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Depoimento ocorre em um julgamento considerado histórico nos EUA, em que estados acusam a empresa de promover dependência entre jovens e coletar dados de crianças de forma ilegal. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Por Reuters Postado em 19 de Agosto de 2.026 às 15h10m . #.* $ Post. - Nº.\ 5.508$*.#.
Mark Zuckerberg, CEO da Meta — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
Arturo Bejar, que foi funcionário da empresa entre 2009 e 2015, afirmou
que o presidente da Meta participava diretamente de grande parte das
decisões. Segundo ele, a estrutura hierárquica da empresa fazia com que mudanças nos produtos só fossem implementadas mediante aprovação do CEO.
"Se Mark prioriza algo, montanhas se movem em poucos meses", disse Bejar.
Bejar é a primeira testemunha de um julgamento considerado histórico envolvendo acusações de uma coalizão de estados americanos.
Os estados alegam que a Meta projetou suas plataformas para estimular o
uso compulsivo entre usuários jovens e coletou ilegalmente dados de
crianças menores de 13 anos.
Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey acusam a Meta de
desenvolver o Facebook e o Instagram de forma a incentivar o uso
excessivo por jovens, contribuindo para problemas como ansiedade,
depressão e até pensamentos suicidas. Os estados também afirmam que a
empresa induziu consumidores ao erro sobre a segurança das plataformas.
Esses estados, juntamente com outros 25, também acusam a Meta de violar
a legislação federal ao coletar e utilizar indevidamente dados pessoais
de crianças em suas plataformas.
A Meta negou as acusaçõese argumentou que as opiniões de Bejar extrapolam o escopo de suas funções na empresa.
Bejar começou a depor na terça-feira, primeiro dia do julgamento, no tribunal federal de Oakland, na Califórnia.
O julgamento deve durar cerca de seis semanas, e a expectativa é que Zuckerberg também preste depoimento.
Segurança era uma preocupação secundária
Bejar ajudou a conduzir pesquisas sobre a experiência de adolescentes
no Instagram como integrante de uma equipe que analisava o impacto da
plataforma no bem-estar dos usuários entre 2019 e 2021.
Desde então, ele se tornou um dos principais críticos das políticas de
segurança da Meta para crianças. Em 2023, ao depor diante de uma
comissão do Senado dos Estados Unidos,
afirmou que a empresa tinha conhecimento de casos de assédio e de
outros problemas enfrentados por adolescentes em suas plataformas, mas
não adotou medidas suficientes para solucioná-los.
No depoimento desta quarta-feira, Bejar afirmou que a empresa utilizava
indicadores como nível de engajamento e número de usuários ativos
diários para avaliar e recompensar funcionários. Segundo ele, isso fazia
com que o crescimento e a rentabilidade recebessem mais atenção do que a
segurança dos usuários.
Ele também afirmou que uma ferramenta criada para incentivar pausas no
uso dos aplicativos, frequentemente citada pela Meta em sua defesa,
teria sido "projetada para falhar". Segundo Bejar, o recurso não vem
ativado por padrão e os lembretes são fáceis de ignorar.
"Tudo
depende de como o tempo de desenvolvimento dos produtos é distribuído",
disse ele. "Nesse contexto, a segurança sempre ficou em segundo plano."
Bejar também afirmou que a Meta tinha tecnologia para identificar
usuários suspeitos de terem menos de 13 anos e exigir verificações
adicionais de idade. Segundo ele, a empresa optava por não agir de forma
ampla diante do problema, adotando uma postura que classificou como de
"não pergunte, não conte", por considerar essa estratégia
financeiramente vantajosa no longo prazo.
"Onde estão as crianças de hoje estão também os usuários do futuro", disse ele.
Especialistas afirmam que este julgamento representa o maior teste
judicial já realizado sobre os efeitos das redes sociais entre os
jovens.
A Meta enfrenta milhares de processos semelhantes relacionados a
supostos danos causados a crianças. Bejar atuou como testemunha em três
dos casos que chegaram a julgamento até agora. Um deles, movido pelo
estado do Novo México, terminou com a imposição de US$ 942 milhões em
indenizações e multas, além de uma ordem judicial determinando mudanças
nas plataformas da empresa no estado.
Candice Odgers estuda saúde mental de crianças e adolescentes há 25 anos e diz que restrições não são baseadas em evidências científicas e não vão funcionar. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Por Alessandra Corrêa 17/08/2026 14h58 Atualizado há 02 horas Postado em 17 de Agosto de 2.026 às 17h00m . #.* $ Post. - Nº.\ 5.507$*.#.
'Proibir redes sociais para jovens não será solução mágica', diz psicóloga canadense — Foto: Getty Images via BBC
"É muito fácil vender histórias assustadoras para os pais. Nós somos um
grupo ansioso", diz a psicóloga canadense Candice Odgers em um TED Talk
que já teve mais de 260 mil visualizações desde que foi lançado, em
junho.
Odgers se refere à ideia que ganhou força nos últimos anos de que
smartphones e redes sociais estão por trás de um aumento nas taxas de
ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental entre e
adolescentes.
Os possíveis efeitos nocivos dessastecnologias
são fonte de preocupação não apenas para pais e mães, mas também para
governos ao redor do mundo, muitos dos quais vêm adotando restrições ao
uso desses serviços pelos mais jovens.
No Brasil, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou a
suspensão das transmissões ao vivo (lives) do Discord. A decisão ocorreu
após uma adolescente de 13 anos ter sido induzida à automutilação e ao
suicídio durante transmissões em grupos na plataforma.
A plataforma tem até esta segunda-feira (17/8) para cumprir a
determinação. A suspensão vale até que a empresa comprove que adotou
medidas eficazes para proteger crianças e adolescentes.
Mas Odgers, que é professora da Universidade da Califórnia em Irvine
(UCI), nos Estados Unidos, especialista em psicologia do desenvolvimento
e há 25 anos se dedica a estudar a saúde mental de crianças e
adolescentes, argumenta que essas reações não são baseadas emevidências científicas.
"Estudo a saúde mental de adolescentes há muito tempo, e o que
realmente me surpreende nesse debate é a distância enorme que existe
entre a narrativa dominante quando se fala sobre os efeitos das redes
sociais e o que a grande maioria dos estudos encontrou até hoje", diz
Odgers à BBC News Brasil.
Odgers enfatiza que as empresas de tecnologia devem ser
responsabilizadas por garantir a segurança das plataformas e que é
preciso mais regulamentação.
No entanto, ela afirma que, quando estudos mostram uma associação entre
redes sociais e a saúde mental dos jovens, esta é muito pequena e tende
a desaparecer após levados em conta outros possíveis fatores. Além
disso, mesmo quando indicam correlações, não fica clara a direção da
relação.
Segundo ela, proibir smartphones e redes sociais não vai resolver o
problema e pode até ter o efeito contrário, ao ignorar causas mais
complexas, impedir que se pense em outras soluções e empurrar os jovens
para espaços menos regulados.
Candice Odgers é especialista em psicologia do desenvolvimento e
professora da Universidade da Califórnia em Irvine, nos EUA — Foto:
Cortesia/Steve Zylius/UC Irvine
Odgers não é a única a questionar o foco nas redes. Um comitê da
Academia Nacional de Ciências dos EUA estudou o tema por um ano e
concluiu que pesquisas sobre a relação entre redes sociais e saúde
mental mostram "efeitos pequenos" e "associações fracas", que podem ser
"influenciados por uma combinação de experiências boas e ruins".
"Ao
contrário da narrativa cultural predominante de que as redes sociais
são universalmente prejudiciais aos adolescentes, a realidade é mais
complexa", disseram os autores.
Mas propostas para restringir o acesso de jovens às redes continuam
ganhando apoio, diante de temores sobre os possíveis impactos de um
ambiente online onde muitas vezes há risco de bullying, assédio e abuso
sexual, conteúdos de teor extremo e outras ameaças.
Segundo o Pew Research Center, 56% dos adultos nos Estados Unidos são a
favor de proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos, e 77%
apoiam a proibição de celulares em sala de aula.
No ano passado, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a
proibir menores de 16 anos de usar plataformas como Facebook, Instagram,
Snapchat, X, TikTok, YouTube e outras.
Desde então, diversos países, entre eles França, Reino Unido e Canadá, adotaram ou passaram a estudar algum tipo de restrição.
No Brasil, entrou em vigor em março o ECA Digital (Estatuto Digital da
Criança e do Adolescente), que não impede o uso das redes por menores,
mas estabelece uma série de restrições de conteúdo e controles.
Depois de anos estudando o dia a dia dos adolescentes em seus
smartphones, ela ressalta que eles são resilientes e destaca os avanços
nos últimos 20 anos, como queda nas taxas de violência, consumo de
álcool e gravidez na adolescência.
"Os adolescentes de hoje são incríveis", diz Odgers no TED Talk, intitulado What we're getting wrong about kids and tech("O que estamos entendendo errado sobre as crianças e a tecnologia", em tradução livre).
Para a psicóloga, que é mãe de dois adolescentes, a maneira de ajudar
os jovens é estabelecer expectativas altas e apoiá-los para que consigam
alcançá-las.
Leia a seguir os principais trechos de sua entrevista à BBC News Brasil.
BBC
News Brasil — Nos últimos anos, smartphones e redes sociais vêm sendo
citados entre as principais causas para a crise de saúde mental entre
crianças e adolescentes. Mas a senhora estuda o tema há 25 anos e diz
que não há evidências disso. O que exatamente mostram os estudos?
Candice Odgers —
Estudo a saúde mental de adolescentes há muito tempo, e o que realmente
me surpreende nesse debate é a distância enorme que existe entre a
narrativa dominante quando se fala sobre os efeitos das redes sociais e o
que a grande maioria dos estudos encontrou até hoje.
Existem correlações entre o uso mais intenso e problemas de saúde
mental, mas não sabemos em qual direção elas vão. Muitas vezes
observamos que jovens que [já] enfrentam problemas de saúde mental
tendem a passar mais tempo online.
Então, encontramos associações mínimas e em direções variadas. Às
vezes, as pessoas encontram associações positivas com o tempo passado
nas redes sociais, por estarem mais conectadas. Outras vezes, negativas.
Mas o ponto principal é que essas associações são muito pequenas. Não é
o que você pensaria de início ao acompanhar as manchetes da imprensa ou
as discussões sobre o assunto.
Se estivermos falando apenas sobre saúde mental de adolescentes e
analisarmos todos os principais fatores que comprovadamente preveem
sintomas de problemas de saúde mental, as redes sociais frequentemente
sequer entram nessa lista.
E isso é realmente surpreendente para as pessoas, porque as redes
sociais são algo de que todos falam quando o assunto é a saúde mental
dos adolescentes. E há uma forte crença de que são o motivo pelo qual os
jovens estão enfrentando dificuldades.
Mas existem muitos motivos pelos quais os jovens nos dizem [nos estudos
que ela conduz] que estão enfrentando problemas de saúde mental. E as
redes sociais não estão nessa lista.
BBC News Brasil — Quantos estudos a senhora analisou? Todos chegaram à mesma conclusão?
Candice Odgers — Esse campo mudou rapidamente, porque as redes evoluíram rapidamente. Os
estudos iniciais eram sobre quanto tempo os jovens passavam em frente a
qualquer tela, centenas e centenas de estudos e metanálises que
examinaram esse material.
E o que se constata é que a associação entre tempo de uso de telas e
bem-estar explica menos de 1% da variação. Ou seja, 99% das razões pelas
quais estão deprimidos se devem a outros fatores nesses modelos. Então
isso é minúsculo. Além disso, nesses modelos, não se sabe a direção da
causalidade.
No caso das redes sociais, [também há] algumas centenas de estudos. E
esses estudos algumas vezes encontram uma correlação mínima, como
mencionei. Mas assim que se controlam outros fatores, como traumas no
início da vida, histórico familiar, saúde mental dos pais, essas
associações diminuem e, frequentemente, desaparecem.
Não estou dizendo que as redes sociais não têm impactos negativos para
algumas pessoas. Existem populações vulneráveis para as quais as redes
sociais podem piorar uma situação que já é ruim, assim como estar em
qualquer ambiente que as exponha à comparação social ou a conteúdos
negativos.
E existem, sem dúvida, riscos no ambiente online que precisam ser
reduzidos e eliminados para todos nós. É por isso, aliás, que gosto da
abordagem do Brasil para essa questão, que foca em aprimorar o design
para todos, visando à segurança, em vez de simplesmente excluir os
jovens das plataformas e fingir que eles não estão lá.
Em resumo, não estou dizendo que não existe associação ou danos, mas o
sinal que vemos é muito pequeno, e essa é uma mensagem muito diferente
da que estão nos passando.
Isso provavelmente significa que simplesmente proibir não será a
solução mágica que todos imaginamos. Além de todos os outros problemas
que surgiriam ao tentar banir os jovens da internet.
BBC
News Brasil — Mas defensores de restrições, como o psicólogo Jonathan
Haidt, afirmam que muitos estudos misturam todas as plataformas, meninos
e meninas, diferentes tipos de problemas de saúde mental. Segundo eles,
se o foco for em um recorte mais específico como, por exemplo, a
relação entre redes sociais e ansiedade ou depressão em meninas, o sinal
é mais forte.
Candice Odgers — Uma metanálise especificamente sobre meninas, redes sociais e depressão encontrou uma correlação relativamente pequena.
Associações pequenas ainda assim devem receber a nossa atenção. Mas
esses estudos não controlam outros fatores que sabemos que influenciam
tanto a probabilidade de passar mais tempo online quanto a
suscetibilidade à depressão.
Portanto, precisamos ter muito cuidado ao avaliar essas pesquisas.
Porque, quando investigamos a fundo e fazemos isso de forma
rigorosamente controlada, descobrimos que esses efeitos caem para zero
ou muito perto de zero.
Acho intrigante toda essa ênfase que tem sido colocada nas redes
sociais, quando sabemos que os jovens estão crescendo em um mundo cada
vez mais instável economicamente, expostos a violência nas escolas,
conflitos, pais que enfrentam problemas de saúde mental, incerteza
financeira. Ou seja, todos esses fatores complexos com os quais precisam
conviver e superar enquanto amadurecem.
Tudo isso acaba sendo deixado de lado em favor dessa narrativa simples de que "a culpa é do tempo passado no TikTok".
Crise de saúde mental não é só entre os jovens, mas também na população adulta — Foto: Getty Images via BBC
BBC
News Brasil — A senhora concorda que há uma crise de saúde mental entre
os jovens? Se não é causada pelas redes sociais, quais seriam as outras
possíveis explicações?
Candice Odgers — Eu
concordo que há uma crise de saúde mental entre a população adulta nos
Estados Unidos, já há algumas décadas. A dimensão é verdadeiramente sem
precedentes. E a saúde mental dos responsáveis impacta a saúde mental
dos jovens de maneiras extremamente importantes.
Estamos vendo cenários bastante diversos ao redor do mundo. A taxa de
suicídios entre jovens, por exemplo, não está aumentando na maioria dos
países, não é um aumento universal.
Quando vemos um aumento, como estamos observando, em termos de sintomas
de problemas de saúde mental, há a tendência de procurar uma única
explicação e de concentrar toda a nossa atenção nisso.
E isso é bastante perigoso quando pensamos em algo tão complexo e
influenciado por múltiplos fatores. As causas vão ser muito diferentes
para cada grupo de pessoas. Além disso, a população de jovens também
está mudando, por meio da imigração, variações geracionais e outros
fatores.
Então, essa ideia de buscar uma única explicação nunca vai corresponder
à realidade. Sempre vai ser uma combinação de vários fatores.
Cada país precisa examinar os fatores que estão moldando a saúde mental
da sua comunidade e entender qual é o perfil dessa população. Nos
Estados Unidos, suicídios entre jovens começaram a crescer depois da
Grande Recessão de 2008, e suicídios entre adultos já estavam aumentando
antes disso.
Os jovens têm relatado preocupação crescente com a segurança na escola.
Tivemos um crescimento, por exemplo, nos casos de ataques a tiros em
escolas. Tivemos aumento de instabilidade política.
Muitos jovens se identificam com grupos marginalizados. Vimos
sentimento anti-imigração, o movimento Black Lives Matter, uma
sensibilidade à injustiça, tanto nas comunidades locais quanto em nível
global. Há muita coisa impactando os jovens.
E, obviamente, parte disso eles estão descobrindo por meio das redes
sociais, e estão se mobilizando pelas redes e se conectando para buscar
mais informações. Então existe também esse aspecto de conscientização,
que acho interessante.
BBC
News Brasil — A senhora costuma dizer que o foco nas redes sociais está
sufocando o resto do debate. Que efeitos negativos esse foco pode ter?
Candice Odgers —
As pessoas me perguntam qual é o mal em simplesmente expulsar os jovens
das redes, banir tudo, em colocar a segurança em primeiro lugar, por
cautela, já que não sabemos ao certo quais são os impactos.
E eu acho que optar pela segurança em primeiro lugar seria válido,
desde que isso fosse comunicado como tal. Mas o discurso atual é de que
descobrimos a causa central por trás da depressão e da ansiedade [entre
os jovens].
Esses são problemas graves de saúde mental, e estamos afirmando que
identificamos uma causa principal e que basta desativar [as redes] para
que tudo melhore. E isso canaliza muita energia e dinheiro para criar e
aplicar essas medidas, desviando o foco de outras necessidades
fundamentais para os jovens.
Outro ponto é que ao afirmar que vamos proibir o uso, estamos nos
iludindo. Estamos vendo na Austrália que 85% dos jovens continuam nas
plataformas mesmo após a proibição [segundo pesquisa publicada em junho
na revista científica BMJ].
Vimos isso logo no primeiro dia [da proibição na Austrália], quando
encerraram todas as contas no YouTube, por exemplo. Isso não tirou os
jovens do YouTube, o que fez foi desativar suas contas, que tinham
configurações de privacidade, controles parentais, filtros de conteúdos.
Os jovens continuaram conseguindo entrar no YouTube, só que na versão
para adultos. Então piorou a situação, a experiência acabou piorando
para muitas dessas crianças.
E também acho que estamos enviando uma mensagem para os jovens sobre
seu comportamento, de que são viciados [em redes sociais], que seus
cérebros estão destruídos, quando na verdade seu comportamento é
absolutamente comum. Eles estão online para consumir cultura jovem e se
conectar com os amigos.
E sabemos isso porque vemos [nas nossas pesquisas] os dados de seus
celulares e recebemos relatórios diários deles sobre o que estão
fazendo. E são coisas bem normais de qualquer adolescente.
Agora, o que não é normal é ter uma empresa de tecnologia controlando
esse ecossistema, com feeds e conteúdos tóxicos, sem ser
responsabilizada por garantir a segurança desde a concepção [das
plataformas]. Esses são os pontos nos quais precisamos focar. Mas
precisamos melhorar isso para todo mundo.
Porque se simplesmente dissermos que as crianças não estão nessas
plataformas, estaremos mentindo para nós mesmos. E estaremos permitindo
que as empresas de tecnologia mintam para nós e digam que os jovens não
estão lá.
Precisamos corrigir isso e construir um mundo online melhor. Mas
precisamos fazer isso para todos nós, incluindo os jovens, que sempre
serão os primeiros a adotar com entusiasmo as novas tecnologias, e
simplesmente estarão à nossa frente na ocupação desses espaços ou na
criação de seus próprios novos ambientes.
BBC
News Brasil — Se não há evidências de que as redes sociais estão por
trás da crise de saúde mental entre os jovens, como essa ideia se tornou
tão prevalente? E por que não é rejeitada publicamente por mais
especialistas?
Candice Odgers — Essa narrativa se tornou tão poderosa. Fizemos uma pesquisa com pais e
mães e eleitores na Califórnia e cerca de 80%, fossem democratas,
republicanos ou independentes, eram a favor de restringir redes sociais
[para jovens].
Portanto, para os políticos, se estão procurando um tema que será
vitorioso, é este. Crianças não votam, então não haverá muita oposição. E
muitos adultos bem-intencionados acreditam que isso vai melhorar a
situação.
Existe um argumento perfeitamente razoável de uma abordagem que
prioriza a segurança, como mencionei antes, que é o fato de não termos o
retrato completo de quais são os efeitos da tecnologia sobre todos
esses aspectos do desenvolvimento.
Trata-se de uma área da ciência ainda cercada de muitas incertezas, e
as histórias que estão nos contando sobre isso são muito diferentes do
que vemos na prática.
E as grandes empresas de tecnologia não são populares e, por vários
bons motivos, acabam se tornando um vilão fácil neste momento. Mas
muitas pessoas sabem que essas proibições provavelmente não vão
funcionar.
O que precisamos considerar é o que vem depois da proibição. O que
vamos fazer quando essas proibições não produzirem os ganhos milagrosos
que prometem em termos de aprendizagem, saúde mental, redução do tempo
passado online? O que vamos fazer, além das proibições, para realmente
oferecer apoio aos jovens, tanto fora quanto dentro da internet? Porque
esse é um caso em que políticos e outros adultos podem facilmente
declarar vitória sem realmente gerar impacto.
Acho que é politicamente impopular dizer publicamente que as redes
sociais não são responsáveis por toda a crise de saúde mental entre os
jovens como tem sido retratado. Porque esse tem sido um enquadramento
político muito útil dessa questão, para impulsionar esse tipo de
política pública. E a maioria das pessoas não quer se envolver nisso.
Você recebe muitos e-mails interessantes, pode sofrer assédio.
BBC
News Brasil — A senhora sofreu algum tipo de assédio? Já foi alvo de
alegações de que estaria trabalhando secretamente para empresas de
tecnologia, não é mesmo?
Candice Odgers —
Um jornalista específico estava convencido de que minha pesquisa era
financiada pela Meta, o que não é verdade. Eu estava dizendo que, nos
Estados Unidos, as armas de fogo são a principal causa de morte entre as
crianças, não as redes sociais. E, de alguma forma, ele achou que, para
dizer isso, eu deveria estar na mão das grandes empresas de tecnologia.
A Meta não financia minha pesquisa. O governo federal financia, assim
como o Canadian Institute for Advanced Research [Instituto Canadense de
Pesquisas Avançadas, ou Cifar, na sigla em inglês] e outras fundações.
É um tipo de reação preguiçosa, mas é a resposta imediata que se recebe
quando alguém vem a público e diz "espere um pouco, isso realmente não
fecha, esse não é o efeito enorme que pensamos que é". E então as
pessoas não querem lidar com esse nível de assédio.
Outro ponto é que algumas pessoas estão questionando, de maneira
compreensível, qual é o problema em colocar essas políticas em prática e
ver o que acontece. E eu adoto uma abordagem diferente nesse ponto,
porque acho que há um custo enorme em ignorar as causas reais, em enviar
aos jovens a mensagem de que seu comportamento é de certa forma
viciante e vergonhoso. E acho que essas políticas podem ter o efeito
contrário e empurrar os jovens para espaços menos regulados.
Já é bem difícil fazer com que os jovens contem que algo negativo
aconteceu online e permitam que você os ajude a lidar com isso, porque
têm medo de que você tire o acesso deles à tecnologia. E agora proibimos
e tornamos ilegal estar nesses espaços, então nenhum desses jovens vai
relatar danos [que tenham sofrido online].
Mas eles vão estar nesses espaços, não vão abandonar o ecossistema
digital. E vão surgir novos espaços diferentes. A inteligência
artificial está mudando completamente o cenário, as redes sociais vão
ser muito diferentes daqui a 18 meses.
Então precisamos ser ágeis e trabalhar com os jovens para resolver
isso. Quando você ouve as pessoas que estão criando essas leis, fica
claro que elas não têm ideia de como as crianças usam a tecnologia ou de
como a tecnologia funciona.
Idade 'certa' para ter dispositivos varia em cada caso, avalia Odgers — Foto: Getty Images via BBC
BBC
News Brasil — A senhora diz que, além de riscos, as redes sociais
também trazem benefícios para os jovens. Em suas pesquisas, o que eles
relatam sobre suas experiências nas redes?
Candice Odgers — Muitas pessoas que pertencem a comunidades vulneráveis encontram online uma conexão que não encontrariam fora da internet.
Eles buscam apoio social, conectam-se com os amigos, fazem planos, se
divertem, criam. Não estou dizendo que tudo é bom, mas certamente não é
tudo ruim. Depende de como é usado.
Grande parte da questão é como ajudamos nossos jovens e a nós mesmos a
ter um envolvimento saudável com as redes sociais e as ferramentas
online. Aprender a usar essas ferramentas para o nosso trabalho, nosso
lazer, para tudo o que precisamos fazer para alcançar nossos próprios
objetivos, em vez de vê-las como essa substância tóxica que está
destruindo uma parcela da população.
Temos que construir isso juntos. Pais e mães não conseguem resolver
isso sozinhos, os jovens não conseguem resolver isso sozinhos, e as
empresas de tecnologia não querem resolver.
Então, a pressão sobre as empresas de tecnologia é boa. Eu argumentaria
que o Brasil está fazendo a coisa certa ao não expulsar um grupo
específico [das redes]. Estão exercendo pressão por meio de políticas
cuidadosamente elaboradas para melhorar a experiência online para todos.
BBC
News Brasil — A senhora costuma observar que muitas crianças que sofrem
bullying ou abusos online também enfrentam isso fora da internet. Como é
essa relação?
Candice Odgers — Trabalho
há muito tempo com jovens em situações de bastante vulnerabilidade. E o
que as pessoas frequentemente esquecem é que a vasta maioria dos jovens
que sofrem abusos são vitimados por alguém que conhecem, em locais onde
deveriam estar seguros. Em suas casas, escolas, comunidades, locais
onde os adultos estão, e geralmente são adultos que eles conhecem. O
perigo vindo de estranhos é algo raro.
O outro ponto é que jovens que sofrem abusos ou estão vulneráveis fora
da internet têm mais chances de passar por experiências negativas
online. E parte disso vem da ausência de adultos de confiança para
apoiá-los. Parte pode ser o fato de pesquisarem conteúdos mais perigosos
na internet ou compartilharem informações sensíveis. Há uma grande
sobreposição.
E quando se trata de prever futuros problemas de saúde mental, a vitimização fora da rede é o indicador de maior peso.
Quero ressaltar que há casos horríveis de abuso e exploração online.
Mas se o nosso objetivo é prevenir que crianças sofram abusos,
precisamos focar no que ocorre em seus lares, escolas, famílias, com
pessoas de seu convívio, inclusive no contato virtual com quem elas já
conhecem.
Outro aspecto é que, no caso de jovens vulneráveis no ambiente
presencial, é preciso compreender como os recursos online chegam até
eles. Canais de apoio via texto, por exemplo, têm extrema importância ao
proporcionar uma forma de buscar ajuda.
Devemos falar sobre de que maneiras o mundo virtual aumenta os riscos,
talvez expondo [as crianças] a contatos indesejados, ou normalizando
conteúdos inapropriados para a idade. E também sobre de que maneiras
pode proteger ou ajudar, por meio de canais de ajuda via texto, com a
integração de serviços de apoio.
É esse equilíbrio que precisamos alcançar se quisermos de fato ajudar
os jovens, em vez de apenas criar a impressão de que estamos agindo ao
proibir as tecnologias.
BBC
News Brasil — A senhora é mãe de dois adolescentes, e costuma dizer que
decisões sobre uso de smartphones e redes sociais devem ser tomadas
pela família. Quais são as regras na sua casa?
Candice Odgers —
Quando os filhos entram na adolescência, fica muito mais difícil manter
aquele controle absoluto que os pais querem. É aí que surge grande
parte da questão das redes sociais, bem no momento em que os jovens
estão começando a explorar o mundo com mais independência e os pais
estão ficando muito mais ansiosos em abrir mão desse controle.
Vejo muitos paralelos entre ensinar e apoiar as crianças a navegar em
espaços online e prepará-las para sair pelo mundo e explorar espaços
[físicos], onde também vão se deparar com riscos e complicações e
precisar pedir o seu apoio ou desenvolver habilidades para serem
bem-sucedidas.
Na nossa casa, a questão era se nossos filhos eram responsáveis o
suficiente para ter um dispositivo, um celular, e tomamos a decisão de
permitir quando estavam no sexto ano. Eles iam a pé para a escola, nós
conhecíamos todos os seus amigos. Eles podiam ir para a casa dos amigos
após as aulas e nós podíamos nos comunicar com eles. Eles podiam
aprender a usá-lo com responsabilidade antes de fazerem a próxima
transição, no sétimo ano, para uma escola maior, com pessoas novas,
horários novos e pressões novas.
Mas essa foi simplesmente a decisão na nossa família. Não é que eu,
como psicóloga do desenvolvimento, esteja dizendo que todas as crianças
estão prontas para ter um celular aos 11 anos de idade. A questão é se
seus filhos estão prontos, se isso se encaixa com a escola, o ambiente, a
rotina deles.