos com IA
aparecem para o usuário, com base no alerta visual exibido pelo YouTube para conteúdos deste tipo.
A maioria, porém, não apresentava qualquer aviso, mesmo quando havia
fortes indícios do uso da tecnologia, como vozes que não correspondiam
aos personagens, desenhos que mudavam de forma entre uma cena e outra e
gestos ou movimentos incomuns.
Pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o YouTube não identifica automaticamente vídeos feitos com IA e que muitos criadores não informam quando recorrem à tecnologia.
Uma análise do jornal The New York Times feita manualmente e também com
uma ferramenta de detecção ajuda a ilustrar a frequência com que esses
vídeos aparecem.
Em uma sessão de 15 minutos realizada após a exibição de um vídeo do
canal infantil CoComelon, mais de 40% dos vídeos assistidos pareciam
conter imagens geradas por IA.
Mesmo com dificuldades na coleta de dados, um estudo conduzido por
André Mintz, professor do Departamento de Comunicação Social da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e pela estudante de
graduação em Cinema de Animação e Artes Digitais Juno Bozzi buscou
identificar a presença desse tipo de conteúdo em vídeos infantis em
português e inglês no YouTube.
A pesquisa partiu de uma base com cerca de 17 mil vídeos encontrados
por meio de buscas com palavras-chave relacionadas à inteligência
artificial e conteúdo infantil.
Em seguida, os pesquisadores aplicaram novos filtros para identificar apenas vídeos efetivamente voltados às crianças.
Os vídeos infantis gerados por IA analisados apresentavam diferentes
níveis de uso desta tecnologia. Alguns pareciam ter sido produzidos
quase integralmente desta forma. Outros incorporavam apenas alguns
elementos, como cenários das animações.
A maior parte dos conteúdos era musical, com imagens geradas por IA
acompanhadas de canções infantis. O estudo também encontrou adaptações
de histórias, vídeos educativos, como lições sobre o alfabeto, e
conteúdos religiosos.
Uma categoria que chamou a atenção dos pesquisadores foi a dos vídeos
de "transformação", nos quais personagens de desenhos animados são
recriados por IA em versões com aparência de crianças. A pesquisa aponta
que esses vídeos tendem a repetir imagens genéricas e estereotipadas.
"O que chama a atenção é um certo desprezo pelo espectador infantil, de
colocar qualquer coisa e confiar que a criança vai aceitar", diz o
professor André Mintz à BBC News Brasil.
'Crianças pequenas não conseguem distinguir fantasia de realidade'
Rachel Franz, diretora do programa Young Children Thrive Offline(Crianças pequenas se desenvolvem melhor longe das telas, em tradução
livre) da organização americana Fairplay, explica que esse tipo de vídeo
se enquadra no chamado "AI slop"
Essa expressão é usada para definir vídeos de baixa qualidade,
produzidos em massa com o uso de softwares de inteligência artificial.
Segundo Franz, a preocupação é maior em relação aos efeitos disso nas
crianças pequenas, em um período da vida em que o cérebro ainda passa
por intenso desenvolvimento.
"O cérebro das crianças atinge cerca de 90% do tamanho adulto até os 5
anos, e o que elas encontram nesse período molda seu desenvolvimento e
pode impactá-las pelo resto da vida", afirma Franz.
"Crianças pequenas não conseguem distinguir fantasia de realidade. Assistir a AI slop pode condicionar o cérebro delas a acreditar que algo é real quando não é."
Franz afirma que muitos desses vídeos são produzidos para capturar a atenção infantil, não para ensinar.
Segundo ela, a sucessão de imagens confusas também pode sobrecarregar a
quantidade de informações que uma criança consegue processar de uma só
vez.
"Quando o cérebro é sobrecarregado com informações, a criança não
consegue aprender tão bem quanto ao vivenciar situações reais, no seu
próprio ritmo e usando todos os sentidos."
Ela também relaciona o consumo prolongado desses vídeos ao tempo que
deixa de ser dedicado a atividades como brincar, dormir e interagir com
outras pessoas.
"Vídeos hipnotizantes de músicas infantis gerados por IA, por exemplo,
podem moldar o cérebro das crianças no longo prazo, afetando sua
capacidade de atenção, sua resiliência e sua habilidade de regular as
emoções mais tarde na vida."
Especialistas sugerem que YouTube deixe de recomendar vídeos gerados por IA — Foto: AFP via Getty Images
Os possíveis efeitos do consumo deste tipo de vídeo gerado por IA já
são percebidos em atendimentos, segundo Telma Pantano, fonoaudióloga e
psicopedagoga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP).
"Há crianças que estão vindo com muitos medos, com muita dificuldade de definir o que acontece e o que não acontece."
Pantano afirma que a maturação das áreas pré-frontais do cérebro,
relacionadas à capacidade crítica, à autorregulação e ao
automonitoramento, começa por volta dos 6 anos e se estende até a vida
adulta.
Segundo ela, a distinção entre realidade e fantasia começa a se
consolidar por volta dos 7 ou 8 anos, enquanto habilidades como tomada
de decisão e resolução de problemas se desenvolvem mais tarde.
"Até os 10 anos, é uma idade de muito risco, porque a criança ainda não
sabe separar a realidade da fantasia e não tem capacidade de tomada de
decisão, organização e planejamento para resolver problemas."
Para a especialista, há ainda um custo no contato constante com imagens prontas, que exigem pouco da imaginação infantil.
"Sabe aquela sensação de quando a gente vai ver um filme depois de ler o
livro? Normalmente não gostamos do filme porque ele vai contra a nossa
imagem mental", diz.
"O que estamos fazendo com essa construção de vídeos? Estamos
permitindo que crianças e adolescentes entrem em contato com a imagem
sem antes fazer essa construção mental. As imagens vêm prontas, e a
criatividade fica bastante restrita."
'Quanto menor a criança, mais atrativo aquilo fica'
Pantano afirma que também não se pode esperar que as próprias crianças identifiquem e rejeitem vídeos de baixa qualidade.
Conteúdos com cores, movimentos e mudanças rápidas podem capturar a
atenção mesmo quando não apresentam uma narrativa coerente ou informação
confiável, diz.
"Mesmo conteúdos sem significado, sem base científica ou sem
conhecimento vão atrair a criança da mesma forma. E, quanto menor a
criança, mais atrativo aquilo fica."
André Mintz avalia que esse tipo de vídeo se aproveita da dificuldade
de muitas famílias em controlar o consumo de conteúdo infantil online.
"Geralmente, quando você vê crianças que assistem muito conteúdo
online, é essa situação do pai ou da mãe sem tempo para ficar com a
criança, precisando entretê-la enquanto cuida da casa, trabalha ou faz
outra coisa."
Para ele, o problema não está apenas na existência dos vídeos, mas na
forma como esse tipo de conteúdo se encaixa no modelo das plataformas.
"Se tem gente assistindo, para o YouTube está bom. Vai ser recomendado, vai aparecer", diz Mintz.
Rachel Franz concorda que o impacto sobre as crianças é agravado pelo próprio modo de funcionamento das plataformas.
"Elas são projetadas para fisgar as crianças e mantê-las engajadas pelo
maior tempo possível. Elas usam táticas deliberadas, como reprodução
automática e recomendações algorítmicas, para alimentar as crianças com
um vídeo atrás do outro", afirma.
"Quando acrescentamos AI slop,
que hipnotiza ainda mais as crianças, essa se torna uma batalha
perdida. Isso não apenas impacta o desenvolvimento infantil, como torna
impossível exercer o papel de pai ou mãe quando a própria tela luta
contra você."
YouTubediz que combater vídeos de IA de baixa qualidade é prioridade
O YouTube afirma que, embora seja permitido conteúdo gerado por IA, a plataforma
tem padrões mais rígidos para o conteúdo voltado para espectadores mais
jovens.
"Combater o conteúdo de baixa qualidade gerado por IA é uma prioridade
máxima para nós, e isso inclui esforços contínuos para remover conteúdo
de IA marcado como 'feito para crianças' quando ele não atende aos
nossos princípios de qualidade", diz a plataforma em nota à BBC News
Brasil.
A empresa afirma que canais que usam IA continuam qualificados para
monetização, ou seja, para exibir propaganda e serem pagos por isso,
"desde que o produto final seja uma criação original que adicione uma
perspectiva autêntica, siga nossas diretrizes de comunidade e de
monetização, e divulgue adequadamente quando o conteúdo for alterado ou
sintético".
Em uma entrevista ao canal Creator Inside, em julho, o vice-presidente de confiança e segurança do YouTube,
Matt Halprin, disse que são considerados problemáticos vídeos em que o
conteúdo seja genéricos ou repetitivo, que busquem manipular as emoções
dos espectadores ou criem peronsagems com IA para abordar temas
considerados mais sensíveis, como finanças, questões legais ou saúde.
Para João Victor Archegas, coordenador de direito e tecnologia do
Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), é positivo que o YouTube sinalize ao público o que caracteriza como um conteúdo que não seja autêntico, e que isso possa impedir sua monetização.
Isso permite que os criadores de conteúdo compreendam melhor os limites estabelecidos pela plataforma.
Para uma empresa que opera uma das maiores máquinas publicitárias do
mundo, ressalta Archegas, é importante dar sinais claros a parceiros e
anunciantes de que há uma preocupação com o uso dessa tecnologia, e que
há alguma forma de controle pela própria plataforma.
Mas Archegas avalia que há uma contradição: o YouTube incentiva ativamente a adoção de ferramentas de IA para a criação de vídeos, enquanto tenta frear o "AI slop"(conteúdo de baixa qualidade) que essas mesmas tecnologias permitem escalar.
Isso tem, na prática, um efeito limitante sobre a capacidade do YouTube de conter a disseminação destes vídeos.
"A plataforma segue tendo o desafio imenso de identificar conteúdos
gerados por IA e atuar quando eles são identificados", diz Archegas.
"Essas novas categorias podem ajudar o moderador a entender o que a
plataforma considera prioritário, mas não dizem o que, de fato, o YouTube classifica como conteúdo gerado por IA ou quais são os parâmetros técnicos usados nessa moderação."
IA pode decidir atacar empresas? Como foi a invasão 'sem precedentes' por modelo da OpenAI