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domingo, 26 de julho de 2026

Cidadãos dos EUA tentam frear expansão desenfreada de data centers

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A construção de centros de dados em todo o território dos EUA, impulsionada pela IA, gera danos ao meio ambiente, à saúde pública e ao abastecimento de energia. Empresas experimentam influências governamentais flexibilizando leis.
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TOPO
Por Refael Kubersky

Postado em 26 de Julho de 2.026 às 06h00m
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O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
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Em todo o território dos EUA, os moradores estão saindo das ruas para protestar contra os data centers — Foto: Ghawam Kouchaki/ZUMA/aliança de imagens
Em todo o território dos EUA, os moradores estão saindo das ruas para protestar contra os data centers — Foto: Ghawam Kouchaki/ZUMA/aliança de imagens

Quando obras para a construção de um grande data center da Amazon começaram no pequeno condado rural de Frederick, em Maryland, a ativista local Elizabeth Bauer não se preocupou muito.

Porém, quando o projeto original foi expandido em cerca de mil acres além dos planos originais, invadindo áreas verdes e terras agrícolas sem levar em conta a comunidade, a situação mudou de figura.

Junto de outros moradores, Bauer deu início a protestos contra a proximidade do canteiro de obras às áreas residenciais, o que, segundo ela, está causando poeira e poluição, o que agrava problemas de saúde como a asma na população local.

 "Não tenho nada contra os data centers, desde que estejam no local certo. O que não aceito é que eles ocupem terras agrícolas de primeira qualidade", disse Bauer.

Protestos contra data centers estão ganhando força

A reação contra os data centers vem se intensificado nos Estados Unidos, com manifestações em todo o país exigindo que políticos democratas e republicanos tomem medidas.

A região que abrange Maryland, Virginia e o distrito de Columbia tem sido um ponto nevrálgico. Só na Virginia, há hoje cerca de 640 data centers registrados.

Esses conflitos ocorrem não apenas na fase de construção das instalações, mas também dizem respeito aos impactos a longo prazo. Data centers exigem enormes quantidades de energia para funcionar – o equivalente ao consumo de eletricidade de 100 mil residências, segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA.

Mas os que estão em construção poderiam consumir 20 vezes mais, em grande parte devido ao aumento da demanda por recursos de armazenamento e processamento de dados necessários para dar suporte ao desenvolvimento e ao uso da inteligência artificial.

No geral, os data centers representam 4,4% do consumo de energia dos EUA, mas um estudo realizado pelo banco de investimentos Goldman Sachs projeta um aumento de até 8,5% até o final de 2027.

Devorando água e eletricidade

A disputa em Frederick reflete tensões em todo o território dos EUA. O país já abriga 4,6 mil centros de dados – cerca de mil a mais do que os dez países seguintes no ranking mundial dessa estatística juntos.

Quase 40% dos americanos vivem em um raio de cinco milhas de pelo menos uma dessas instalações, e esse número provavelmente aumentará, já que mais de 1,5 mil outras instalações estão em construção. Em nenhum outro lugar do mundo a concentração é maior do que no norte da Virginia.

Tudo isso está ocorrendo em um contexto de descontentamento. Uma pesquisa recente da Gallup indica, por exemplo, que 71% da população se opõe à implantação de data centers em suas comunidades.

Os data centers podem consumir até 5 milhões de galões de água por dia (o equivalente ao consumo de uma cidade de 50 mil habitantes). No entanto, não é incomum que sejam construídos em áreas com escassez hídrica. De acordo com o monitor de secas dos EUA, o condado de Frederick está passando por uma severa escassez de chuvas.

Segundo Francesca Dominici, professora de bioestatística da Escola de Saúde Pública de Harvard, as empresas de tecnologia costumam ignorar essa questão.

"Eles não estão levando em conta as questões hídricas, de forma alguma", diz ela à DW. "Os donos priorizam os locais onde podem adquirir o terreno por um preço mais baixo e onde haja políticos que deem a aprovação o mais rápido possível."

Poluição e alta nos combustíveis

Preços da eletricidade nos estados americanos com alta concentração de data centers registraram um aumento de 267% nos últimos cinco anos.

"Concessionárias de energia elétrica estão construindo um grande número de novas linhas de transmissão para atender essas instalações", conta Hannah Wiseman, professora de direito ambiental da Universidade da Pensilvânia. "Mas os custos dessas linhas de transmissão estão sendo repassados aos consumidores."

Também há a preocupação de que os data centers possam sobrecarregar a rede elétrica, o que significaria que a necessidade de suprir a demanda extra com geradores a diesel. No caso da comunidade de Frederick, o centro planejado contaria com 99 desses equipamentos, que além disso acarretam riscos à saúde.

"A exposição a partículas finas, mesmo em níveis baixos, [implica] um risco maior de malformações congênitas, doenças respiratórias, cardiovasculares e neurocognitivas, além de mortes prematuras", pontua Dominici, da Universidade de Harvard, acrescentando que também ameaçam a fauna local e prejudicam o crescimento e o rendimento das plantas.

Como data centers são regulamentados?

Apesar dos efeitos negativos sobre as comunidades, Wiseman diz que a localização dos data centers é, em grande parte, supervisionada no âmbito municipal e que muitos estados oferecem às empresas um ambiente regulatório que permite um desenvolvimento rápido, independentemente da proximidade com as pessoas ou com a natureza.

"Muitas administrações locais optaram por não definir regras sobre o uso do solo; nesse caso, uma empresa desenvolvedora de data centers pode, basicamente, fazer o que bem entender", acrescenta a professora da Universidade da Pensilvânia.

Em nível federal, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reduziu a burocracia para a criação de data centers como parte de um decreto de 2025 intitulado "Eliminando Barreiras à Liderança Americana em IA".

Muitas empresas de tecnologia têm insistido para que as autoridades locais assinem acordos de confidencialidade, diminuindo a transparência e impedindo comunidades de compreender a magnitude dos projetos e as consequências do consumo generalizado de recursos.

Assim, em vez de buscar a opinião dos moradores, eles estão trabalhando diretamente com as autoridades municipais para elaborar seus planos.

Wiseman também observa que as empresas de tecnologia e desenvolvimento estão colaborando cada vez mais com os governos estaduais no estabelecimento de normas de zoneamento e de consumo de energia.

"Elas têm participado de todos os processos regulatórios estaduais para criar tarifas especiais de energia elétrica para esses centros de dados", diz a especialista. "Parece que as empresas de tecnologia estão se envolvendo cada vez mais nas diversas propostas legislativas estaduais para restringir o poder de decisão das administrações municipais".

Construção de data center no Arizona, nos Estados Unidos — Foto: Eduardo Barraza/ZUMA/IMAGO
Construção de data center no Arizona, nos Estados Unidos — Foto: Eduardo Barraza/ZUMA/IMAGO

Como as empresas estão reagindo?

Embora as empresas de tecnologia argumentem que os data centers dinamizam as economias locais, um estudo da Universidade de Michigan constatou que essas estruturas geram empregos temporários na construção civil para as comunidades locais, mas não vagas de longo prazo na área de tecnologia.

Porém, há sinais de que essas empresas estejam buscando construir uma relação de confiança com as comunidades. Em março, a Microsoft deixou de utilizar acordos de confidencialidade com governos locais para o desenvolvimento de data centers, afirmando que desejava construir uma relação de maior confiança com os vizinhos. E a Meta afirma que está testando e utilizando concreto de baixo carbono na construção de seus data centers.

Dominici afirma enxergar "um caminho para o futuro em que todos saiam ganhando", que combina avanço tecnológico com benefícios para a população. "Eu adoraria ver uma avaliação científica apartidária de todo o impacto, e que o data center pudesse agir com o objetivo de minimizar esse impacto tanto quanto possível", diz ela.

Protesto em Frederick, Maryland, contra a expansão de data centers — Foto: Elizabeth Bauer
Protesto em Frederick, Maryland, contra a expansão de data centers — Foto: Elizabeth Bauer

Acionando os freios, ao menos temporariamente

Os protestos locais parecem ter surtido efeito. Na semana passada, Nova York se tornou o primeiro estado dos EUA a suspender a construção de novos data centers de grande porte por até um ano. Também foram propostas moratórias em outros estados, e alguns condados e municípios promulgaram suas próprias proibições temporárias.

Em Frederick, Bauer e outros ativistas continuam a se opor à construção da estrutura em sua vizinhança. Eles coletaram assinaturas suficientes para propor que a lei fosse submetida a um referendo nas eleições do condado, embora qualquer possibilidade de isso acontecer tenha sido rejeitada pela Suprema Corte de Maryland.

O condado reagiu suspendendo temporariamente a construção de novos centros de dados, mas Bauer considera que o processo democrático falhou com os moradores de Frederick.

"O cidadão comum não tem chance", diz ela. "Todo esse esforço não foi para lutar contra os data centers, mas para dar voz às pessoas".

Apesar dos desafios, ela ainda vê esperança. Segundo a ativista, há candidatos ao conselho do condado nas próximas eleições que se opõem à expansão. "Se o novo conselho assumir o cargo, poderá revogar essas medidas", argumenta ela. "Estamos decepcionados, mas não vamos desistir."

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sábado, 25 de julho de 2026

A invasão de vídeos feitos com IA para 'hipnotizar' crianças no YouTube: 'Pode impactar pelo resto da vida'

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Pesquisadores identificaram que vídeos de baixa qualidade são sugeridos pelo algoritmo da plataforma e que criadores não avisam sobre o uso de tecnologia.
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TOPO
Por Luiz Fernando Toledo

Postado em 25 de Julho de 2.026 às 07h00m
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Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da história, sem qualquer explicação, aparecem em vídeos de IA no Youtube — Foto: Bloomberg via Getty Images
Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da história, sem qualquer explicação, aparecem em vídeos de IA no Youtube — Foto: Bloomberg via Getty Images

Um urso panda reencontra um antigo cuidador e reage com surpresa, quase como se fosse um ser humano. A imagem é extremamente realista.

Um avatar de Jesus aparece em uma praia construindo estátuas de si mesmo.

Músicas infantis que não têm refrão claro, trazem letras incompreensíveis e misturam trechos em mais de um idioma.

Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da história, sem qualquer explicação.

Estes são alguns dos vídeos aparentemente criados com inteligência artificial e sugeridos pelo algoritmo do YouTube, inclusive após buscas relacionadas ao universo infantil.

Em um teste da BBC News Brasil, bastaram cerca de 15 minutos navegando pelos vídeos curtos da plataforma para que clipes desse tipo aparecessem. A busca inicial havia sido por temas como os jogos Roblox, Minecraft e vídeos de animais.

Produzidos em escala e replicados por diferentes canais, muitos desses conteúdos acumulam dezenas ou centenas de milhares de visualizações.

Criadores chegam a recomendar o nicho infantil como uma oportunidade de negócio e afirmam ser possível obter renda com esses vídeos.

Já especialistas ouvidos pela BBC News Brasil alertam que esse material pode levar as crianças a confundir realidade e ficção e afetar de forma significativa e permanente sua capacidade de atenção e seu desenvolvimento cognitivo e social.

O que explica essa invasão de vídeos gerados por IA no YouTube, o maior serviço de streaming do mundo?

Um dos fatores é econômico, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem.

O YouTube, por sua vez, diz priorizar o combate a conteúdos de IA de baixa qualidade e adotar regras mais rígidas para vídeos destinados a crianças.

Como são os vídeos infantis feitos com IA

Pesquisadores identificaram músicas, conteúdo religioso e cópias de personagens com direitos autorais em vídeos gerados por IA no Youtube — Foto: Reprodução/André Mintz/Youtube
Pesquisadores identificaram músicas, conteúdo religioso e cópias de personagens com direitos autorais em vídeos gerados por IA no Youtube — Foto: Reprodução/André Mintz/Youtube

Ainda não é possível dimensionar com clareza o tamanho e alcance deste fenômeno.

A reportagem tentou estimar a frequência com que vídeos feitos com IA aparecem para o usuário, com base no alerta visual exibido pelo YouTube para conteúdos deste tipo.

A maioria, porém, não apresentava qualquer aviso, mesmo quando havia fortes indícios do uso da tecnologia, como vozes que não correspondiam aos personagens, desenhos que mudavam de forma entre uma cena e outra e gestos ou movimentos incomuns.

Pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o YouTube não identifica automaticamente vídeos feitos com IA e que muitos criadores não informam quando recorrem à tecnologia.

Uma análise do jornal The New York Times feita manualmente e também com uma ferramenta de detecção ajuda a ilustrar a frequência com que esses vídeos aparecem.

Em uma sessão de 15 minutos realizada após a exibição de um vídeo do canal infantil CoComelon, mais de 40% dos vídeos assistidos pareciam conter imagens geradas por IA.

Mesmo com dificuldades na coleta de dados, um estudo conduzido por André Mintz, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e pela estudante de graduação em Cinema de Animação e Artes Digitais Juno Bozzi buscou identificar a presença desse tipo de conteúdo em vídeos infantis em português e inglês no YouTube.

A pesquisa partiu de uma base com cerca de 17 mil vídeos encontrados por meio de buscas com palavras-chave relacionadas à inteligência artificial e conteúdo infantil.

Em seguida, os pesquisadores aplicaram novos filtros para identificar apenas vídeos efetivamente voltados às crianças.

Os vídeos infantis gerados por IA analisados apresentavam diferentes níveis de uso desta tecnologia. Alguns pareciam ter sido produzidos quase integralmente desta forma. Outros incorporavam apenas alguns elementos, como cenários das animações.

A maior parte dos conteúdos era musical, com imagens geradas por IA acompanhadas de canções infantis. O estudo também encontrou adaptações de histórias, vídeos educativos, como lições sobre o alfabeto, e conteúdos religiosos.

Uma categoria que chamou a atenção dos pesquisadores foi a dos vídeos de "transformação", nos quais personagens de desenhos animados são recriados por IA em versões com aparência de crianças. A pesquisa aponta que esses vídeos tendem a repetir imagens genéricas e estereotipadas.

"O que chama a atenção é um certo desprezo pelo espectador infantil, de colocar qualquer coisa e confiar que a criança vai aceitar", diz o professor André Mintz à BBC News Brasil.

'Crianças pequenas não conseguem distinguir fantasia de realidade'

Rachel Franz, diretora do programa Young Children Thrive Offline (Crianças pequenas se desenvolvem melhor longe das telas, em tradução livre) da organização americana Fairplay, explica que esse tipo de vídeo se enquadra no chamado "AI slop"

Essa expressão é usada para definir vídeos de baixa qualidade, produzidos em massa com o uso de softwares de inteligência artificial.

Segundo Franz, a preocupação é maior em relação aos efeitos disso nas crianças pequenas, em um período da vida em que o cérebro ainda passa por intenso desenvolvimento.

"O cérebro das crianças atinge cerca de 90% do tamanho adulto até os 5 anos, e o que elas encontram nesse período molda seu desenvolvimento e pode impactá-las pelo resto da vida", afirma Franz.

"Crianças pequenas não conseguem distinguir fantasia de realidade. Assistir a AI slop pode condicionar o cérebro delas a acreditar que algo é real quando não é."

Franz afirma que muitos desses vídeos são produzidos para capturar a atenção infantil, não para ensinar.

Segundo ela, a sucessão de imagens confusas também pode sobrecarregar a quantidade de informações que uma criança consegue processar de uma só vez.

"Quando o cérebro é sobrecarregado com informações, a criança não consegue aprender tão bem quanto ao vivenciar situações reais, no seu próprio ritmo e usando todos os sentidos."

Ela também relaciona o consumo prolongado desses vídeos ao tempo que deixa de ser dedicado a atividades como brincar, dormir e interagir com outras pessoas.

"Vídeos hipnotizantes de músicas infantis gerados por IA, por exemplo, podem moldar o cérebro das crianças no longo prazo, afetando sua capacidade de atenção, sua resiliência e sua habilidade de regular as emoções mais tarde na vida."

Especialistas sugerem que YouTube deixe de recomendar vídeos gerados por IA — Foto: AFP via Getty Images
Especialistas sugerem que YouTube deixe de recomendar vídeos gerados por IA — Foto: AFP via Getty Images

Os possíveis efeitos do consumo deste tipo de vídeo gerado por IA já são percebidos em atendimentos, segundo Telma Pantano, fonoaudióloga e psicopedagoga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP).

"Há crianças que estão vindo com muitos medos, com muita dificuldade de definir o que acontece e o que não acontece."

Pantano afirma que a maturação das áreas pré-frontais do cérebro, relacionadas à capacidade crítica, à autorregulação e ao automonitoramento, começa por volta dos 6 anos e se estende até a vida adulta.

Segundo ela, a distinção entre realidade e fantasia começa a se consolidar por volta dos 7 ou 8 anos, enquanto habilidades como tomada de decisão e resolução de problemas se desenvolvem mais tarde.

"Até os 10 anos, é uma idade de muito risco, porque a criança ainda não sabe separar a realidade da fantasia e não tem capacidade de tomada de decisão, organização e planejamento para resolver problemas."

Para a especialista, há ainda um custo no contato constante com imagens prontas, que exigem pouco da imaginação infantil.

"Sabe aquela sensação de quando a gente vai ver um filme depois de ler o livro? Normalmente não gostamos do filme porque ele vai contra a nossa imagem mental", diz.

"O que estamos fazendo com essa construção de vídeos? Estamos permitindo que crianças e adolescentes entrem em contato com a imagem sem antes fazer essa construção mental. As imagens vêm prontas, e a criatividade fica bastante restrita."

'Quanto menor a criança, mais atrativo aquilo fica'

Pantano afirma que também não se pode esperar que as próprias crianças identifiquem e rejeitem vídeos de baixa qualidade.

Conteúdos com cores, movimentos e mudanças rápidas podem capturar a atenção mesmo quando não apresentam uma narrativa coerente ou informação confiável, diz.

"Mesmo conteúdos sem significado, sem base científica ou sem conhecimento vão atrair a criança da mesma forma. E, quanto menor a criança, mais atrativo aquilo fica."

André Mintz avalia que esse tipo de vídeo se aproveita da dificuldade de muitas famílias em controlar o consumo de conteúdo infantil online.

"Geralmente, quando você vê crianças que assistem muito conteúdo online, é essa situação do pai ou da mãe sem tempo para ficar com a criança, precisando entretê-la enquanto cuida da casa, trabalha ou faz outra coisa."

Para ele, o problema não está apenas na existência dos vídeos, mas na forma como esse tipo de conteúdo se encaixa no modelo das plataformas.

"Se tem gente assistindo, para o YouTube está bom. Vai ser recomendado, vai aparecer", diz Mintz.

Rachel Franz concorda que o impacto sobre as crianças é agravado pelo próprio modo de funcionamento das plataformas.

"Elas são projetadas para fisgar as crianças e mantê-las engajadas pelo maior tempo possível. Elas usam táticas deliberadas, como reprodução automática e recomendações algorítmicas, para alimentar as crianças com um vídeo atrás do outro", afirma.

"Quando acrescentamos AI slop, que hipnotiza ainda mais as crianças, essa se torna uma batalha perdida. Isso não apenas impacta o desenvolvimento infantil, como torna impossível exercer o papel de pai ou mãe quando a própria tela luta contra você."

YouTube diz que combater vídeos de IA de baixa qualidade é prioridade

O YouTube afirma que, embora seja permitido conteúdo gerado por IA, a plataforma tem padrões mais rígidos para o conteúdo voltado para espectadores mais jovens.

"Combater o conteúdo de baixa qualidade gerado por IA é uma prioridade máxima para nós, e isso inclui esforços contínuos para remover conteúdo de IA marcado como 'feito para crianças' quando ele não atende aos nossos princípios de qualidade", diz a plataforma em nota à BBC News Brasil.

A empresa afirma que canais que usam IA continuam qualificados para monetização, ou seja, para exibir propaganda e serem pagos por isso, "desde que o produto final seja uma criação original que adicione uma perspectiva autêntica, siga nossas diretrizes de comunidade e de monetização, e divulgue adequadamente quando o conteúdo for alterado ou sintético".

Em uma entrevista ao canal Creator Inside, em julho, o vice-presidente de confiança e segurança do YouTube, Matt Halprin, disse que são considerados problemáticos vídeos em que o conteúdo seja genéricos ou repetitivo, que busquem manipular as emoções dos espectadores ou criem peronsagems com IA para abordar temas considerados mais sensíveis, como finanças, questões legais ou saúde.

Para João Victor Archegas, coordenador de direito e tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), é positivo que o YouTube sinalize ao público o que caracteriza como um conteúdo que não seja autêntico, e que isso possa impedir sua monetização.

Isso permite que os criadores de conteúdo compreendam melhor os limites estabelecidos pela plataforma.

Para uma empresa que opera uma das maiores máquinas publicitárias do mundo, ressalta Archegas, é importante dar sinais claros a parceiros e anunciantes de que há uma preocupação com o uso dessa tecnologia, e que há alguma forma de controle pela própria plataforma.

Mas Archegas avalia que há uma contradição: o YouTube incentiva ativamente a adoção de ferramentas de IA para a criação de vídeos, enquanto tenta frear o "AI slop" (conteúdo de baixa qualidade) que essas mesmas tecnologias permitem escalar.

Isso tem, na prática, um efeito limitante sobre a capacidade do YouTube de conter a disseminação destes vídeos.

"A plataforma segue tendo o desafio imenso de identificar conteúdos gerados por IA e atuar quando eles são identificados", diz Archegas.

"Essas novas categorias podem ajudar o moderador a entender o que a plataforma considera prioritário, mas não dizem o que, de fato, o YouTube classifica como conteúdo gerado por IA ou quais são os parâmetros técnicos usados nessa moderação."

IA pode decidir atacar empresas? Como foi a invasão 'sem precedentes' por modelo da OpenAI
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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Opinião: na Copa do revisionismo, a história ainda resiste ao anacronismo da bola

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Nas últimas semanas, vivemos uma nova onda de esquecimento intencional direcionado a Pelé
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Por Luiz Teixeira — São Paulo

Postado em 24 de Julho de 2.024 às 18h30m
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PC Vasconcellos rechaça comparações de Pelé com qualquer outro jogador
PC Vasconcellos rechaça comparações de Pelé com qualquer outro jogador

O revisionismo histórico ganha, a cada dia, novos capítulos em uma sociedade envenenada pelos rotineiros épicos espalhados numa rede nada social. Reinterpretar fatos adulterando a história, cujo objetivo único é justificar narrativas próprias, é o mesmo que negar a existência de consensos já estabelecidos ou não contextualizar, de forma correta e com fatos, o que já passou. História não é nada sem contexto, assim como presente não é nada sem passado, inclusive em Copas do Mundo.

Nas últimas semanas, vivemos uma nova onda de esquecimento intencional direcionado ao Rei do Futebol, exatamente na primeira Copa do Mundo sem a presença física de Edson Arantes do Nascimento, mesmo Pelé sendo lembrado e com muito destaque na abertura da grande final em Nova Jersey.

De uma maneira geral, parece que olhar e respeitar o passado virou uma ofensa grave, assim como rememorar tudo que foi pavimentado virou motivo de chacota, principalmente para nós, brasileiros. Incoerente, não? Sim, mas há um método. Silenciar também é opinar. Omitir também é se posicionar. E o desapego pela memória está cada dia mais presente no nosso dia a dia, inclusive no futebol, principalmente em tempos de Copa.

Qualquer comparação com Pelé é diferente, ou ao menos seria, se o debate não fosse logo interditado por quem se recusa a valorizar um passado menos documentado do que o presente. Na monarquia da bola, assim como na sociedade, tomar a coroa, que não seja por herança, é uma missão de guerra, mas quase todas as estratégias usadas são sujas, mesmo que os números estejam a favor do Rei.

"O Pelé jogou mais do que você imagina, mais do que você não viu e mais do que você jamais verá"

Pelé está no Guiness Book como o jogador de futebol, com registros oficiais, que mais marcou gols na história: 1279. Em 1959, um ano após se tornar o jogador mais jovem a marcar gols e conquistar uma Copa do Mundo, o Rei atingiu a inalcançável marca de 127 gols em um único ano, registro exaltado e destacado pela Fifa em seu site oficial no dia da morte de Pelé. No entanto, as duas estatísticas citadas foram simplesmente apagadas da história. O motivo? Revisionismo histórico, jogos invalidados e desaparecimento daquilo que existiu e foi vivido.

Liderada por Pelé, seleção brasileira conquistou a Copa do Mundo de 1970 no Estádio Azteca — Foto: Divulgação / Fifa
Liderada por Pelé, seleção brasileira conquistou a Copa do Mundo de 1970 no Estádio Azteca — Foto: Divulgação / Fifa

O que antes valia, hoje não presta. A tentativa de reorganizar a memória do futebol apagando o passado é um movimento que está ganhando força através do sumiço de feitos e de conquistas de quem construiu o esporte que temos hoje. Estamos entregando a cabeça do Rei de bandeja para quem sempre o quis fora do trono e nem estamos falando de revolução ou quedas históricas. O nome desse apagamento é outro.

Já sobre o anacronismo de exaltar a longevidade de atletas atuais sem analisar o contexto da época do Pelé, é leviano ignorar tecnologia e avanços da medicina esportiva, além da superproteção aos craques do presente. No entanto, o mito da não perenidade do Rei cai sobre terra diante dos números.

Pelé deu os primeiros passos no futebol em 1957 pelo Santos, se aposentando em 1977, 20 anos depois, sendo campeão e melhor jogador da Liga Norte Americana de Futebol pelo New York Cosmos. 20 anos de alto nível, com títulos brasileiros, de Libertadores, Mundial de Clubes, três Copas do Mundo, sendo uma em cada década e mais de 1200 gols marcados.

No livro O Avesso da Pele, Jeferson Tenório destaca que resistir é recusar o apagamento da história quando abordamos a luta contra a invisibilidade social. O mesmo vale para o futebol e para o Rei Pelé. Recusar o apagamento significa afirmar a existência, a memória e a dignidade de grupos historicamente marginalizados.

Na véspera da final entre Espanha e Argentina em Nova Jersey, Lionel Messi usou da história para justificar os feitos da Argentina em Copas. "Aconteça o que acontecer, este grupo já escreveu uma história que ninguém poderá apagar", escreveu o craque em sua rede social. Com Messi vale e com Pelé não? Apagar um corpo negro da história não é uma novidade. O Pelé é a bola da vez, de um esporte em que ele sempre foi o dono da bola. Um Rei que criou o futebol moderno, que inventou a camisa 10 e O camisa 10. Número que Messi usa por causa de Pelé.

Não seria uma final de uma Copa do Mundo que mudaria a monarquia da bola e ela não mudou. A verdadeira história desta Copa não será contada apenas pelos gols que vibramos, mas também por tudo aquilo que escolhemos não enxergar. E falar. De casos de racismo a xenofobia, passando por interferências presidenciais e falta de isonomia entre determinadas seleções.

Na Copa do revisionismo, quem perdeu foi a história. E a história não se apaga. Podem continuar tentando substituir Pelé, mas o futuro do futebol, assim como o passado, é negro. De um rei único e nunca posto, já que os fatos são imunes à pós-verdade.

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