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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Pai conta como descobriu que filha se automutilava em desafios no Discord: 'Ela podia ter morrido pela minha ignorância'

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Brasileiro, que contou sua experiência no livro 'Aconteceu com minha filha', celebra decisão da ANPD de suspender transmissões ao vivo na plataforma: 'Precisam sentir as consequências'.
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TOPO
Por BBC

Postado em 14 de Agosto de 2.026 às 11h00m

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O Discord reconhece que não identificou, a tempo, risco na transmissão que terminou com a morte de uma menina de 13 anos
O Discord reconhece que não identificou, a tempo, risco na transmissão que terminou com a morte de uma menina de 13 anos

Aviso de conteúdo sensível: esta reportagem contém detalhes que podem ser perturbadores para alguns leitores.

A notícia do suicídio de uma menina de 13 anos no mês passado, transmitido ao vivo na rede social Discord, chocou o Brasil. Mas ela calou ainda mais fundo no peito de um pai que salvou a filha, então um ano mais nova do que a vítima de Naviraí (MS), de um ciclo de automutilações induzidas por usuários da plataforma.

"Fiquei chocado, porque minha filha podia ter chegado a esse fim", diz Paulo Zsa Zsa, pseudônimo adotado pelo pai, que contou sua história familiar no livro Aconteceu com minha filha (Geração Editorial, 2025). "Essa menina tinha mais ou menos a idade que ela tinha quando começaram a aparecer os primeiros sinais."

Paulo, que é pai solo, conta que o primeiro sinal de alerta veio num passeio de barco com a filha e amigos da família.

"Uma amiga notou que tinha alguns cortes no corpo da minha filha, escondidos por debaixo daquela blusa de proteção UV", lembra. "E, de noite, ela me liga e diz: 'Olha, Paulo, eu acho que a Júlia está se cortando'."

Passado o choque inicial com a informação, Paulo questionou a filha.

"Fui ao quarto dela e perguntei: 'Minha filha, você está se cortando?'. Ela ficou parada, sem nenhuma reação ou negação. Então, pedi a ela: 'Você pode me mostrar?'. E aí, a virilha estava toda mutilada."

Paulo conta que perguntou à filha por que ela estava fazendo aquilo, e a menina disse que não sabia.

"Esse foi o grande choque que eu tive na minha vida, mas então eu não sabia que isso tinha a ver com desafios, com internet, com o Discord." 
Um celular para curar a solidão

Paulo conta que cria a filha sozinho desde que ela era pequena, e que percebia que a menina era introspectiva, não se misturava com as outras e se sentia excluída.

"Eu me lembro de participar daquelas festividades que têm na escola, e me doía muito no coração quando eu via as outras meninas em turminhas e ela sempre escanteada", lembra.

Nesses encontros, Paulo via as outras crianças utilizando o celular. Então presenteou a filha com um aparelho, na esperança de que pudesse ser algo que fizesse ela se integrar melhor em grupos.

"Eu não tinha a menor ideia de que o celular era uma porta aberta para esse inferno em que a nossa vida se transformou", afirma.

O pai conta que sentiu os primeiros sinais de que havia algo errado na relação da menina com as telas durante a crise da covid-19.

"Ela foi uma menina vítima da pandemia, como milhões de crianças. Que foi obrigada, de uma hora para outra, a viver confinada numa casa, tendo aulas online, então com o computador disponível, e que o lazer que tinha era passar o dia assistindo a vídeos no YouTube e utilizando o celular."

Discord — Foto: Ivan Radic/Flickr
Discord — Foto: Ivan Radic/Flickr

Júlia começou o que seu pai percebe hoje como um vício em telas jogando Minecraft, um game em que o jogador constrói e explora mundos formados por blocos semelhantes a peças de Lego.

Depois, ela passou ao Roblox, plataforma em que o usuário pode escolher entre milhares de jogos criados por outros participantes, e assistia por horas tutoriais de jogo no YouTube. A menina foi apresentada ao Discord por alguém que conheceu no Roblox, relata o pai.

Paulo conta que já percebia, desde a pandemia, o crescente vício em telas da filha, que cada vez menos queria fazer outras coisas, como socializar, ou sair do quarto.

Na volta às aulas presenciais, o isolamento de Júlia e sua dificuldade em interagir na escola se tornaram ainda mais evidentes, diz ele.

'Pai, me interna!'

Depois do episódio do barco, Paulo conta que a filha foi gradativamente passando a se cortar em áreas mais aparentes, como os pulsos e os braços.

"E aí acontece o primeiro episódio, em que ela toma um monte de remédio e diz que queria se matar", conta o pai.

Nessa ocasião, a menina foi levada ao hospital e passou a fazer acompanhamento psiquiátrico e tomar remédios, além do acompanhamento psicológico que fazia desde a infância.

Número de denúncias envolvendo o Discord aumentou 54% neste ano — Foto: Getty Images via BBC
Número de denúncias envolvendo o Discord aumentou 54% neste ano — Foto: Getty Images via BBC

"Eu achava que era uma menina que perdeu a mãe, que tinha esse trauma, que se sentia excluída e que estava de alguma forma se automutilando em resposta a isso", diz Paulo.

Até que um dia, por volta das 23h, ele estava em seu quarto assistindo televisão, quando a filha bateu à porta, chamando-o.

"Quando eu entro no quarto dela, ela está de calcinha e sutiã, totalmente cortada, os pulsos, a virilha, e o sangue escorrendo", recorda. "E ela fala: 'Pai, eu surtei, me interna! Eu surtei'."

Apesar do choque, Paulo agiu com pragmatismo. Tirou foto dos ferimentos e enviou à psiquiatra, e deu um banho na filha, quando notou que, apesar de todo o sangue, os cortes eram superficiais.

Ao se preparar para levar a pré-adolescente ao hospital, ela só quebrou o silêncio para pedir para levar o celular com ela. Paulo negou e entregou o aparelho à funcionária da família, que ele chama no livro de Dona Tereza.

O pai pediu a Dona Tereza que inspecionasse cuidadosamente o conteúdo do celular, e enviasse a ele qualquer coisa que chamasse a atenção.

"A partir daí, o mundo se descortina", diz Paulo. Enquanto pai e filha davam entrada no hospital, Dona Tereza mandava a ele capturas de tela e vídeos que encontrava no celular.

"Aí eu comecei a ver aquelas coisas, vídeos dela se mutilando e, ao mesmo tempo que ela fazia uma cara triste, ela dava um joinha para o vídeo", recorda.

"E falando: 'Eles me obrigaram a tatuar uma suástica no meu rosto, eles me obrigaram a me queimar com fósforos, eles me obrigaram a jogar perfume em cima das minhas feridas, eles me obrigaram a beber água da privada'", conta.

"E ela tinha printado todo o diálogo da panela em que ela tinha participado. E aí aparece um termo lá chamado LULZ."

LULZ

A princípio, Paulo achou que se tratava de um erro de digitação. Mas, pesquisando, encontrou uma reportagem do programa Fantástico de 2023 sobre o Discord.

A reportagem mostrava o caso de uma menina de 13 anos que ateou fogo à própria casa, transmitindo tudo ao vivo pela plataforma. A menina chegou a registrar a presença dos bombeiros e postar: "Botei fogo na casa, daora".

Assim, Paulo foi apresentado da maneira mais dura ao LULZ, gíria da internet derivada de LOL (laughing out loud, ou rindo alto), usada para descrever a diversão obtida às custas do sofrimento, constrangimento ou irritação de outras pessoas.

"Eram crianças e adolescentes, que participavam de grupos com transmissão ao vivo, grupos fechados, sem nenhum monitoramento", afirma.

Criado em 2015 como um espaço para jogadores online compartilharem mensagens, imagens, áudios, memes e transmissões em um só lugar, o Discord permite a criação de comunidades fechadas, onde só se entra com convite.

São os chamados servidores ou "panelas", no caso de um subgrupo dentro de um servidor. A filha de 12 anos de Paulo, como ele veio depois a saber, era parte de uma panela do Discord.

"E aí, um ia ser o mediador e dizia: 'Hoje vou fazer LULZ, quem quer ser a cobaia?' Como se fosse aquela brincadeira de 'o mestre mandou', mas uma coisa sórdida."

Paulo conta que os registros do celular mostravam a filha fazendo coisas sob as ordens de outros adolescentes, enquanto centenas de pessoas acompanhavam, gritando, se xingando, e estimulando uns aos outros a fazer mal a si mesmos.

"Todos são vilões e todos são vítimas. Não é um 'bicho papão', uma pessoa mais velha induzindo a fazer maldades. São os próprios adolescentes agindo, como se isso fosse uma coisa bacana."

O pai conta que descobrir tudo isso foi um choque, mas ao mesmo tempo um alívio.

"Ali era um caminho em que eu estava descobrindo o que estava acontecendo, que não era simplesmente da cabeça dela que ela estava se cortando", diz Paulo.

"Toda segunda-feira, quando eu checava os lençóis dela, estavam sempre marcados de sangue. Ela se cortava muito aos domingos", lembra ele.

"E eu vim depois a descobrir que ela participava muito desses grupos de desafio aos domingos. Foi assim que eu descobri esse mundo nefasto do Discord."

Da culpa à ação

Desde esse momento de virada, Paulo conta que a filha recebeu tratamento psiquiátrico e psicológico e, agora, aos 15 anos, já teve alta. Júlia agora faz academia e teatro, namora e tem amigos, mas o caminho não foi fácil.

"Foi um processo longo e doloroso, de muita reação agressiva, e que custou muita energia para sustentar", diz Paulo.

Para eles, o caminho passou primeiro pela proibição total de acesso ao celular e às redes sociais.

Com a evolução do tratamento, Júlia recebeu novamente acesso a um aparelho, mas sem redes sociais ou WhatsApp. Agora, ela voltou a ter WhatsApp, mas o pai tem acesso à senha, e jogos online e redes sociais seguem proibidos.

"Minha filha agora está muito bem, mas eu me sinto culpado até hoje. Porque a obrigação do pai é educar e proteger seus filhos dos perigos do mundo", diz Paulo.

"Por isso, quando ele vai para a rua, você quer saber com quem ele está, para onde ele vai. Com a internet é a mesma coisa, só que eu não sabia que o Discord era essa rua, mas à enésima potência. Minha filha podia ter morrido pela minha ignorância."

Paulo diz que escrever o livro foi a sua forma de ajudar outros pais a terem o conhecimento que ele não tinha quando passou por tudo isso com a filha.

O caso da menina de 13 anos que morreu por suicídio em Naviraí (MS) reforçou nele esse sentimento.

"Quando vejo uma notícia dessas, eu agradeço a Deus por ter descoberto a tempo de ter salvado minha filha", diz Paulo.

"E lamento que esses pais não tenham tido as informações que pudessem ter ajudado a salvar a vida de seus filhos. Por isso, eu escrevi esse livro."

Paulo vê com bons olhos o debate sobre regulamentação do Discord que emergiu a partir desse episódio. E celebra a decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), na última quarta-feira (12/8), de suspender transmissões ao vivo na plataforma no Brasil.

"Alguma coisa tem de ser feita e, infelizmente, essas grandes corporações só se mexem quando a corda aperta", afirma. "Se não conseguem garantir um ambiente minimamente seguro, precisam ser responsabilizadas e sentir as consequências."

Quanto ao pedido da primeira-dama Janja da Silva e do Instituto Defesa Coletiva para que a plataforma seja suspensa no Brasil, Paulo acredita que esse pode ser de fato um instrumento de pressão para que a empresa tome medidas mais efetivas de moderação de conteúdo.

"Para mim, o que funcionou foi banir o Discord da vida da minha filha, foi botar ele offline. Talvez esse seja o caminho para o Brasil", afirma.

Em nota à BBC News Brasil, o Discord afirmou que não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência e que está cooperando com as autoridades policiais na investigação do caso da menina de Naviraí (MS).

A empresa disse ainda que "mantém um diálogo contínuo com as autoridades brasileiras, incluindo o Ministério da Justiça, e tem atuado de forma proativa ao reportar indivíduos às autoridades policiais brasileiras, contribuindo para operações que resultaram em prisões".

"Temos o compromisso com a segurança dos nossos usuários e contamos com equipes dedicadas a desarticular esses grupos, remover conteúdos que violem nossas políticas e tomar medidas contra os responsáveis por essas condutas."

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Grupo de hackers diz ter roubado dados de quase 50 empresas, incluindo Philips e Shell

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Cl0p afirma ter explorado falhas em softwares usados por empresas de engenharia e fabricação; companhias confirmam tentativas de invasão, mas não há confirmação independente de que os dados tenham sido roubados.
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TOPO
Por Reuters

Postado em 14 de Agosto de 2.026 às  07h00m

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Cybercrime; hacker; crimes digitais; crimes virtuais — Foto: Kevin Horvart/Unplash
Cybercrime; hacker; crimes digitais; crimes virtuais — Foto: Kevin Horvart/Unplash

Um grupo de hackers conhecido por explorar falhas de segurança em softwares para atacar várias empresas ao mesmo tempo afirmou ter roubado grandes volumes de dados de quase 50 companhias em todo o mundo, incluindo Philips, Shell, Fiserv e General Eletric.

A alegação foi publicada no site do próprio grupo.

A Philips confirmou que foi alvo do grupo Cl0p e informou que identificou e conteve uma tentativa de invasão a um servidor corporativo ligado a dados internos. Segundo a empresa, o incidente não afetou os ambientes de clientes.

A Shell disse que está ciente de um "possível incidente" recente e que trabalha com suas equipes de segurança e especialistas externos para investigar o caso.

Ataque hacker tira sites de prefeituras do ar Invasão atinge
Ataque hacker tira sites de prefeituras do ar Invasão atinge

Já a Fiserv afirmou que conhece as alegações dos hackers, mas que, após uma análise completa realizada até o momento, não encontrou evidências de comprometimento de dados de clientes, informações bancárias, transações ou dados pessoais, nem de impacto em seus sistemas.

A General Eletric não respondeu aos pedidos de comentário.

A Reuters não conseguiu verificar de forma independente se os hackers realmente roubaram os dados, nem qual seria o volume ou o tipo de informação obtida. O grupo Cl0p também não respondeu aos pedidos de entrevista.

Ainda não está claro como os invasores acessaram as empresas

Apesar da icnerteza de como as empresas foram hackeadas, a Ransom-ISAC, organização que compartilha informações sobre ameaças cibernéticas, alertou em 22 de julho que o Cl0p estava explorando falhas de segurança nos programas PTC Windchill e FlexPLM, softwares usados por empresas para gerenciar projetos de engenharia e processos de fabricação.

A PTC, empresa responsável pelos programas, não comentou o caso.

Desde 18 de junho, ela publicou diversos alertas de segurança orientando seus clientes a instalar uma atualização que corrige a vulnerabilidade e informando sobre ataques contra seus produtos.

Hacker — Foto: DC Studio/Freepik
Hacker — Foto: DC Studio/Freepik

Segundo Brandon Parsons, gerente de inteligência de ameaças da Ascent Solutions e autor do alerta da Ransom-ISAC, algumas empresas começaram a receber notificações do Cl0p entre 19 e 20 de julho.

Ele afirma que o grupo não costuma escolher vítimas específicas, mas sim explorar uma mesma falha em softwares amplamente utilizados.

Eles não atacam uma empresa específica. Eles encontram uma vulnerabilidade de dia zero e exploram essa falha, disse Parsons.

Uma vulnerabilidade de dia zero é uma falha de segurança desconhecida pelo fabricante do software e que ainda não possui correção disponível, tornando milhares de usuários potenciais alvos de ataques simultâneos.

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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O que realmente acontece com seus dados quando você clica em 'deletar'?

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Um equívoco comum é achar que deletar equivale a apagar totalmente os dados, mas esta visão está, em grande parte, errada.
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TOPO
Por Dana Lungu

Postado em 13 de Agosto de 2.026 às 06h00m
Interface gráfica do usuário, Texto, Aplicativo

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
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Um equívoco comum é achar que "deletar" significa "apagar", mas, em grande parte, a ideia está errada — Foto: Bruno Saito/Pexels
Um equívoco comum é achar que "deletar" significa "apagar", mas, em grande parte, a ideia está errada — Foto: Bruno Saito/Pexels

"Deletar" é algo comum na vida moderna. Estamos sempre enviando arquivos e pastas para a lixeira de nossos aparelhos e, muitas vezes, nos livramos de contas pessoais indesejadas. Mas você sabe o que realmente acontece quando você clica no botão "deletar"?

O processo de exclusão costuma ser mal explicado pelos provedores de tecnologia. A falta de transparência sobre como as solicitações são processadas e a ausência de uma confirmação clara de que os dados foram removidos são frequentemente destacadas em pesquisas.

Essas questões não se limitam aos sistemas operacionais. Em plataformas de mídia social e em uma ampla gama de serviços por assinatura, os mecanismos de exclusão costumam ser igualmente pouco claros. Tais equívocos podem ter sérias implicações para o bem-estar dos usuários, expondo-os a vulnerabilidades de segurança e problemas de privacidade.

Uma complicação adicional é que muitos usuários temem perder dados, arquivos, fotos e vídeos por meio de exclusão acidental – uma condição apelidada de "diagrafofobia".

Embora não se trate de uma patologia reconhecida, estudos sobre o comportamento de acumulação digital mostram que algumas pessoas ficam muito ansiosas com a ideia de perder ou excluir acidentalmente informações pessoais, como fotos e músicas.

Essas preocupações aumentam a quantidade de dados pessoais que não são acessados, mas também não são excluídos, ficando expostos a um possível uso indevido.

Deletar x apagar

Um equívoco comum é achar que "deletar" significa "apagar" – a ideia de que, uma vez que um item excluído não esteja mais visível, ele tenha sido completamente apagado, sem possibilidade de recuperação. Isso está, em grande parte, errado.

Quando os usuários deletam arquivos – movendo-os para a lixeira e, em seguida, excluindo-os permanentemente –, os dados não são, na verdade, apagados.

Em vez disso, o sistema marca o espaço de armazenamento como reutilizável e atualiza os metadados para desvincular o arquivo.

Mas o conteúdo subjacente muitas vezes permanece recuperável com as ferramentas certas, especialmente quando os dados estão duplicados em vários sistemas ou dispositivos.

Muitos usuários temem perder dados, arquivos, fotos e vídeos por meio de exclusão acidental — Foto: Ujesh Krishnan/Unsplash
Muitos usuários temem perder dados, arquivos, fotos e vídeos por meio de exclusão acidental — Foto: Ujesh Krishnan/Unsplash

Formas mais robustas de exclusão incluem a destruição física do meio de armazenamento, a sobrescrita dos blocos de memória com novos dados para ocultar o original, ou a criptografia dos dados seguida da destruição da chave.

Tais métodos, no entanto, podem ser caros ou tornar o dispositivo de armazenamento inutilizável (por exemplo, ao sobrescrever dados em mídias magnéticas). As características da infraestrutura em nuvem também representam desafios para a exclusão segura de dados.

Da mesma forma, o conteúdo em redes sociais públicas pode não ser realmente apagado após a exclusão devido a respostas, comentários e arquivos da internet, que podem armazenar as postagens de alguma forma. O significado de um tuíte excluído pode, por exemplo, ser recriado com base em respostas e menções.

Contas 'zumbis'

Outro equívoco é achar que excluir um aplicativo de um dispositivo apaga automaticamente a conta associada. Os usuários frequentemente deixam contas de aplicativos móveis sem excluir porque não sabem de sua existência, já que excluíram o aplicativo relacionado.

São as chamadas contas "zumbis" – perfis abandonados em uma ampla variedade de serviços, desde aplicativos de compras e armazenamento até namoro, finanças e streaming.

Milhões de usuários têm contas zumbis, com dados pessoais que estão vulneráveis a ataques cibernéticos e violações de dados.

O crescimento exponencial da IA levanta uma outra questão: os dados podem realmente ser excluídos depois de terem sido usados para treinar modelos de IA? Os módulos de aprendizado de máquina memorizam facilmente os dados com os quais foram treinados, mas "desaprender" é difícil.

Em teoria, pessoas na Europa e em muitos outros países ao redor do mundo têm um "direito de ser esquecido" previsto em lei. Isso significa que podem solicitar o apagamento total de quaisquer dados pessoais que uma plataforma ou empresa possa ter.

Os desenvolvedores de IA são considerados controladores de dados de acordo com as leis do Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) da UE, por exemplo, e estão sujeitos a essa obrigação.

Mas não há diretrizes claras sobre como a exclusão deve ser aplicada nos sistemas de IA. Os órgãos reguladores podem solicitar a exclusão, mas as empresas de IA podem argumentar que a conformidade é inviável devido a restrições técnicas.

ChatGPT, DeepSeek, Claude, Mistral AI, Gemini, Copilot e Poe — Foto: Solen Feyissa/Unsplash
ChatGPT, DeepSeek, Claude, Mistral AI, Gemini, Copilot e Poe — Foto: Solen Feyissa/Unsplash

Exclusão explicável

Para combater os riscos decorrentes da exclusão incompleta, acredito que haja uma necessidade urgente de fornecer informações concisas, acessíveis e claras sobre como a exclusão realmente funciona.

Uma abordagem possível é a "exclusão explicável" – um protocolo desenvolvido por Marvin Ramokapane no Centro Nacional de Pesquisa sobre Privacidade, Redução de Danos e Influência Adversária Online (Rephrain), sediado na Universidade de Bristol, Reino Unido.

A intenção é tornar os processos de exclusão mais transparentes e compreensíveis, sem sobrecarregar o usuário com informações excessivas de uma só vez.

A exclusão explicável divide as informações em seis categorias: o quê, como, quando, quem, onde e por quê (veja o diagrama). Cada uma oferece ao usuário informações sucintas sobre essa parte do processo.

A exclusão explicável foi projetada para dar aos usuários controle sobre suas ações, autonomia para escolher o tipo de exclusão mais adequado para eles e a garantia de que as ações desejadas foram realizadas. Ela também pode amenizar a ansiedade de perder dados acidentalmente, oferecendo opções para recuperação.

Embora a exclusão explicável ainda não tenha sido adotada na prática, os provedores de serviços — tanto plataformas quanto desenvolvedores — poderiam aumentar a confiança dos usuários ao adotar tais protocolos. Essa estrutura também pode servir como prova de conformidade com as normas do GDPR da UE e com o direito ao esquecimento.

A maioria de nós usa sistemas que coletam e armazenam nossos dados diariamente. Se esses sistemas explicassem claramente o que armazenam e o que a exclusão realmente significa, isso poderia nos ajudar a identificar as contas e os dados que representam um risco real — e a retomar o controle de nossas pegadas digitais.

Dana Lungu não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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