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domingo, 14 de fevereiro de 2021

'Armagedom dos chips’ já provoca desde escassez de videogames até disputas geopolíticas

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Chips de computador estão mais escassos, e efeitos disso são sentidos por países e consumidores.
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TOPO
Por BBC  
14/02/2021 16h23 Atualizado há 4 horas
Postado em 14 de fevereiro de 2021 às 20h25m

  *.- Post.N. -\- 3.958 -.*  

Como muitas outras coisas erradas que estão ocorrendo no mundo, o coronavírus é parcialmente culpado pelo "armagedon dos chips". — Foto: Getty via BBC
Como muitas outras coisas erradas que estão ocorrendo no mundo, o coronavírus é parcialmente culpado pelo "armagedon dos chips". — Foto: Getty via BBC

Na maioria das vezes, eles passam despercebidos, mas os chips de computador estão no centro de todos os produtos digitais que nos cercam — e quando os suprimentos escasseiam, a fabricação deles pode parar por completo.

Alguns indícios desse problema já foram notados no ano passado, quando os fãs de jogos online tiveram dificuldade para comprar novas placas gráficas, a Apple teve que escalonar o lançamento de seus iPhones e os videogames Xbox e PlayStation recém-lançados não chegaram nem perto de atender à demanda.

Pouco antes do Natal de 2020, a questão emergiu de vez: "o armagedom dos chips" (ou chipageddon, como o fenômeno tem sido chamado em inglês) já é uma realidade, inclusive na indústria automobilística.

Os carros novos geralmente incluem mais de 100 microprocessadores — e fabricantes simplesmente não conseguem mais fornecer todos eles.

As empresas de tecnologia vêm alertando que também enfrentam restrições. A Samsung está lutando para atender aos pedidos de chips que fabrica para seus próprios produtos e também para outras empresas.

Samsung é uma dos maiores fabricantes mundiais de chips — Foto: Getty Images via BBC
Samsung é uma dos maiores fabricantes mundiais de chips — Foto: Getty Images via BBC

A Qualcomm, que produz os processadores e modems que alimentam os principais smartphones e outros dispositivos, admite o mesmo problema.

Impacto da pandemia

Como muitas outras coisas erradas que estão ocorrendo no mundo, o coronavírus é parcialmente culpado pelo "armagedom dos chips".

Os lockdowns e quarentenas impostos em várias partes do mundo incentivaram as vendas de computadores e outros dispositivos para permitir que as pessoas trabalhassem em casa.

Muitos indivíduos também aproveitaram para adquirir novos aparelhos, para uso de lazer.

A indústria automotiva, por sua vez, inicialmente viu uma grande queda na demanda e cortou boa parte de seus pedidos por componentes eletrônicos.

Como resultado, os fabricantes de chips fizeram trocas e priorizações em suas linhas de produção.

Porém, a situação se reverteu no terceiro trimestre de 2020. As vendas de carros voltaram com força maior do que a prevista, enquanto a demanda por dispositivos eletrônicos continuou em alta.

Infraestrutura de 5G

Com as fábricas funcionando em sua capacidade máxima, construir novas plantas industriais não é mais uma simples questão de investimento.

"Leva cerca de 18 a 24 meses para uma fábrica abrir e começar a produzir", explica o analista Richard Windsor.

"E mesmo depois de construir uma nova unidade, você precisa ajustá-la e aumentar o rendimento, o que também leva um pouco de tempo. Isso não é algo que você pode ligar e desligar de um dia para outro."

A implantação da infraestrutura 5G em várias partes do mundo também está aumentando bastante a demanda.

A empresa de tecnologia chinesa Huawei, por exemplo, fez um grande pedido para formar um estoque de chips antes que as restrições comerciais dos Estados Unidos a impedissem de realizar novas encomendas.

Em contraste, a indústria automotiva tem uma margem de estoque relativamente baixa e tende a não guardar uma grande quantidade de suprimentos, o que agora a deixou em apuros.

A General Motors planeja paralisar produção em três fábricas norte-americanas e reduzir obras em uma quarta, na Coreia do Sul — Foto: Getty Images via BBC
A General Motors planeja paralisar produção em três fábricas norte-americanas e reduzir obras em uma quarta, na Coreia do Sul — Foto: Getty Images via BBC

Recentemente, as companhias TSMC e Samsung, principais produtoras de chips, gastaram bilhões para acelerar um novo processo altamente complexo de fabricação de chips de 5 nanômetros para produtos de última geração.

Mas os analistas dizem que, de forma mais ampla, o setor sofreu com o subinvestimento nos últimos anos.

"A maioria das empresas do setor dois registrou lucros insatisfatórios, margens baixas e alto índice de endividamento", aponta um relatório recente da consultoria Counterpoint Research.

"Do ponto de vista da lucratividade, é difícil considerar a construção de uma nova fábrica para companhias menores", afirma o documento.

Para completar, muitos desses produtores de chips responderão à demanda extra aumentando seus preços, em vez de produzindo mais.

Efeitos em cadeia

Windsor não espera que a escassez de chips seja sanada até pelo menos o próximo mês de julho.

Outros analistas acreditam que levará ainda mais tempo para resolver o problema.

"Esperamos que as restrições de fornecimento da indústria diminuam apenas parcialmente no segundo semestre de 2021, com alguma escassez se estendendo até 2022", antevê uma pesquisa realizada pelo Bank of America.

Uma fabricante de chips disse ao Wall Street Journal, dos Estados Unidos, que as pendências eram tão grandes que levaria até 40 semanas para atender qualquer pedido que uma montadora fizesse hoje.

E isso, claro, pode ter efeitos colaterais complicados do ponto de vista financeiro.

A consultoria AlixPartners previu que a indústria automotiva perderá US$ 64 bilhões (ou R$ 344 bilhões) em vendas porque teve que fechar ou reduzir sua produção.

No entanto, essa soma precisa ser analisada dentro do contexto do setor, que normalmente gera cerca de US$ 2 trilhões (R$ 10 trilhões) em vendas por ano.

Criadores de monopólio

O "armagedom dos chips" também traz implicações geopolíticas.

Os Estados Unidos ainda lideram o setor de de desenvolvimento e de design de componentes. Mas são Taiwan e a Coreia do Sul que dominam a indústria de fabricação de chips.

A TSMC, com sede em Taiwan, é a maior empresa de semicondutores do mundo — Foto: Taiwan Semiconductor manufacturing Co Ltda/BBC
A TSMC, com sede em Taiwan, é a maior empresa de semicondutores do mundo — Foto: Taiwan Semiconductor manufacturing Co Ltda/BBC

O economista Rory Green, da consultoria TM Lombard, estima que esses dois países asiáticos respondam por 83% da produção global de chips de processador e 70% dos chips de memória.

"Assim como a Opep (cartel de países petroleiros) para o petróleo, Taiwan e Coreia do Sul estão perto de alcançar um monopólio dos produtores de chips", escreveu Green, acrescentando que a participação das duas nações no mercado deve crescer ainda mais.

Um grupo de 15 senadores escreveu ao presidente americano Joe Biden instando-o a tomar medidas para "incentivar a produção americana de semicondutores no futuro".

Porém, o país mais afetado por essa questão é a China, que fabrica mais carros do que qualquer outra nação.

A empresa de pesquisa IHS prevê uma redução de 250 mil veículos na produção do país durante os primeiros três meses de 2021 como consequência da atual escassez.

Poderio chinês

As autoridades de Pequim há muito desejam tornar o país autossuficiente na fabricação de semicondutores.

Mas recentemente os Estados Unidos tomaram medidas para bloquear as empresas chinesas que fazem uso do know-how americano na produção dos chips, alegando que eles também suprem as necessidades militares da China.

A crise atual não apenas dará aos líderes do país Asiático motivos para redobrar seus esforços.

Ela também expõe o quão perturbadora outra de suas maiores ambições pode ser: a unificação com Taiwan.

"Mais caro"

Por enquanto, consumidores precisam ter algumas coisas em mente.

Marcas menores podem achar mais difícil garantir o suprimento que desejam — Foto: Getty Images via BBC
Marcas menores podem achar mais difícil garantir o suprimento que desejam — Foto: Getty Images via BBC

O tempo de espera para alguns modelos de automóveis aumentará consideravelmente.

E alguns outros dispositivos também podem ser difíceis de encontrar pelos próximos meses.

As maiores empresas do setor, como Samsung e Apple, têm poder de compra para garantir prioridade neste momento.

Mas algumas marcas menores podem ser afetadas de forma desproporcional.

"Isso significa que os produtos podem ficar mais caros — ou pelo menos não cair de preço com o tempo, como normalmente esperaríamos", diz Ben Wood, da consultoria CCS Insight.

"A oferta também será limitada. Portanto, se há um gadget que você realmente deseja comprar, não pense em ficar esperando para ver se haverá um negócio melhor em alguns meses", completa o especialista.

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YouTube remove mais de 2 milhões de canais, maioria por spam, no 4º trimestre de 2020

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Dados fazem parte do relatório de Transparência do Google, dono da plataforma de vídeo.  
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Por G1  
12/02/2021 16h40 Atualizado há 2 dias
Postado em 14 de fevereiro de 2021 às 15h00m

  *.- Post.N. -\- 3.957 -.*  

YouTube fica fora do ar — Foto: Dado Ruvic/Reuters
YouTube fica fora do ar — Foto: Dado Ruvic/Reuters

O Youtube disse que removeu mais de 2 milhões de canais no 4º trimestre de 2020, a maioria foi encerrada por violar as diretrizes políticas de spam, disse a plataforma.

Os dados fazem parte do Relatório de Transparência do Google, grupo dono do Youtube, divulgados nesta sexta-feira (12). Na quinta-feira (11), o Facebook também divulgou informações que apontaram que o conteúdo identificado como discurso de ódio na rede social subiu 389% em 1 ano.

Veja dados do relatório (de outubro a dezembro de 2020):

  • Removeu mais de 9,3 milhões de vídeos por violarem as Diretrizes da comunidade. [Comparado com 7,8 milhões de vídeos no terceiro trimestre de 2020]
  • 94% desses vídeos foram sinalizados pela primeira vez por máquinas em vez de humanos.
  • Dos detectados pelas máquinas, 36,7% nunca receberam uma única visualização e 37,5% receberam entre 1 e 10 visualizações.
  • O YouTube encerrou mais de 2 milhões de canais por violar as diretrizes da comunidade. A grande maioria foi encerrada por violar as políticas de spam. [Comparado com 1,8 milhões de canais no terceiro trimestre de 2020]
  • O YouTube removeu mais de 900 milhões de comentários, a maioria dos quais spam; 99,6% dos comentários removidos foram detectados automaticamente. [Comparado a 1,1 bilhão de comentários no terceiro trimestre de 2020]
  • Pouco mais de 223 mil remoções foram contestadas, e reintegramos 83 mil delas [em comparação com o segundo trimestre de 2020: 209 mil contestações, 82 mil vídeos restabelecidos].
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Mundo vive pandemia de ciberataques e Brasil está despreparado, diz CEO de empresa que descobriu megavazamento

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Para Marco DeMello, CEO da PSafe, esses megavazamentos evidenciam que o mundo vive nada menos que duas pandemias: uma de covid-19 e outra "de ciberataques". 
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TOPO
Por BBC  
12/02/2021 17h47 Atualizado há 3 horas
Postado em 12 de fevereiro de 2021 às 21h50m

  *.- Post.N. -\- 3.956 -.*  

O vazamento de centenas de milhões de registros e dados pessoais vieram à tona desde o ínicio do ano — Foto: Getty Images/BBC
O vazamento de centenas de milhões de registros e dados pessoais vieram à tona desde o ínicio do ano — Foto: Getty Images/BBC

Em dois meses, dois megavazamentos de dados privados assustaram o Brasil. Em janeiro, veio à tona a exposição na internet de 223 milhões de CPFs de pessoas vivas e falecidas. Agora, veio à tona o vazamento de quase 103 milhões de registros de celulares.

Os dois casos foram descobertos pela empresa de segurança cibernética PSafe. Para Marco DeMello, CEO da PSafe, esses megavazamentos evidenciam que o mundo vive nada menos que duas pandemias: uma de covid-19 e outra "de ciberataques".

"Essas duas pandemias coexistem e foram aceleradas no mesmo ano. O que estamos vendo dessa pandemia digital de ciberataques é uma realidade em que todas as empresas e indivíduos estão vulneráveis a ataques de inteligência artificial avançadas e as defesas não se adaptaram ainda a essa nova realidade", disse em entrevista à BBC News Brasil.

Nesse ambiente em que empresas e governos estariam amplamente vulneráveis a ataques cibernéticos, o Brasil, segundo DeMello, ainda sofre com a desvantagem de estar mais despreparado que a maioria dos países.

"O Brasil tem uma defasagem muito grande entre a sua posição econômica e a sua posição em termos de cibersegurança. É a 8ª maior economia e o penúltimo, dentre 47 países monitorados, em velocidade de detecção de vazamento de dados."

No dia 3 de fevereiro, a equipe da PSafe detectou a oferta na deep web de 102.828.814 contas de celular com informações sensíveis como tempo de duração de ligações, número do telefone e outros dados pessoais, como CPF e endereço.

Entre os donos dessas contas estariam autoridades, como o presidente Jair Bolsonaro. DeMello não quis mencionar nomes de pessoas que tiveram as informações vazadas, mas confirmou que entre elas estão várias autoridades e celebridades.

"Não confirmo nada sobre nenhum indivíduo particular por uma questão de privacidade. Mas, sim, existem celebridades dentro dessa base, celebridades privadas e públicas."

Saiba mais sobre o megavazamento de dados de 223 milhões de brasileiros
Saiba mais sobre o megavazamento de dados de 223 milhões de brasileiros

Cada registro de celular estava sendo vendido a US$ 1, com possibilidade de valores unitários menores no caso da aquisição de milhões de contas por um mesmo comprador.

Segundo DeMello, a pessoa que vendida os registros disse que os dados são da Vivo e da Claro. As duas empresas negam e o CEO da PSafe diz que não é possível confirmar, por enquanto, a origem dos dados. Ele afirmou, porém, que tudo indica que os registros saíram de grandes operadoras de telefonia.

'Brasil é o penúltimo, dentre entre países monitorados, em velocidade de detecção e vazamento de dados', diz presidente da Psafe — Foto: PSafe

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Como foi feita essa descoberta? E de que forma se deu a interação entre os funcionários da PSafe e quem estava vendendo os registros?

Marco DeMello - Nós temos um sistema de proteção para empresas e a inteligência artificial desse sistema tem monitoramento da deep web. Fazemos um monitoramento constante de vazamentos em todos os fóruns em que estamos infiltrados.

O primeiro vazamento que alertamos esse ano foi em 19 de janeiro, de 223 milhões de CPFs. Em 3 de fevereiro encontramos esse segundo vazamento, que conteria quase 103 milhões de registros telefônicos de duas operadoras. Nosso time de segurança já parte automaticamente para análise do vazamento e alegações do criminoso. A gente passa para a interação humana, interroga o criminoso. Nós desafiamos, questionamos o criminoso, para forçá-lo a comprovar que as alegações são verdadeiras ou ignorá-lo por ser mais um mentiroso na dark web, porque tem muito.

Fizemos isso e as alegações que o criminoso havia feito acabaram se comprovando em vários aspectos. Nós temos técnicas e táticas e ferramentas para fazer essa comprovação. E chegamos à conclusão de uma probabilidade muito alta de serem realmente quase 103 milhões de registros de telefonia celular. Não tivemos acesso aos 103 milhões. Tivemos acesso a exemplos por estado, estratos por estado, que a gente conseguiu investigar para comprovar a veracidade.

BBC News Brasil - Ele chegou a oferecer essas amostras gratuitamente ou foi preciso comprar alguns desses registros?

DeMello - Gratuitamente. Nós não compramos nada na darkweb. Isso é crime, e a gente não participa disso. A gente alerta sobre esse tipo de vazamento de segurança, mas a gente trabalha puramente com interrogação e técnicas de validação com esses criminosos. É de interesse deles comprovar, porque se eles não comprovam, não vendem. Eles sabem que ninguém vai pagar nada sem antes ter prova de que eles têm os dados que dizem ter.

É uma prática estabelecida. Tem técnicas e métodos com as quais a gente consegue receber essas amostras gratuitamente para pesquisa. Nós não mantemos esses dados nos nossos sistemas. A gente usa isso para comprovação e validação e notificação das autoridades. Fizemos notificação à Autoridade Nacional de Proteção de Dados, a ANPD, que é responsável pela investigação no contexto da Lei Geral de Proteção de Dados, que está em vigor no Brasil com multas previstas a partir de agosto.

E nós fizemos notificação pública do que foi observado pelo nosso sistema de segurança.

BBC News Brasil - Foi noticiado que entre esses registros estão os de pessoas públicas, como o presidente Jair Bolsonaro. Como é feita a verificação de dados assim, do presidente?

DeMello - Nós não comentamos. Não confirmo nada sobre nenhum indivíduo particular por uma questão de privacidade.

A gente respeita muito a privacidade de pessoas envolvidas. Mas, sim, existem celebridades dentro dessa base, celebridades privadas e públicas. E essa confirmação é feita da mesma forma como fazemos outras confirmações. Existem técnicas e ferramentas e conseguimos verificar através de dados como CPF, nome completo e etc. Vemos se esses dados batem com o de outros vazamento que a gente já tem conhecimento e isso começa a compor um caso de que esses dados são reais.

Nunca existe 100% de certeza. A gente precisa deixar isso muito claro. Não tem como ter certeza nem da proveniência dos dados nem de que a base inteira está tão correta quanto os exemplos informados. Então é um trabalho investigativo que precisa acontecer a partir daqui pelas autoridades. Baseado em toda a nossa experiência, a gente acredita que esse vazamento é real.

BBC News Brasil - Foi amplamente noticiado o vazamento do registro do presidente. Isso pelo menos pode ser confirmado?

DeMello - Não posso confirmar nem discutir dados específicos de indivíduos. A gente evita comentar sobre quem quer que seja, da mais desconhecida à mais conhecida. Mas posso dizer que sim, dentre esses dados existem celebridades do Brasil.

BBC News Brasil - Foi noticiado que a pessoa que estava vendendo os dados falou que seriam dados da Vivo e da Claro. Essas empresas negam. Pelo conteúdo das informações a que vocês tiveram acesso dá para dizer que foram dados dessa operadora ou que são dados de grandes operadoras de telefonia?

Nós não confirmamos que os dados são provenientes da Vivo e da Claro. Esse ponto de origem é uma alegação do criminoso. Ele está alegando que é proveniente dessas duas operadoras. Não temos confirmação independente disso. Estamos trabalhando para fazer confirmação. Mas, ao que tudo indica, realmente são de grandes operadoras de telefonia celular.

Muito pouco provável que tenha vindo de outra fonte que não grandes operadoras de telefonia celular — mas exatamente quais são e como os dados foram obtidos, não temos essa confirmação.

BBC News Brasil - E quais as hipóteses para a forma como se deu esse vazamento?

DeMello - A gente vive duas pandemias. Uma pandemia biológica de covid-19 e a gente vive uma pandemia digital de ciberataques. Essas duas pandemias coexistem e foram aceleradas no mesmo ano.

O ano passado foi um ano em que o mundo digital, online e tecnológico avançou 10 anos em seis meses. Houve uma aceleração tecnológica e técnica e também de presença online de uma década em seis meses.

Isso foi verificado também na receitas das grandes empresas de tecnologia e serviços online. Elas bateram metas de receitas em 2020 que eram previstas para 2030. Essa aceleração de 10 anos em 6 meses ocorreu para o bem e para o mal. O que eu quero dizer com isso é que os hackers, os criminosos, também evoluíram 10 anos em seis meses.

O que estamos vendo dessa pandemia digital e ciberataques é uma realidade em que todas as empresas e indivíduos estão vulneráveis a ataques de inteligência artificial avançadas e as defesas não se adaptaram ainda a essa nova realidade. As defesas dos governos, das empresas, essas defesas não estão ainda ao nível dos ataques. A gente precisa fazer um trabalho conjunto muito forte, de capacitação e de melhoria das práticas e metodologias de proteção de dados de cada empresa e cada órgão público, especialmente no Brasil.

No Brasil tem uma defasagem muito grande entre a sua posição econômica e a sua posição em termos de cibersegurança. É a 8ª maior economia do mundo e o 46º, o penúltimo entre os 47 monitorados, em velocidade de detecção e vazamento de dados. Só fica à frente da Turquia.

BBC News Brasil - O Brasil está mais vulnerável, então, do que outros países em termos de vulnerabilidade de privacidade de dados?

DeMello - Acredito que sim, mas o que eu estou dizendo aqui é que, além da probabilidade, a detecção, a capacidade da empresa de saber que foi invadida, a média do Brasil é de 46 dias (entre o vazamento e a detecção). Nos Estados Unidos, são é de 24 a 48 horas. E já é ruim. Teria que ser segundos. Então esse tempo do momento em que a invasão acontece ao momento em que a pessoa percebe e reporta é de 46 dias. Isso está indicando que as empresas e órgãos públicos precisam encarar essa pandemia de ciberataques por inteligência artificial com total seriedade e urgência.

Nós que trabalhamos com segurança somos vistos como profetas do apocalipse. Não estou dizendo que o mundo está acabando. Estou aqui para dizer que essa pandemia digital de ciberataques é real, está acontecendo, e esses megavazamentos são consequência disso, são sintomas disso. E eles vão continuar a acontecer até que as defesas das empresas e órgãos públicos se equiparem à sofisticação dos ataques, porque hoje não é o caso.

BBC News Brasil - Quais as possíveis consequências para as pessoas e para as empresas de um vazamento como esse? Para que os dados podem ser usados?

DeMello - No caso da pessoa física, existem várias técnicas que criminosos usam para assumir a identidade da pessoa. E muitas vezes cometer crimes em nome da pessoa ou vender propriedades que aquela pessoa tem sem ter o direito de fazer isso. Fazer empréstimos em nome daquela pessoa. Há muitos ataques diferentes.

Para as empresas, evidentemente o impacto de ter dados dos seus clientes vazados, suas técnicas, suas patentes, isso pode gerar um prejuízo existencial. Pode virar uma razão de a empresa deixar de existir. A consequência vai de uma perda financeira, de um processo ou de uma multa, até o encerramento das operações da empresa.

Isso depende do tamanho e volume de dados do vazamento. Mas em geral é bastante destrutivo e devastador.

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