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quarta-feira, 4 de setembro de 2024

'Empresa de tecnologia roubou nossas vozes, clonou e vendeu'

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Casal processou plataforma após ouvir podcast e descobrir que vozes deles foram usadas por empresa de inteligência artificial.
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TOPO
Por Ben Derico

Postado em 04 de setembro de 2024 às 18h20m

#.* Post. - Nº.\  4.954 *.#

Paul Skye Lehrman e Linnea Sage entraram com uma ação coletiva contra a plataforma Lovo. — Foto: BBC
Paul Skye Lehrman e Linnea Sage entraram com uma ação coletiva contra a plataforma Lovo. — Foto: BBC

A ideia de que a inteligência artificial, um dia, pode tomar nossos empregos é uma mensagem que muitos de nós temos ouvido nos últimos anos.

Mas, para Paul Skye Lehrman, este alerta foi particularmente pessoal, inesperado e assustador. Ele ouviu o aviso com a sua própria voz.

Em junho de 2023, Lehrman e sua parceira Linnea Sage andavam de carro perto de casa, em Nova York, nos Estados Unidos. Eles ouviam um podcast sobre as greves em Hollywood e como a inteligência artificial (IA) poderá afetar aquele setor.

O episódio era interessante porque o casal é profissional de dublagem. E, como muitos outros artistas criativos, eles receiam que os geradores de voz que parecem humanos logo poderão ser empregados para substituí-los.

E aquele podcast tinha um atrativo específico. Era uma entrevista com um chatbot gerado por IA, equipado com software que transforma texto em fala. A intenção era saber dele quais as possíveis consequências do uso da inteligência artificial para os empregos em Hollywood.

Mas, quando o chatbot falou, sua voz se parecia exatamente com a de Paul Lehrman.

"Tivemos de estacionar o carro", ele conta. "A ironia era que a IA está chegando à indústria do entretenimento e ali estava a minha voz, falando sobre a possível destruição do setor. Realmente, foi muito assustador."

Naquela noite, eles passaram horas online procurando indicações sobre o que poderia ter ocorrido, até que eles chegaram ao site da plataforma Lovo, que transforma texto em fala. Ali, Sage conta que também encontrou uma cópia da voz dela.

"Fiquei impressionada", relembra ela. "Não conseguia acreditar. Uma empresa de tecnologia roubou as nossas vozes, fez clones delas com IA e as vendeu, talvez centenas de milhares de vezes."

O casal processou a Lovo e a empresa ainda não respondeu à ação, nem aos pedidos de comentários da BBC.

Guerra dos clones

Mas como a Lovo conseguiu recriar as duas vozes? O casal afirma que tudo foi feito sob falsos pretextos.

Um dos fundadores da Lovo, Tom Lee, havia dito anteriormente que seu software de clonagem de voz precisa apenas que o usuário leia cerca de 50 sentenças para criar um clone confiável.

"Nós conseguimos capturar o tom, as características, o estilo, os fonemas e, até se você tiver sotaque, também conseguimos capturar", contou ele ao podcast Future Visionaries, em 2021.

Na ação judicial, Lehrman e Sage descrevem como eles acreditam que a Lovo tenha conseguido essa gravação das suas vozes.

Eles alegam que funcionários anônimos da Lovo entraram em contato com eles para gravar trechos de áudio no popular website Fiverr, para talentos freelancer. Lá, eles vendiam seus serviços para fornecer áudio para o rádio, televisão, videogames e outros meios.

Sage conta que, em 2019, um usuário entrou em contato com ela, pedindo que ela gravasse dezenas de testes de roteiros de rádio, aparentemente genéricos.

As gravações de teste costumam ser usadas no cinema e na televisão para grupos de referência, reuniões internas ou para reservar espaços para trabalhos em andamento. E, como estas gravações não serão amplamente compartilhadas, elas custam muito menos do que o áudio destinado a transmissão.

Sage afirma que realizou o trabalho, forneceu os arquivos e recebeu por eles US$ 400 (cerca de R$ 2.200).

Lehrman conta que recebeu um pedido similar de gravação de dezenas de anúncios de rádio com sons genéricos, cerca de seis meses depois.

Nas mensagens compartilhadas pelo casal com a BBC, o usuário anônimo do Fiverr afirma que o áudio seria usado para pesquisas com "síntese de fala".

Depois de pedir ao usuário a garantia de que os roteiros não serão empregados fora do seu projeto de pesquisa específico, Lehrman perguntou qual seria o objetivo do projeto.

"Os roteiros não serão empregados para nada além disso", declarou o usuário, "e ainda não posso contar o objetivo, pois é um trabalho confidencial em andamento. Desculpe, haha."

Lehrman perguntou se os arquivos terminados seriam redirecionados ou empregados em outra ordem. O usuário respondeu que os arquivos seriam utilizados apenas para fins de pesquisa.

Ele conta que enviou os arquivos e recebeu US$ 1.200 (cerca de R$ 6.700). E a conexão entre o usuário anônimo e a Lovo veio, segundo eles, da própria Lovo.

Eles apresentaram as evidências encontradas sobre a clonagem das suas vozes para a Lovo, que respondeu que não havia feito nada de errado. A empresa indicou as comunicações entre eles e o usuário anônimo, como prova de que havia feito contato com o casal legalmente.

"Nas nossas carreiras, já fornecemos mais de 100 mil gravações de áudio", conta Lehrman, sobre seu trabalho no Fiverr por mais de meia década. "Conseguimos encontrar esta agulha no palheiro."

Nos dois casos, Lehrman e Sage afirmam que não tinham contrato por escrito, apenas os diálogos. A BBC não conseguiu verificar todas as suas conversas. O casal declarou que o usuário com quem eles conversaram também parece ter excluído algumas mensagens.

A BBC entrou em contato com a Lovo em diversas ocasiões para pedir uma entrevista com Lee e buscar uma resposta às afirmações do casal. A empresa não respondeu às nossas mensagens.

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O que diz a lei?

O casal deu entrada no processo em maio. A ação alega que a Lovo usou as gravações para criar cópias que concorrem ilegalmente com as vozes reais de Sage e Lehrman. Eles afirmam que a empresa agiu sem permissão, nem remuneração adequada.

Esta é uma ação coletiva, ou seja, o casal espera que outros demandantes entrem no processo, o que, até agora, não aconteceu.

A professora Kristelia Garcia, especialista em direito da propriedade intelectual da Universidade Georgetown em Washington DC, nos Estados Unidos, afirma que o caso provavelmente se enquadra em uma área da legislação norte-americana referente aos direitos de publicidade.

Também denominados direitos de personalidade, eles incluem as violações da personalidade de alguém, frequentemente devido ao abuso ou desvirtuamento da voz ou da imagem de uma pessoa.

Garcia também afirma que, provavelmente, haverá uma quebra de contrato em relação às licenças concedidas por Sage e Lehrman ao usuário que encomendou as gravações.

"As licenças são permissões de uso restrito e muito específico", explicou ela à BBC.

"Eu posso dar a você uma licença para usar minha piscina por uma tarde, mas isso não significa que você pode vir sempre que quiser e dar uma festa na minha piscina. Isso excederia os termos da licença."

Seja qual for o resultado do processo, esta é mais uma em uma longa lista de ações judiciais apresentadas por artistas, escritores, ilustradores e músicos, que não querem perder o controle do seu trabalho e do seu sustento. E, provavelmente, eles são apenas a ponta do iceberg.

No início de setembro, a empresa financeira Klarna anunciou que pretende usar a IA para reduzir sua equipe de trabalho pela metade. E alguns especialistas preveem que 40% de todos os empregos irão sofrer os impactos da IA.

Mas, para Paul Skye Lehrman e Linnea Sage, as preocupações com o futuro chegaram mais cedo.

Para Sage, "toda esta experiência parece surreal. Quando pensamos em inteligência artificial, pensamos na IA dobrando nossa roupa lavada e fazendo o jantar, não explorando os esforços de criação dos indivíduos".

Ouça o episódio da série Tech Life, do Serviço Mundial da BBC (em inglês), que deu origem a esta reportagem, no site BBC Sounds.

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terça-feira, 3 de setembro de 2024

'Primeiro passo': como especialistas veem decisão do governo de liberar uso de dados brasileiros para treinar IA da Meta

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Big tech apresentou plano de conformidade e anunciou medidas visando aumentar transparência da prática.
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Por Vivian Souza, Lara Castelo, g1

Postado em 03 de setembro de 2024 às 06h00m

#.* Post. - Nº.\  4.953 *.#

ANPD libera coleta de dados dos usuários para o treinamento de IA da Meta. — Foto: Reuters
ANPD libera coleta de dados dos usuários para o treinamento de IA da Meta. — Foto: Reuters

A decisão do governo que permite o uso de dados de brasileiros pela Meta para treinar inteligência artificial é vista por especialista ouvidos pelo g1 como um primeiro passo para a regulamentação dessa prática.

A Meta é dona do Instagram, do Facebook, do Threads e do WhatsApp.

Em julho, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu a coleta de dados de usuários da Meta para o treinamento de IA.

Isso aconteceu após o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) questionar a ANPD sobre os riscos à privacidade de quem usa a Meta e a falta de transparência da plataforma sobre esse compartilhamento de dados.

Mas, nesta sexta-feira (30), a ANPD liberou a big tech para a prática sob a condição do cumprimento de um "plano de conformidade" (veja mais detalhes abaixo), para adequar o tratamento dos dados ao disposto na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Já o Tribunal Federal da 3ª Região (TRF-3) suspendeu liminar anteriormente concedida que proibia o aplicativo de mensagens WhatAapp de compartilhar dados dos usuários brasileiros com outras empresas do Grupo Meta.

Para os especialistas em inteligência artificial entrevistados pelo g1, usar dados pessoais para treinar inteligência artificial é algo consolidado no mercado e faz parte do caminho para a criação de produtos mais diversos e adaptados à cultura brasileira.

Mas, por se tratar de algo novo, os especialistas concordam que falta regulamentação sobre o tema e que o caso da Meta pode indicar uma nova direção para o mercado.

Além disso, é importante ficar de olho se a empresa será clara na comunicação ao usuário sobre como os seus dados serão usados, para que haja uma compreensão do que significaria aceitar ou não a coleta, afirma Yasmin Curzi, pesquisadora do Karsh Institute of Democracy, na Universidade de Virginia, nos Estados Unidos.

Em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (30), a diretora da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), Miriam Wimmer, destacou alguns parâmetros estabelecidos com a nova decisão:

  • a empresa deve deixar explícito o que será feito com os dados;
  • o usuário deve ter o direito de negar a coleta de seus dados e o formulário para isso deve ter um acesso simplificado;
  • dados coletados não podem remeter aos seus donos;
  • é preciso proteger o público vulnerável, como crianças e adolescentes.

Por outro lado, o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) criticou a decisão da ANPD e disse que, as exigências contemplam "somente o mínimo necessário, aquém do disposto na LGPD".

"A principal questão não é apenas a identificação dos usuários, mas o uso compulsório de seus dados pessoais para uma finalidade que vai além da prestação do serviço e que visa unicamente o lucro da empresa", diz o Idec. 
‘Primeiro passo’

O compartilhamento de dados de usuários para o treinamento de IA já é consolidado no mercado, mas faltam diretrizes sobre o tema, explica o advogado especializado em direito digital, Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS).

Por isso, orientações da ANPD no sentido de aumentar a transparência dessa prática ao usuário são bem-vindas, afirma.

Agora, pelo menos, temos uma orientação da ANPD sobre o assunto, diz.

O especialista destaca ainda que as instruções dadas à Meta jogam luz nas práticas do mercado como um todo. Isso porque, segundo ele, a tendência é que as demais empresas de tecnologia que atuam no Brasil sigam os mesmos passos para não serem alvo da ANPD.

Mas ele espera que esse seja só o primeiro passo.

O melhor seria que a agência usasse esse caso como um impulso para fornecer ainda mais informações às empresas de tecnologia sobre o assunto. Afinal, hoje, elas são empresas de IA.

A opinião é compartilhada pelo professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) especializado em inteligência artificial Diogo Ortiz.

Para ele, o problema está em a Meta não deixar claro aos usuários quais dados iria coletar e em como as pessoas poderiam se recusar a participar do treinamento da IA.

Segundo a ANPD, por exemplo, o acesso ao formulário por meio do qual o usuário poderia dizer que não quer participar dos testes era difícil. Agora, o link com o formulário será enviado no e-mail do usuário.

Nesse sentido, Ortiz acredita que, com as alterações exigidas pela ANPD, as informações ficarão mais claras para o usuário.

Para Curtiz, da Universidade de Virginia, a ANPD precisa fiscalizar a transparência da Meta na notificação que será enviada ao usuário com o direito de oposição.

"A notificação não pode ser um padrão obscuro", afirma. O texto precisa ser explicativo, de fácil compreensão e que deixe claro que as publicações e fotos serão usadas para treinar a inteligência artificial.

Além disso, muitas pessoas podem não entender o que significa o "direito de oposição". Portanto, seria fundamental ter uma campanha da ANPD que ensinasse isso à população, aponta.

Ortiz, da PUC SP, pontua que o estranhamento dos usuários em relação ao compartilhamento dos dados para o treinamento de IAs acontece por se tratar de algo novo, que não existia quando a LGPD foi instituída no Brasil.

O professor destacou que 95% do treinamento da IA da Meta foi feito em inglês e que o uso dos dados das redes sociais dos brasileiros para o treinamento da IA pode facilitar a adaptação ao consumo e a cultura do país.

O especialista afirma que seria interessante se os dados coletados pela Meta fossem compartilhados com programadores brasileiros evitando um extrativismo digital, onde apenas a empresa estrangeira cresceria com as informações de brasileiros.

Dados de crianças

Ortiz é contra a coleta de dados pessoais de crianças e adolescentes. Por enquanto, este tipo de extração está suspenso pela ANPD, mas deve ser tema de conversas entre o órgão e a Meta.

Ainda assim, para Curzi, isso já pode ser um problema, uma vez que as fotos de crianças publicadas pelos pais poderão ser usadas pela IA. Bem como imagens de sites de notícias e com direitos autorais.

Contudo, a pesquisadora pontua que, sem o usuário manifestar o direito de oposição no formulário, a Meta estaria dentro da legalidade ao usar esse tipo de conteúdo.

O que a ANPD quer da Meta:

  • que em cinco dias úteis ela apresente um cronograma de implementação do "plano de conformidade";
  • que a empresa tenha uma atenção especial ao prazo mínimo de 30 dias entre o envio da notificação aos usuários e o início do uso dos dados;
  • que a Meta garanta o "direito de oposição" dos usuários (o chamado "opt-out"). Ou seja, que o usuário da rede tenha o direito de não fornecer seus dados para o treinamento dos sistemas.
  • Que o usuário que tenha contas vinculadas poderá assinalar a oposição apenas uma vez, e esta já valerá para todas as redes da Meta.
  • Que, quem não possui uma conta nas redes sociais, mas teve alguma informação exposta por terceiros, possa buscar nos sites das plataformas um formulário para detalhar quais dados seus gostaria de remover do banco da Meta.
O que diz a Meta

A Meta informou nesta sexta-feira (30) que, em resposta às recomendações da ANPD, está "oferecendo transparência adicional para ajudar os usuários do Facebook e do Instagram no Brasil a entenderem como treinamos os modelos que alimentam nossas experiências de Inteligência Artificial generativa".

Segundo a empresa, as medidas incluem:

  • notificações no Facebook e no Instagram, e e-mails "para que os usuários no Brasil saibam como planejamos expandir nossas experiências de IA na Meta";
  • inclusão, nas notificações e e-mails, de um link para o "formulário de oposição" – onde os usuários poderão expressar que não querem contribuir com seus dados para o treinamento da inteligência artificial.
  • atualização da Política de Privacidade e o Aviso de Privacidade do Brasil;
  • possibilidade de o usuário se opor ao uso de seus dados a qualquer tempo;
  • banners na Central de Privacidade da Meta, bem como na Política de Privacidade, "para conscientizar os usuários que estão no Brasil sobre como tratamos os dados dos usuários e com links direcionando para o formulário de oposição";
  • uso de informações públicas de contas de usuários nas plataformas

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domingo, 1 de setembro de 2024

Publicar no feed é 'coisa de velho'? E não ter foto de perfil? Post de professor viraliza e gera debate sobre comportamento nas redes

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Professor fez uma pesquisa, sem valor científico, com alunos da rede pública. Lecionando para adolescentes de 13 a 17 anos, ele começou a perceber que, fora da sala de aula, era constantemente adicionado, no Instagram, por contas sem fotos.
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Por g1 — São Paulo

Postado em 01 de setemnbro de 2024 às 06h00m

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Imagem ilustrativa mostra a sombra de duas pessoas meendo no celular e o logo do Instagram ao fundo  — Foto: Reuters
Imagem ilustrativa mostra a sombra de duas pessoas meendo no celular e o logo do Instagram ao fundo — Foto: Reuters

Victor Hugo é professor de história, sociologia e filosofia da rede pública em Bebedouro (SP). Aos 26 anos, ele usa redes sociais como um típico jovem adulto. Seu perfil tem fotos de viagens, de shows, de momentos com amigos, selfies...

👨‍🏫 Lecionando para adolescentes de 13 a 17 anos, ele começou a perceber que, fora da sala de aula, era constantemente adicionado, no Instagram, por contas sem fotos e, algumas vezes, até sem informações básicas de identificação -- muitas tinham letras ou números aleatórios no nome.

☝️ Mas quem estava por trás destes perfis misteriosos não era bem um segredo...

"Eu ficava tentando entender o que era, quem era... Eu buscava e descobria que era um aluno meu. Eles próprios geralmente falavam: 'ah, você viu que eu te segui?' Isso foi me impressionando", disse Victor em entrevista ao g1.

🤔 Essa percepção provocou o professor, que decidiu fazer uma pesquisa, sem valor científico, com os próprios alunos — o resultado viralizou na rede social X. Mas antes de prosseguir, é importante ressaltar:

  • Quem tem de 13 a 17 anos pertence à geração Z;
  • O próprio Victor é geração Z, ainda que quase beirando a anterior, a chamada geração Y (ou millennials);
  • A idade mínima para ter uma conta no Instagram no Brasil é de 13 anos.

"A geração Z é considerada nativa digital. É a primeira geração que nasceu que não sabe o que é a vida antes da internet. E isso, por si só, já influencia a maioria das características dessa geração", explicou Thaís Giuliani, doutora em ciências da informação e especialista em geração Z.

As perguntas feitas por Victor aos seus alunos foram:

  1. Por que não postam fotos no feed do Instagram?
  2. Por que dificilmente colocam foto no perfil?
  3. Por que postam só nos stories?
  4. O que acham de quem posta conteúdo frequentemente?
  5. Se acham bonitos/seguros para compartilharem fotos nas redes sociais?

📣 Aqui vale um alerta: não existe uma resposta exata para a pergunta do título deste texto. É mais uma provocação, um convite à reflexão, do que um guia com um resultado detalhado.

As respostas foram diversas. Veja só algumas delas:

  • têm os que acham "cringe" ter foto no perfil;
  • têm os que dizem que "está na moda ser 'low profile' (postar pouco)";
  • têm os que acham que quem posta frequentemente "é desocupado e brega";
  • têm também aqueles que admitem insegurança com a aparência mesmo (não encontrar uma foto "boa" e ter medo de não ter muitas curtidas foram argumentos que apareceram entre as respostas).

Ao g1, Victor disse que se surpreendeu com o resultado.

"Primeiro, eu acho que eu banalizei, talvez eu tenha achado que eles só não querem lidar com as redes sociais ou que, de alguma maneira, eles são contra. Talvez eu tenha achado que não tinha um problema por trás."

Não bem um problema, mas, sim, tinha algo por trás. A conclusão, a partir dos dados preenchidos pelos alunos, foi postada no X: era, em grande parte, uma questão de autoestima. "As respostas reforçam questões atuais bem problemáticas sobre a autoestima e também sobre a própria padronização do corpo nas redes. Os mais novos sofrem mais com a autoestima e sentem mais medo em relação às redes. Todos se cobram", escreveu Victor.

Para Giuliani, independente da geração que for, a questão da autoestima adolescente é um fator relevante nessa discussão.

"Existe a questão da geração, que é o recorte do período que nasceu, porque são momentos históricos, políticos, sociais e econômicos completamente diferentes. E outra coisa é a adolescência. Que é uma fase normal de muito complexo em relação à autoestima, que eu acho que é uma das principais causas relacionadas a essa questão de foto, de imagem [das redes sociais]", afirmou Giuliani ao g1.

De modo geral, mais que uma característica das gerações Z, X ou qualquer outra, para todos a adolescência é (ou foi) uma fase...

  • de ebulição hormonal;
  • de nascimento de pelos;
  • de nascimento de espinhas;
  • de mudanças na textura da pele;
  • de mudanças no cabelo;
  • e, principalmente, de mudanças no corpo como um todo (mais altos, mais largos, crescimento das mamas, mudança na voz...).
A vida no Instagram (e antes dele)

🔙 Para contexto: o Instagram surgiu em 2010, em uma época em que estava disponível apenas para usuários iOS (iPhone) e levou uns anos até ser liberado para Android. Naquele momento, era uma rede só de fotos de celular de baixa qualidade, com filtros que mudavam as cores e a saturação, por exemplo — mas nada de recursos que afinam o nariz e aumentam os lábios, como vemos hoje. Também não tinha, ainda, a ferramenta stories, que veio em 2016, em que fotos e vídeos desaparecem após 24 horas.

Publicar fotos nas redes sociais não é uma característica exclusiva do Instagram e da geração de agora. Antes, havia o finado Orkut, que durante muito tempo permitia apenas 12 fotos (mas que eram atualizadas sem receios entre adolescentes e adultos de diferentes gerações que usavam a rede).

Depois, veio o Facebook, que permite ter diversos álbuns e muitas e muitas fotos (e que, hoje, em 2024, é quase nada usado pela geração Z, mas que por muito tempo foi a queridinha dos millenials depois do Orkut).

Ainda assim... Por que os jovens de hoje, a geração Z, parecem evitar mais a exposição no Instagram?

Como explica Giuliani, é uma geração que se preocupa com questões de saúde mental — para além de ser afetada diretamente por isso, muito por causa dos anos escolares durante a pandemia, quase que totalmente na frente de telas e câmeras abertas em aulas.

Por isso, talvez, pode soar que eles se sintam mais inseguros com a aparência física típica da adolescência que antigamente (o que não existe uma comprovação clara ainda). E, além disso, é uma geração mais protegida.

"É uma geração que tem uma uma fragilidade maior por diversos aspectos, não só pelas redes sociais, não só pela tecnologia, mas também muito pela forma como foram criados, num modelo em lidar com pouca frustração ao longo da infância e da adolescência, o que acabou, de certa forma, impactando negativamente nessa questão mais da formação da resiliência", diz Giuliani.

E é importante também lembrar que as redes de antigamente não tinham os influenciadores de hoje com milhões de seguidores, vidas irreais e filtros que mudam o rosto para formatos milimetricamente perfeitos.

Foto ilustrativa mostra Cara Delevingne e Sam Smith depois do Rock in Rio 2015; ne época, os filtros eram apenas de cor, luz e saturação. — Foto: Reprodução/Instagram/Samsmith
Foto ilustrativa mostra Cara Delevingne e Sam Smith depois do Rock in Rio 2015; ne época, os filtros eram apenas de cor, luz e saturação. — Foto: Reprodução/Instagram/Samsmith

Quanto aos adolescentes da geração Z, eles até ocupam o Instagram, sim, mas sem aparecer tanto (como o observado na pesquisa do Victor, ainda que algumas vezes sem foto). Algo reforçado por Giuliani: eles não se exibem, mas falam, engajam.

Ainda assim... Eles preferem mesmo o TikTok — e isso é geracional e típico do fluxo das redes, como aconteceu com o Orkut e o Facebook (uma vai substituindo outra na preferência). Olha só: uma pesquisa da Adobe de abril deste ano apontou que 64% dos jovens nascidos entre 1995 e 2010 já trocaram o Google pelo TikTok para fazer buscas.

E os millenials?

E quanto ao hábito de jovens (mais adultos) de postarem mais fotos de viagens e de comida? Bem... Talvez isso seja uma herança dos primórdios do Instagram (quando os adolescentes da vez, hoje adultos, estavam descobrindo as ferramentas que a rede dispunha).

No começo da rede era comum (e cool) publicar fotos de fim de semana na balada, com amigos, em restaurantes diferentes e durante viagens. Vale lembrar: dividir esses momentos no online era bem mais difícil mesmo uns anos atrás, no começo do Instagram, com conexões menos acessíveis e quando tudo era mato na internet.

"O millenial tem um comportamento um pouco diferente nas redes sociais do que da geração Z. Se a geração Z tem esse receio de exposição, toda aquela questão do aspecto da autoestima, ele gosta de ver, de olhar, mas muitas vezes não de se expor", avaliou Giuliani.

"Eles são mais abertos pra isso, têm uma postura mais de compartilhar essas experiências, porque os valorizam muito a experiência. É a primeira geração que começa quando a gente fala de compra, de venda, de serviço do millenial como cliente, como consumidor. É a primeira geração que acaba valorizando muito essa questão da experiência da marca", finalizou Giuliani.

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