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quarta-feira, 10 de março de 2021

Hackers acessam câmeras de segurança de bancos, prisões e até da Tesla

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Invasores alegaram ter descoberto login de administrador da empresa Verkada, que controla uma plataforma de sistemas de segurança on-line.
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TOPO
Por France Presse

Postado em 10 de março de 2021 às 10h40m

  *.- Post.N. -\- 3.979 -.*  

Câmeras conectadas à rede precisam de cuidados 'como computador ou celular', de acordo com fabricante — Foto: Altieres Rohr/G1
Câmeras conectadas à rede precisam de cuidados 'como computador ou celular', de acordo com fabricante — Foto: Altieres Rohr/G1

Um grupo de hackers americanos alegou ter acessado na última terça-feira (9) imagens de 150 mil câmeras de segurança em bancos, prisões, escolas, na montadora Tesla e em outros lugares em uma operação para expor "o estado de vigilância".

Imagens capturadas das câmeras de segurança hackeadas foram publicadas no Twitter com a hashtag #OperationPanopticon.

A conta que espalhou as imagens foi banida da plataforma por violar as regras sobre ataques cibernéticos.

"E se acabarmos completamente com o capitalismo de vigilância em dois dias?", perguntou um suposto membro de um grupo chamado APT-69420 Arson Cats em meio a uma série de imagens postadas na rede social.

"Esta é a ponta da ponta do iceberg", acrescentou.

A desenvolvedora Tillie Kottmann afirmou ser integrante do grupo que hackeou os sistemas da Verkada, de acordo com a Bloomberg. Ela já havia publicado documentos sigilosos da Intel.

O grupo de hackers alegou ter descoberto as credenciais da conta de um administrador sênior da empresa Verkada, do Vale do Silício, nos EUA, que controla uma plataforma de sistemas de segurança on-line. As informações de login estariam expostas na internet.

Os invasores teriam conseguido acessar, além das imagens ao vivo, todo o arquivo dos clientes da companhia.

"Desabilitamos todas as contas de administrador interno para evitar qualquer acesso não autorizado", disse um porta-voz da Verkada em resposta ao questionamento da agência AFP.

"Nossa equipe de segurança interna e a empresa de segurança externa estão investigando a escala e o escopo desse problema e notificamos as autoridades", continuou.

A Verkada acrescentou que notificou as empresas que atende em sua plataforma.

Imagens de câmeras de vigilância postadas no Twitter mostram celas de prisão e um homem com uma barba falsa dançando em um depósito de banco.

A violação da Verkada mostra o risco de terceirizar a vigilância de segurança e confiá-la a empresas que operam a partir da nuvem da internet, de acordo com Rick Holland, diretor de segurança da informação da Digital Shadows, uma empresa de proteção de risco.

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terça-feira, 9 de março de 2021

Como brasileiro virou programador usando celulares quebrados

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Cesar Pauxis desafiou lógica e pobreza para se tornar um menino-prodígio na área de informática. Com apenas 17 anos, ele foi recrutado pela maior empresa brasileira de pagamentos eletrônicos.
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TOPO
Por BBC

Postado em 09 de março de 2021 às 20h30m 

  *.- Post.N. -\- 3.978 -.*  

Na base do improviso e da perseverança, como mostra sua 'estação de trabalho', Cézar Pauxis aprendeu a programar — Foto: Cézar Pauxis via BBC
Na base do improviso e da perseverança, como mostra sua 'estação de trabalho', Cézar Pauxis aprendeu a programar — Foto: Cézar Pauxis via BBC

"Tinha um aparelho que esquentava tão rápido que eu precisava colocar no congelador. Em outros eu só conseguia usar parte da tela."

Cézar Pauxis assim descreve uma rotina de "relacionamentos problemáticos" com os muitos telefones celulares usados que teve durante a adolescência — os únicos que cabiam no orçamento familiar.

Mas foi em meio a "gambiarras" e com uma dose cavalar de perseverança que o paraense desafiou lógica e pobreza: Pauxis se tornou um autodidata em programação e, aos 17 anos, viu-se disputado por empresas de tecnologia brasileiras depois que um tuíte seu viralizou em meio em meio a profissionais da área no apagar das luzes de 2020.

"Eu estava pedindo ajuda para comprar um computador celular melhorzinho porque, para variar, o que eu estava usando tinha quebrado," conta o jovem à BBC News Brasil.

Vaquinha viral

Em uma questão de dias, a thread superou 90 mil curtidas e 20 mil compartilhamentos, além de resultar em enxurrada de doações. A visibilidade também despertou interesse profissional no caso do paraense.

Ele foi contatado por uma série de empresas que incluiu a Picpay, a empresa de pagamentos eletrônicos com sede em Vitória (ES) e que, curiosamente, estava sendo usada por Pauxis na vaquinha virtual.

"Aprender programação do zero, nas condições que o Cezar tinha, é muito difícil. Quando ele contou sua história no Twitter, a comunidade tech passou a acompanhar," diz Diogo Carneiro, diretor técnico da Picpay.

Programar em celulares é mais complicado que em computadores por conta da diferença de tamanho de telas e pelo fato de que é necessário digitar bastante, o que pode ser desconfortável em condições normais — o que dirá em celulares com problemas.

Desde 1º de março deste ano, Pauxis é um dos mais novos funcionários da empresa, na função de desenvolvedor. Trabalhando remotamente de Belém, ele mora sozinho em um apartamento, pois a família se mudou há alguns anos para a pequena cidade de Carutapera, no interior do Maranhão.

A história de Pauxis viajou além do mundo tech. Mais precisamente chegou ao site Razões Para Acreditar, que organiza doações para pessoas consideradas inspiradoras.

Uma nova vaquinha virtual arrecadou em janeiro fundos de mais de R$ 80 mil que serão usados em obras para, literalmente, terminar a casa em que família vive em Carutapera.

"A gente não tinha condições financeiras para achar uma casa pronta, então precisou viver em uma inacabada", conta Pauxis, que também pretende usar parte da verba fazer um curso formal de programação.

Pauxis foi contratado pela PicPay, uma das maiores empresas de pagamentos digitais do Brasil. — Foto: Picpay via BBC
Pauxis foi contratado pela PicPay, uma das maiores empresas de pagamentos digitais do Brasil. — Foto: Picpay via BBC

Interesse pelos 'bots'

O paraense, que aprendeu a ler aos três anos de idade, tinha 14 quando começou a se interessar pelos chamados "bots", aplicações autônomas que rodam na internet enquanto desempenham algum tipo de tarefa pré-determinada.

Pauxis tinha curiosidade especial pelos bots no aplicativo Telegram. Começou, sempre com o auxílio de um celular usado, a buscar informações em comunidades de programadores.

"A última vez que tive computador em casa foi aos cinco, seis anos de idade", conta.

"Então, tive que usar o celular. As pessoas com quem conversava me avisaram do quanto era difícil programar em celular, mas a minha curiosidade era maior."

Outro obstáculo eram os problemas nos aparelhos. Falhas fizeram com que Pauxis por várias vezes perdesse todo o trabalho feito e frequentemente o obrigavam a ficar sem trabalhar nos projetos por meses a fio.

"Era muito desmotivador quando isso acontecia. Só que eu nunca pensei em desistir."

Ainda assim, ele conseguiu criar dois bots para o Telegram que respondiam a pesquisas. Pauxis, porém, hesitava em pedir ajuda financeira aos contatos que fez online. Durante anos ele evitou inclusive tornar sua história pública.

"Eu tinha e ainda tenho muito medo de as pessoas me interpretarem mal e acharem que eu estou tentando me vitimizar", diz o adolescente.

"Tenho criado projetos com programação todos esses anos sempre somente em celulares quebrados. Mas é o que eu amo fazer e sempre fiz de graça simplesmente para poder ajudar os usuários, por isso relutei em pedir doações ou cobrar pelo serviço."

O mundo deu voltas para Cézar Pauxis desde então e, durante a conversa com a reportagem ele já tinha um smartphone novo em folha em mãos.

Mas o paraense não quer esquecer os percalços passados. E quer que sua história sirva de incentivo para outras pessoas que se encontrem em situações semelhantes a que ele viveu.

"Eu gosto da ideia de inspirar e motivar outras pessoas a não desistir. Queria que elas vissem também que a gente não precisa de muita coisa para seguir um sonho."

"Muita gente tem celulares ou outros equipamentos que às vezes estão largados em alguma gaveta. Elas poderiam doar esses equipamentos, pois isso pode ajudar demais quem precisa," acrescenta.

O desafio agora para Pauxis é um outro tipo de programação: a cozinha.

"Até agora eu só sei fazer arroz e macarrão", brinca o adolescente.

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segunda-feira, 8 de março de 2021

Geneticista que usa supercomputador para estudar coronavírus é pioneira da bioinformática no país

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Bióloga Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos coordena equipe do Laboratório Nacional de Computação Científica, que identificou variante P.2 do Sars-CoV-2. Quando ela começou a fazer Ciência no país, quase 40 anos atrás, a internet não havia chegado ao país e as bases de dados de bancos de genoma chegavam do exterior ao país 'naqueles disquetes grandes'.
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TOPO
Por Camilla Veras Mota, BBC

Postado em 08 de março de 2021 às 17h15m

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Bióloga Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos coordena equipe do Laboratório Nacional de Computação Científica, que identificou variante P.2 do Sars-CoV-2 — Foto: Divulgação
Bióloga Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos coordena equipe do Laboratório Nacional de Computação Científica, que identificou variante P.2 do Sars-CoV-2 — Foto: Divulgação

O Brasil tem três supercomputadores entre os 500 mais potentes do mundo. Dois são da Petrobras — Atlas e Fênix. O terceiro, o Santos Dumont, localizado no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis (RJ), desde o ano passado tem sido usado nos esforços para combater a pandemia de Covid-19.

Entre outras atribuições, ele é utilizado no sequenciamento genético de amostras do vírus que chegam de diferentes regiões do país.

Foi com a ajuda dele que a equipe coordenada pela bióloga Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos, responsável pelo Laboratório de Bioinformática do LNCC, identificou em dezembro uma variante nova do coronavírus no Rio de Janeiro, posteriormente batizada de P.2.

A cientista trabalha no laboratório há quase 40 anos. Ela é uma das pioneiras no país da bioinformática — ciência que usa computação, matemática e estatística para processar e interpretar dados da biologia e responder questões em aberto na Ciência.

Essa é uma área muito recente do conhecimento, ampliada exponencialmente nas últimas décadas graças ao avanço da tecnologia.

Isso porque, quando se fala em genética — um dos campos que têm se beneficiado da bioinformática e a especialidade de Ana Tereza —, existe a necessidade de processamento de um oceano de dados. O DNA, apesar de microscópico, guarda um volume imenso de informação.

No caso do genoma humano, o "receituário" de todas as nossas características físicas está descrito em três bilhões de pares de bases nitrogenadas, estas representadas por quatro letras — C (citosina), G (guanina), A (adenina) e T (timina), os blocos que compõem a fita do DNA.

Entender o genoma e a função dos genes (uma sequência específica do DNA que contém a informação para fabricação de uma proteína ou uma molécula de RNA — o que os biólogos chamam de "produto funcional específico") pode auxiliar na prevenção de doenças, no desenvolvimento de medicamentos e terapias.

Também tem uma larga aplicação na agricultura e pecuária, no melhoramento genético de plantas e animais, e tem se mostrado um ingrediente fundamental no combate à pandemia. O "retrato" do vírus obtido pelo sequenciamento genético permite entender como ele funciona e como se propaga — informações fundamentais para subsidiarem a tomada de decisão das autoridades de saúde.
Supercomputador foi adquirido em 2015 e tem uso compartilhado pela comunidade científica — Foto: Divulgação/LNCC
Supercomputador foi adquirido em 2015 e tem uso compartilhado pela comunidade científica — Foto: Divulgação/LNCC

'Ciência do século 21'

Ana Tereza começou a trabalhar no LNCC em 1984, um ano depois de se formar em Ciências Biológicas, para atuar com modelagem matemática. Nessa época, o laboratório ainda estava na cidade do Rio — desde 1998 ele funciona em Petrópolis (RJ).

O trabalho naquela época era completamente diferente, já que a Ciência nem havia codificado o primeiro genoma completo ainda, apenas fragmentos sequenciais de DNA.

O primeiro genoma completo viria em1995, o da bactéria Haemophilus influenzae, sequenciado nos Estados Unidos. Relativamente pequeno, tinha pouco mais de 5% do tamanho do genoma humano, que seria decodificado cinco anos mais tarde, no ano 2000, pelo geneticista americano Craig Venter.

A bióloga entrou nesse mundo pouco depois de ingressar no LNCC, quando seu caminho se cruzou com o do cientista Darcy Fontoura de Almeida, precursor na área de genética no país e àquela altura um nome conhecido na comunidade científica brasileira.

Formado em Medicina, ele fora orientado por Carlos Chagas Filho, fundador do Instituto de Biofísica da UFRJ (à época, Universidade do Brasil) e um dos que contribuíram para institucionalizar a pesquisa científica no país.

Em uma entrevista em 2009 à revista Ciência Hoje, Almeida, falecido em 2014, explica como foi parar no LNCC:

"Por volta de 1989, concluí que a análise de DNA ia evoluir e explodir. Era lógico, óbvio. No IB [Instituto de Biofísica] não poderíamos fazer isso, pois precisaríamos de uma computação poderosa. Lembrei-me então do LNCC e fui falar com o Antônio Olinto, que à época era o diretor. Expliquei o que estava acontecendo na biologia e disse que achava um absurdo não haver ali uma única linha de pesquisa em biologia, 'a ciência do século 21'. Ele quis saber então o que poderia ser feito. Disse que queria conversar com o pessoal jovem do LNCC."

O "pessoal jovem" era Ana Tereza. Ela e Darcy passaram então a trabalhar juntos. O cientista foi seu orientador no mestrado em biofísica e no doutorado em genética.

Naquela época, a internet não havia chegado ainda ao Brasil. O computador que a dupla usava era um mainframe, uma máquina de grande porte, e as informações eram compartilhadas entre os cientistas por meio de disquetes.

"O professor Darcy tinha assinatura do GenBank [banco de dados público de sequências criado em 1982 nos EUA] e, como não tinha internet, a gente recebia tudo pelo correio, naqueles disquetes grandes. E o arquivo não vinha em texto, tinha que programar pra extrair as informações."

Por volta de 1998, ela conta, começaram a chegar ao país sequenciadores genéticos mais potentes, capazes de sequenciar fragmentos maiores de genoma.

Foi aí que teve início o primeiro projeto nacional de sequenciamento de genoma de um organismo, em que Ana Tereza organizou a formação de uma "rede do genoma nacional", com a capacitação de 25 laboratórios em 15 Estados.

O primeiro organismo sequenciado foi a Chromobacterium violaceum, bactéria encontrada em regiões tropicais e subtropicais e que vive nas águas ácidas do rio Negro, no Amazonas. Ela é até hoje estudada no Brasil e lá fora por seu potencial biotecnológico, com possíveis aplicações em medicamentos e cosméticos.

O projeto genoma nacional ajudou a capacitar grupos em diferentes regiões do país e a formar recursos humanos que contribuiriam para descentralizar a pesquisa em bioinformática no país.

A primeira pós-graduação na área foi criada pela Capes em 2003. Hoje há cursos em instituições como Fiocruz, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e, mais recentemente, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
'Tem picos em que há investimentos em laboratório, mas depois não tem material de consumo, de bancada. Ou não tem aluno porque as bolsas estão cortadas. Quem sobrevive na pesquisa no Brasil são heróis, estão ali por uma causa em que acreditam' — Foto: Arquivo Pessoal
'Tem picos em que há investimentos em laboratório, mas depois não tem material de consumo, de bancada. Ou não tem aluno porque as bolsas estão cortadas. Quem sobrevive na pesquisa no Brasil são heróis, estão ali por uma causa em que acreditam' — Foto: Arquivo Pessoal

Força-tarefa contra o Sars-CoV-2

Desde então, os cientistas trabalham em rede e compartilham informações entre si, o que tem ajudado na atual crise sanitária. Um estudo publicado em setembro do ano passado na revista Science analisando a evolução da pandemia de Covid-19 no Brasil é assinado por pesquisadores das mais diversas instituições, inclusive do LNCC.

A bioinformática e a genética têm tido papel importante nos esforços contra o novo coronavírus.

Graças aos avanços nessas áreas, cientistas de todo o mundo já compartilharam mais de 700 mil genomas do Sars-Cov-2, disponíveis na plataforma pública Gisaid.

Essa escala sem precedentes tem permitido ao planeta entender a disseminação do vírus e acompanhar as mutações que ele tem acumulado à medida que se espalha pelo globo. É quase como assistir à evolução em tempo real.

Algumas dessas variantes, como a encontrada em janeiro em Manaus e batizada de P.1, preocupam porque podem estar ligadas a um aumento da transmissibilidade do vírus. A cepa identificada no Amazonas tem duas mutações — a N501Y e E484K — localizadas em genes que codificam a espícula, a proteína responsável por interagir com a célula do hospedeiro, e que, na prática, facilita a entrada do coronavírus nas células humanas.

A P.2, encontrada no Rio de Janeiro pela equipe coordenada por Ana Tereza, que conta com cerca de 25 pessoas, também apresenta a mutação E484K — estudos têm apontado que ela pode driblar a ação de anticorpos.

Antes de ser aplicado nos esforços contra a Covid-19, o supercomputador Santos Dumont já foi usado para estudar os vírus que causam a dengue e a zika. Ele é utilizado não apenas pelo laboratório de bioinformática, mas também por outras especialidades — e está aberto a toda a comunidade científica brasileira.

Ana Tereza diz que seu laboratório tem hoje entre 15 e 20 projetos simultâneos em andamento. Um deles, mais recente, visa entender porque algumas pessoas têm manifestações mais graves da Covid-19. Para isso, a equipe vai começar a sequenciar DNA de pacientes, e não apenas o material genético do vírus.

"Precisamos entender a resposta imune do hospedeiro, a carga genética do paciente."

"A gente vê casos em que um casal vive junto, mas apenas um desenvolve a doença", exemplifica.
Fazer Ciência no Brasil

Ana Tereza participou da criação e foi a primeira presidente da Associação Brasileira de Bioinformática e Biologia Computacional (AB3C) e foi membro do conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência entre 2015 e 2019.

Para ela, um dos aspectos mais difíceis de ser pesquisador no Brasil são os repentinos e frequentes cortes no financiamento da Ciência no país.

"É um horror a gente não ter continuidade de trabalho, não saber se no próximo ano vai ter o mesmo edital para pedir financiamento para a pesquisa. As coisas são muito instáveis", afirma.

"Tem picos em que há investimentos em laboratório, mas depois não tem material de consumo, de bancada. Ou não tem aluno porque as bolsas estão cortadas. Quem sobrevive na pesquisa no Brasil são heróis, estão ali por uma causa em que acreditam."

Desde 2016, segundo ela, a área de genômica vem sofrendo sucessivas restrições de recursos. E os cortes recentes no orçamento da Ciência e Tecnologia só agravaram o problema.

Como o Brasil não produz os insumos usados na pesquisa (os reagentes usados no sequenciamento genético, por exemplo, são todos importados), fica refém das flutuações cambiais — em um momento como o atual, em que o dólar custa cerca de R$ 5,60, fazer ciência custa ainda mais caro.

O quadro é agravado pela redução de bolsas de pesquisa, de mestrado e doutorado, de concursos para novos professores, o que tem cada vez mais estimulado cientistas brasileiros a buscarem melhores condições de trabalho em outros países, a famosa "fuga de cérebros".

"O Brasil investe muito na formação, tem uma formação de recursos humanos muito boa, e depois não cria condições propícias para que os alunos fiquem aqui."

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