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sábado, 2 de maio de 2026

O paradoxo da Noruega, país que ganha bilhões com aumento do petróleo mas o consome cada vez menos

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O próspero país nórdico tem uma das redes de energia menos poluentes do mundo, mas ganha muito dinheiro com a exportação de combustíveis fósseis.
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TOPO
Por BBC

Postado em 02 de Maio de 2.026 às 08h00m

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A Noruega produz e exporta petróleo e gás, mas seu consumo interno é baseado principalmente na energia limpa. — Foto: GETTY IMAGES
A Noruega produz e exporta petróleo e gás, mas seu consumo interno é baseado principalmente na energia limpa. — Foto: GETTY IMAGES

A Noruega é considerada um dos países mais verdes do mundo.

As bicicletas são onipresentes nas suas cidades, 98% da sua eletricidade provém de fontes renováveis e nove em cada 10 carros novos vendidos em 2024 foram veículos elétricos.

A Noruega é também o país membro da Agência Internacional de Energia em que a eletricidade representa a maior proporção do consumo total de energia. E foi um dos primeiros a criar impostos sobre as emissões de carbono.

Mas, ao mesmo tempo, o país não deixa de aumentar sua produção de gás e petróleo e exportar massivamente os combustíveis fósseis contaminantes.

Esses recursos representam a maior fonte de receita do Estado norueguês e formam o pilar do famoso fundo soberano, o chamado "Fundo do Petróleo", que garante a solvência do generoso sistema de aposentadorias e bem-estar do país.

Essa contradição entre a descarbonização interna e seu papel como grande exportador global de combustíveis fósseis é conhecida como "paradoxo norueguês" e gera, há anos, um intenso debate político e social.

De um lado, grupos ambientalistas e jovens ativistas exigem compromissos concretos e um calendário para reduzir a atividade petrolífera. Do outro, o setor do petróleo e gás defende sua importância para a economia e as centenas de milhares de empregos gerados por ele.

A guerra no Oriente Médio e o aumento dos preços globais do petróleo e gás causado pelo bloqueio do estratégico Estreito de Ormuz geraram enormes e inesperados benefícios para a Noruega, mas também reabriram um dos seus debates internos mais incômodos.

"Para um ambientalista norueguês como eu, é claro que essa é uma situação vergonhosa", declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o presidente da associação ecologista Amigos da Terra Noruega, Truls Gulowsen.

Importância estratégica

A Noruega é um dos países mais desenvolvidos do mundo, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. E o setor de energia é a sua principal fonte de riqueza.

As exportações do setor representam mais de 60% do total dos produtos vendidos para o exterior e somam mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O Estado mantém participação majoritária no conglomerado Equinor, o principal operador da plataforma continental norueguesa, e destina a maior parte dos seus benefícios ao fundo soberano.

No final de 2025, o fundo contava com ativos no valor estimado de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 9,4 trilhões), o equivalente a US$ 350 mil (R$ 1,7 milhão) por cidadão do país.

As exportações de petróleo e gás desempenham papel fundamental na economia da próspera Noruega — Foto: KRISTIAN HELGESEN/GETTY IMAGES
As exportações de petróleo e gás desempenham papel fundamental na economia da próspera Noruega — Foto: KRISTIAN HELGESEN/GETTY IMAGES

No contexto atual de 2026, as tensões no Oriente Médio indicam que esses números continuarão aumentando.

O Estado norueguês recebeu US$ 5 bilhões (cerca de R$ 24,7 bilhões) a mais desde o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. E a Bolsa de Valores da capital norueguesa, Oslo, bateu recordes graças às companhias locais do setor de energia.

O governo trabalhista tentou neutralizar a ideia de que o país que concede o Prêmio Nobel da Paz vem enriquecendo com os transtornos da guerra.

O ministro das Finanças norueguês e ex-secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, destacou que esse é um paradoxo, já que a Noruega "se beneficia mais da paz".

Mas, como afirmou a colunista da rede pública norueguesa de rádio e televisão NRK, Cecilie Langum Becker, "a dura realidade é que, quando o mundo está em chamas, o dinheiro flui para o nosso orçamento estatal".

Essa dinâmica já havia ficado clara em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia reduziu drasticamente as exportações de Moscou para a Europa. Desde então, a Noruega surgiu como o último fornecedor confiável de um continente assolado pela crise energética.

"Fornecemos, hoje, cerca de 30% do gás e 15% do petróleo que é consumido na Europa, para onde enviamos 90% das nossas exportações", explica à BBC a analista Thina Saltvedt, da empresa financeira Nordea.

O debate sobre as exportações de combustíveis fósseis está presente na Noruega há anos. — Foto: PAUL S. AMUNDSEN/GETTY IMAGES
O debate sobre as exportações de combustíveis fósseis está presente na Noruega há anos. — Foto: PAUL S. AMUNDSEN/GETTY IMAGES

A descarbonização

Apesar das suas jazidas petrolíferas, a Noruega possui, há décadas, uma das infraestruturas mais limpas da Europa, graças à sua rede hidrelétrica.

Em 1991, o governo norueguês criou um imposto ao carbono, para promover a energia limpa. Em 2005, incentivos transformaram o país no líder mundial em carros elétricos. E, em 2017, o Parlamento da Noruega aprovou a Lei do Clima, para reduzir as emissões em 50% até 2030.

Mas o atual contexto internacional parece ter freado esta tendência.

Os conflitos na Ucrânia e no Irã obrigaram até mesmo os partidos mais "verdes" a aceitar que o gás norueguês é um "mal necessário" para a segurança energética da Europa.

Para Gulowsen, a narrativa dominante, agora, é que a instabilidade global justifica a aposta nos hidrocarbonetos.

"Fala-se em abrir áreas em águas profundas do Ártico, que são ambientes vulneráveis onde não deveria haver exploração, em nenhuma hipótese."

O governo norueguês quer continuar desenvolvendo a indústria petrolífera e aprovou novas licenças de exploração. — Foto: CHRIS RATCLIFFE/GETTY IMAGES
O governo norueguês quer continuar desenvolvendo a indústria petrolífera e aprovou novas licenças de exploração. — Foto: CHRIS RATCLIFFE/GETTY IMAGES

O que acontecerá agora?

O governo do primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, ofereceu recentemente 57 novas licenças de exploração.

"Continuaremos buscando mais petróleo para fornecer à Europa, prometeu Støre. Ele aposta no "desenvolvimento" da indústria, em vez de estabelecer "fases de saída".

Apesar da pressão dos setores mais jovens do seu partido, Støre não tem intenção de defender um calendário de abandono. Pelo contrário, ele aposta na zona menos explorada do país (o mar de Barents) para compensar a queda das jazidas atuais.

Frode Alfheim, do sindicato Industri Energi, relembrou à BBC News Mundo a importância social do setor.

"Estamos falando de mais de 200 mil postos de trabalho diretos", destaca ele. "Não é o momento de deixar a Europa sem fornecimento."

Já Saltvedt conclui com uma advertência.

"Cada vez mais pessoas se dão conta de que há um pôr do sol no horizonte. Mas será doloroso."

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SpaceX já gastou US$ 15 bilhões para viabilizar foguete reutilizável

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Projeto é central para os planos da empresa de Elon Musk, incluindo internet via satélite e missões à Lua e Marte, mas ainda enfrenta desafios técnicos e altos custos para se tornar viável em larga escala.
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TOPO
Por Reuters

Postado em 02 de Maio de 2.026 às 07h30m
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A SpaceX já gastou mais de US$ 15 bilhões no desenvolvimento do foguete Starship, segundo documento da empresa analisado pela Reuters. O valor é superior ao investimento feito no Falcon 9, hoje o principal veículo da companhia, e reflete quase uma década de esforços para criar um sistema de lançamento que possa ser reutilizado diversas vezes.

O projeto é central para o futuro dos negócios mais rentáveis da empresa de Elon Musk, que se prepara para chegar ao mercado com uma avaliação estimada em US$ 1,75 trilhão.

A Starship foi projetada para lançar maiores volumes de satélites da rede Starlink, transportar humanos à Lua e a Marte e, no longo prazo, colocar em órbita estruturas voltadas à computação para inteligência artificial, como alternativa a centros de dados na Terra.

O investimento de US$ 15 bilhões, ainda não divulgado anteriormente, supera com ampla margem os cerca de US$ 400 milhões gastos no desenvolvimento do Falcon 9, considerado hoje o foguete mais utilizado no mundo.

Esse modelo foi fundamental para a liderança comercial da SpaceX, ao permitir lançamentos frequentes da Starlink e consolidar vantagem sobre concorrentes.

Continuamos investindo de forma significativa para ampliar nossa liderança, buscando reutilização total e rápida em larga escala, incluindo mais de US$ 15 bilhões em nosso foguete de nova geração, Starship, afirmou a empresa em seu registro confidencial.

A SpaceX pretende iniciar o lançamento da nova geração de satélites Starlink, chamada V3, no segundo semestre de 2026. A expectativa é que isso ocorra com a Starship, que pode transportar até 60 satélites por voo — um número bem superior aos cerca de 24 levados atualmente pelo Falcon 9.

Esse ganho de capacidade ajuda a explicar por que o desempenho da Starship é considerado decisivo para a expansão da Starlink. Quanto mais satélites forem lançados por missão, menor tende a ser o custo por unidade colocada em órbita.

Hoje, o programa concentra a maior parte dos investimentos da empresa. Em 2025, a SpaceX destinou US$ 3 bilhões à pesquisa e desenvolvimento em seu segmento espacial, valor totalmente voltado à Starship — um aumento relevante em relação aos US$ 1,8 bilhão registrados no ano anterior.

Falhas em testes

Desde 2023, a SpaceX realizou 11 voos de teste da Starship. Os resultados incluem avanços importantes, mas também episódios de falha que exigiram ajustes no projeto. Um dos marcos mais relevantes foi a captura do propulsor Super Heavy com braços mecânicos durante o retorno à Terra, um passo importante para tornar o sistema reutilizável.

Mesmo com esse progresso, a empresa reconhece que ainda há desafios antes de atingir a meta de realizar milhares de lançamentos por ano. Esse volume seria necessário para viabilizar planos mais ambiciosos, como a colocação em órbita de grandes estruturas voltadas à inteligência artificial.

Eles estão muito perto, disse Chris Quilty, presidente da consultoria Quilty Space. Mas ainda não sabemos se conseguem fazer isso de forma repetida.

Entre os principais obstáculos está a infraestrutura necessária em terra, que envolve abastecimento de combustível, sistemas de água e proteção para o retorno do foguete à atmosfera. O consumo de recursos também chama atenção: um único lançamento pode exigir o equivalente a 244 caminhões de gás natural e cerca de 1 milhão de galões de água.

Outro ponto considerado crítico é o reabastecimento em órbita, etapa ainda não testada que envolve transferir combustível entre veículos no espaço. Essa operação é vista como essencial para missões mais longas, como viagens à Lua ou a Marte.

Esse provavelmente é o último grande desafio, disse Hans Koenigsmann, ex-vice-presidente da SpaceX.

A complexidade aumenta porque o combustível precisa ser mantido em temperaturas extremamente baixas, o que dificulta o armazenamento e a transferência.

Não demonstramos nem testamos o reabastecimento em órbita até agora, afirmou a empresa.

Cidade das estrelas

Ao longo da última década, a SpaceX construiu no Texas uma base dedicada ao desenvolvimento da Starship, chamada Starbase. O local foi estruturado para permitir produção em maior escala, com um ritmo mais próximo ao da indústria aeronáutica do que ao padrão tradicional do setor espacial.

As falhas registradas durante os testes levaram a centenas de mudanças no projeto do foguete. Segundo especialistas, a Starship representa uma mudança significativa em relação aos modelos anteriores, tanto em tamanho quanto em complexidade.

A empresa se prepara agora para um novo voo de teste — o primeiro desde outubro — que deve marcar a estreia do protótipo Starship V3.

A versão 3 é basicamente um projeto totalmente novo, disse Charlie Cox, diretor de engenharia da Starship.

Com diversas melhorias, o modelo foi projetado para voos orbitais, testes mais longos no espaço e missões tripuladas à Lua. Essa etapa é considerada uma das mais desafiadoras do programa Artemis, da NASA, que já destinou ao menos US$ 3 bilhões à SpaceX.

Muita coisa vai depender desse primeiro voo, afirmou Kent Chojnacki, da NASA.

Nave Starship em foto divulgada pela SpaceX em 13 de outubro de 2025 — Foto: Divulgação/SpaceX
Nave Starship em foto divulgada pela SpaceX em 13 de outubro de 2025 — Foto: Divulgação/SpaceX

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Os países onde as pessoas mais odeiam receber áudios do WhatsApp

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A diáspora e a cultura de cada local são alguns dos motivos destacados pelos especialistas para explicar por que as mensagens de voz são mais populares em alguns países do que em outros.
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TOPO
Por BBC

Postado em 01 de Maio de 2.026 às 09h05m
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Entre os mais ávidos defensores das mensagens de voz, estão os mexicanos — Foto: Getty Images via BBC
Entre os mais ávidos defensores das mensagens de voz, estão os mexicanos — Foto: Getty Images via BBC

Em agosto de 2013, o aplicativo de mensagens WhatsApp (que, hoje, é de propriedade da empresa Meta) fez um anúncio ao público.

Eles apresentaram, com relativamente pouco alarde, as mensagens de voz, uma função que permite enviar um fragmento de áudio para familiares e amigos.

"Sabemos que nada substitui o som da voz de um amigo ou familiar", declarou entusiasmadamente a empresa, naquele comunicado.

Treze anos se passaram e receber um áudio de 10 minutos de um amigo, contando sobre uma complexa disputa familiar ou um drama no trabalho, é uma experiência que algumas pessoas adoram e outras detestam.

Em lugares como a Índia, o México, Hong Kong e os Emirados Árabes Unidos, as mensagens de voz quase se igualam em popularidade às mensagens de texto, como a forma preferida de comunicação eletrônica.

Mas países como o Reino Unido não parecem ter absorvido totalmente a febre das mensagens de voz.

O instituto YouGov divulgou em abril uma pesquisa envolvendo mais de 2,3 mil adultos britânicos.

Ela revelou que as mensagens de voz se popularizaram ligeiramente no último ano, mas apenas 15% dos entrevistados se comunicam por áudio com regularidade (ou seja, várias vezes por semana).

Tanto entre homens quanto mulheres, de todas as faixas etárias, incluindo a geração Z (os nascidos entre 1996 e 2012), as mensagens de voz foram o método de comunicação menos popular entre os britânicos entrevistados.

Anteriormente, o YouGov já havia concluído que o Reino Unido é o país mais reticente em relação às mensagens de voz em um grupo de 17 nações, em sua maioria países ricos.

Dentre os entrevistados, os que preferem enviar mensagens de texto para os seus contatos totalizaram 83%, enquanto apenas 4% se declararam partidários das mensagens de voz.

A pesquisa do YouGov não incluiu o Brasil. Mas, em junho de 2024, o CEO (diretor-executivo) da Meta, Mark Zuckerberg, declarou que "os brasileiros enviam mais figurinhas, participam mais de enquetes e enviam quatro vezes mais mensagens de voz no WhatsApp do que qualquer outro país", segundo o portal G1.

Mas por que as mensagens de voz geram tanta controvérsia?

E por que elas tiveram tanto sucesso em alguns países, mas não conseguiram se consolidar no Reino Unido?

Impulso para a felicidade

Em 2011, pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, avaliaram as variações hormonais de um grupo de crianças ao receber ligações telefônicas dos seus pais, em comparação com mensagens de texto.

O estudo revelou que os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, diminuíam quando eles ouviam a voz dos pais em uma ligação telefônica. Já a oxitocina, o hormônio relacionado à formação de relações positivas e vínculo afetivo, aumentava.

A pesquisa analisou chamadas telefônicas, não mensagens de voz. Mas sua principal conclusão (sobre a importância de ouvir a voz de um ente querido) pode ser igualmente relevante.

O psicólogo Seth Pollak participou do estudo de 2011. Ele afirma que valeria a pena repeti-lo, concentrando-se especificamente nas mensagens de voz.

"Acredito que seria interessante incluir uma gravação, na qual você ouvirá alguém falando, mas sem necessariamente responder àquilo que está sendo dito", explicou ele.

Seu palpite é que uma mensagem de voz pré-gravada provavelmente "terá menos impacto" emocional que uma ligação telefônica ao vivo, que nos permite responder em tempo real ao que estivermos ouvindo.

Milhões de pessoas usam o WhatsApp em todo o mundo, mas uma das suas ferramentas gera controvérsias globais — Foto: Samuel Boivin/NurPhoto via Getty Images
Milhões de pessoas usam o WhatsApp em todo o mundo, mas uma das suas ferramentas gera controvérsias globais — Foto: Samuel Boivin/NurPhoto via Getty Images

Paralelamente, o psicólogo Martin Graff, da Universidade do Sul do País de Gales, no Reino Unido, pesquisa a comunicação online e afirma que as mensagens de voz podem oferecer formas de comunicação com maior carga emocional.

"Acredito que isso se baseie, possivelmente, no que antes chamávamos de teoria da riqueza dos meios de comunicação", explica ele.

"[Isso] significa que, se você enviar 'conteúdo multimídia enriquecido [ou seja, não apenas texto, mas também voz], você irá transmitir uma emoção, que poderia levar ao que chamamos de redução da incerteza. Com isso, ficaremos mais seguros em relação à pessoa com quem estamos falando."

Por isso, não é de se estranhar que aplicativos de encontros, como Bumble, Happn e Grindr, incorporaram a função de mensagens de voz nos últimos anos.

Mas por que, então, muitos britânicos continuam tão obstinados contra esta função?

O país partidário das mensagens de voz

Para a professora de sociologia Jessica Ringrose, do University College de Londres, talvez o estilo de comunicação dos britânicos seja mais reservado do que outras culturas.

Ela explica que as mensagens de voz são atraentes "se você realmente gostar de falar e tiver esse componente comunicativo e até performático nos seus relacionamentos". Mas isso, de forma geral, não é comum na cultura britânica, que costuma ser considerada relativamente reservada em relação às emoções.

"Vejo os britânicos certamente menos propensos a enviar mensagens de voz e mais breves nas suas interações", afirma a professora. Mas ela reconhece que "é difícil não cair em estereótipos ao comentar este assunto".

Frente à falta de dados científicos atualizados, realizei minha própria pesquisa, pouco científica.

Sou britânica de ascendência indiana, o que me dá uma perspectiva privilegiada sobre dois países com sentimentos radicalmente diferentes em relação às mensagens de voz.

A Índia é um dos países que mais apreciam as mensagens de voz. A pesquisa de 2024 do YouGov revelou que 48% dos indianos consultados prefere receber mensagens de voz ou gosta de recebê-las tanto quanto as de texto, contra apenas 18% dos britânicos.

Por isso, comecei questionando amigos e conhecidos no Reino Unido.

O caso é que eu adoro as mensagens de voz. Mas sei que minha irmã Ramya fica irritada com elas.

"Odeio as mensagens de voz porque são muito desequilibradas", explica ela.

"Para quem envia a mensagem de voz, é muito fácil. É só pressionar o botão e sair falando sem parar. Mas quem a recebe... precisa prestar total atenção."

"Você recebe uma mensagem de voz de seis minutos e não sabe se estão contando que a casa pegou fogo, se o gato morreu ou se estão apenas falando que o dia deles foi bom", exemplifica ela.

Gyasi é um estagiário da geração Z que faz parte da minha equipe. Ele conta que as mensagens de voz, para ele, parecem "um pouco chatas", principalmente porque você precisa de fones de ouvido para escutá-las.

Embora pareça contraditório, já que os jovens britânicos são os que mais usam as mensagens de voz, a mãe de Gyasi — Buzz, de 53 anos — declarou que elas são uma forma prática de colocar em dia uma ligação que estava pendente.

Por outro lado, Daniela, de 30 anos, comentou que "as mensagens de voz me estressam um pouco, pois, depois que você as abre, é obrigado a ouvir até o fim".

O repórter da BBC especializado em temas LGBT e de identidade, Josh Parry, talvez seja o maior defensor das mensagens de voz que conheço. Às vezes, suas mensagens chegam a durar 15 minutos (não é exagero).

"Acredito que elas podem transmitir um contexto muito útil, quando você fala de alguma coisa", explica ele.

"Você pode discutir as coisas de uma forma que, talvez, seja mais difícil de escrever e pode também transmitir nuances. E são muito práticas em relação às mensagens de texto quando levo os cachorros para passear.

Outra amiga, Naomi, é designer e empresária. Ela disse que as mensagens de voz são úteis quando ela está com as mãos ocupadas.

"Adoro mandar mensagens de voz quando estou ocupada", ela conta. "Quando tenho muitas coisas para fazer, se as crianças estiverem por perto e quando estou tentando fazer várias coisas ao mesmo tempo."

"É uma boa forma de ficar um pouco mais conectada", afirma Naomi.

O fator do idioma

Na Índia, país dos meus ancestrais, quase a metade da população prefere as mensagens de voz ou, pelo menos, gosta tanto delas quanto das mensagens de texto.

Isso significa que as mensagens de voz passaram a ser uma parte fundamental da comunicação no país.

A filial indiana do WhatsApp lançou recentemente um anúncio de nove minutos, com apresentação impecável, contando a história de um casal recém-casado fictício em uma zona rural do país, que se apaixonou através das mensagens de voz.

Mas, no outro lado do espectro, criminosos estariam preferindo enviar ameaças por mensagens de voz, não de texto.

Alguns afirmam que tudo isso se deve ao idioma. Em culturas multilíngues, como a Índia, as mensagens de voz facilitam a mistura de idiomas.

As pessoas que falam hinglish (como chamamos a mistura fluente de hindi e inglês) podem se comunicar com mais naturalidade falando do que escrevendo, por exemplo.

A Índia é um dos países em que as pessoas tendem a usar mais as mensagens de voz para se comunicar nas redes sociais — Foto: Getty Images via BBC
A Índia é um dos países em que as pessoas tendem a usar mais as mensagens de voz para se comunicar nas redes sociais — Foto: Getty Images via BBC

Shreya é estudante universitária em Pune, no Estado indiano de Maharashtra, oeste da Índia. Ela conta que seu grupo de amigos usa principalmente as mensagens de voz "porque falamos muitos idiomas".

"Assim, costumo alternar entre minha língua materna, o marati, e o inglês", ela conta.

"Testei o teclado marati, mas é muito complicado de usar", segundo ela. Shreya conta que só conhece uma pessoa que usa o teclado marati para escrever: sua avó.

Já Namratha tem 29 anos e mora em Khargar, perto de Mumbai, na costa oeste da Índia.

Ela conta que, como as pessoas falam diversos idiomas no seu país, mas não sabem necessariamente ler e escrever em todos eles, as mensagens de voz facilitam a comunicação.

"Eu posso saber o idioma deles, mas eles não têm conhecimento suficiente do meu para poderem escrever", explica ela. "Talvez eles saibam falar, mas não escrever."

Mas algumas coisas realmente transcendem fronteiras, como a necessidade de fofocar.

Shreya, por exemplo, conta que as mensagens de voz "também transmitem melhor a expressão... por isso, quando se trata de contar fofocas, o que esperamos é uma mensagem de voz".

Existem poucas pesquisas na Índia a este respeito. Mas a professora de sociologia Kathryn Hardy, da Universidade Ashoka de Sonipat, no norte do país, acredita ser "muito plausível" que as mensagens de voz sejam particularmente populares entre as comunidades rurais e em regiões com menor nível de alfabetização.

"Observamos como muitas tecnologias foram implantadas nas comunidades rurais de forma quase instantânea, exatamente porque elas não exigem que se saiba ler, nem escrever", explica ela.

"Este parece ser o uso mais óbvio das mensagens de voz: eliminar o problema não só da alfabetização, mas também da fluência."

Será que o idioma também pode ajudar a explicar a aversão britânica às mensagens de voz? Rory Sutherland, colunista da revista The Spectator, acredita que sim.

"Na verdade, temos um idioma bastante eficiente", explica ele. "Em inglês, não é preciso digitar 16 letras para pedir desculpas, o que torna a comunicação escrita mais atraente."

A diáspora

É preciso também destacar a popularidade das mensagens de voz em países com grandes comunidades residindo no exterior.

A Índia, por exemplo, tem a maior diáspora do mundo. São mais de 35 milhões de indianos e pessoas com origem no país vivendo fora da Índia e cerca de 2,5 milhões que se mudam para o exterior todos os anos.

No México, 53% da população afirma que gosta de receber mensagens de voz. E o país também tem uma grande comunidade no exterior, principalmente nos Estados Unidos.

Talvez as mensagens de voz ofereçam às pessoas que vivem em diferentes fusos horários a possibilidade de se manterem em contato de forma mais assincrônica que as ligações telefônicas, embora mais pessoal que as mensagens de texto.

Hardy apoia esta teoria. Como norte-americana que mora na Índia há quase uma década, as mensagens de voz permitiram que seus filhos mantivessem o contato com os avós nos Estados Unidos.

"Usamos mensagens de voz entre 10 e 20 vezes por semana", comenta ela. "Enviamos muitas."

"Por isso, suspeito que pelo menos uma parte desse uso [na Índia] seja intergeracional ou se deva às longas distâncias e grandes diferenças de horário."

Etiqueta e fofocas

Ainda não sabemos se as mensagens de voz provocam aquele aumento de oxitocina observado no estudo de 2011, sobre as ligações telefônicas. E a conclusão de um eventual estudo a respeito, seja ela qual for, não mudará necessariamente a opinião pública.

Rory Sutherland acredita que exista aqui uma questão de cortesia.

"Talvez isso tenha a ver com o idioma inglês ou com as características britânicas, mas espero que ainda conservemos uma vaga noção do que seja a etiqueta", declarou ele.

"Eu diria que gravar uma mensagem de cinco minutos é falta de cortesia em relação a quem recebe."

De minha parte, não posso deixar de pensar que, como muitos de nós nos sentimos cada vez mais distantes, as pequenas gravações dos nossos amigos ocupam lugar importante e deveríamos considerá-las um tesouro.

Como diz meu amigo Josh, "espero que elas nunca desapareçam. As nossas fofocas seriam muito menos interessantes se não houvesse as mensagens de voz."

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