Descritos como "manual de compliance", os documentos também mostram que os funcionários são solicitados a serem mais lenientes com as contas bem-sucedidas do serviço britânico de compartilhamento de conteúdo.
Especialistas em moderação de conteúdo e em proteção infantil dizem que
isso mostra que o OnlyFans — que é mais conhecido por hospedar
pornografia — tem uma certa "tolerância" com contas que postam conteúdo
ilegal.
O OnlyFans, por sua vez, afirma que vai muito além de "todos os padrões
e regulamentos de segurança globais relevantes" e não tolera violações
de seus termos de uso.
Na noite de quinta-feira (19/8), o OnlyFans anunciou que vai proibir conteúdo sexualmente explícito no site a partir de 1º de outubro.
O anúncio foi feito depois que a BBC News abordou a empresa para
comentar os documentos vazados e preocupações sobre a gestão de contas
que publicam conteúdo ilegal.
O OnlyFans disse que ainda permitiria aos criadores de conteúdo postar fotos e vídeos com nudez se estivessem de acordo com seus termos de uso, que serão atualizados.
O site tem mais de 120 milhões de assinantes, que pagam mensalidade e gorjetas aos "criadores" de vídeos e fotos, com a possibilidade de enviar mensagens pessoais para eles. O OnlyFans fica com 20% de todos os pagamentos.
Em maio, a BBC News revelou que o site estava deixando de impedir
menores de 18 anos de vender e aparecer em vídeos explícitos, apesar de
ser ilegal.
Na época, o OnlyFans disse que tentativas de usar o site de forma fraudulenta eram "raras".
Agora, os documentos vazados mostram que as contas não são encerradas automaticamente se violarem os termos de uso do site.
Moderadores de conteúdo da plataforma também contaram à BBC News que
encontraram anúncios de serviços de prostituição, bestialidade e
material que um moderador acredita ser incesto.
A BBC viu exemplos de alguns desses conteúdos proibidos. Em um vídeo,
um homem aparece comendo fezes. Em outro, um homem paga moradores de rua
para fazer sexo com ele diante das câmeras.
O OnlyFans diz agora que removeu os vídeos e que os documentos não são manuais ou "orientação oficial".
Em comunicado, a empresa afirma: "Não toleramos qualquer violação de
nossos termos de uso e tomamos medidas imediatas para garantir a
segurança de nossos usuários."
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Logo do OnlyFans é visto em computador. Plataforma é conhecida por conteúdo erótico — Foto: Andrew Kelly/Reuters
Os moderadores com quem conversamos nos deram uma perspectiva de como o conteúdo do site é verificado.
Christof (nome fictício) diz que em alguns dias visualiza até 2 mil fotos e vídeos em busca de conteúdo proibido pelo site.
Ele usa listas de palavras-chave para pesquisar em bios, posts e trocas
de mensagens privadas entre criadores de conteúdo e assinantes.
Ele conta que encontrou conteúdo ilegal e extremista em vídeos —
incluindo zoofilia envolvendo cães e o uso de câmeras escondidas, armas,
facas e drogas.
Alguns materiais não são procurados ativamente pelos moderadores com a
frequência que ele acredita que deveria, diz Christof, apesar de serem
proibidos pelos termos de uso da plataforma.
Em várias ocasiões, ele afirma que foi informado pelo OnlyFans que
havia moderado demais, particularmente em relação a vídeos mostrando
sexo em público e conteúdo de "terceiros" — material apresentando
pessoas não registradas no OnlyFans.
O OnlyFans diz que os moderadores recebem instruções específicas, e se
eles rotineiramente vão além delas, são "direcionados a se concentrar
apenas no tipo de conteúdo designado".
Christof afirma ainda que apesar de proibida, a propaganda de prostituição é comum entre pessoas de baixa renda no site.
Christof, e uma segunda pessoa que também modera conteúdo do site,
dizem que alguns criadores de conteúdo oferecem competições para
conhecer e fazer sexo com fãs, como uma forma de aumentar o pagamento de
gorjetas.
Um dos documentos a que a BBC teve acesso detalhando as diretrizes de
moderação em 2020, afirma que anúncios de sexo são um problema para o
site.
Diz que os "locais mais populares para promoção de acompanhantes" no
site são os nomes de usuário dos criadores de conteúdo, biografias,
descrições de conteúdo e "menus de gorjetas", que anunciam vídeos
customizados.
O documento cita que os "exemplos" deste tipo de promoção incluem
referências a "PPM (pay per meet)", "CashMeets", "Book me", "IRL Meet",
"scort", entre outros.
Apesar disso, a BBC News foi capaz de encontrar mais de 30 contas ativas usando essas palavras-chave em bios, perfis e postagens, em um único dia.
O perfil de um criador de conteúdo o descrevia como "[e]scort — parceiro sexual".
Uma conta diferente perguntava: "Alguém quer me 'reservar' para um fim
de semana?" Apenas duas das contas que encontramos foram removidas 10
dias depois.
O
OnlyFans diz que respeita seus termos de uso, utiliza formas de
moderação humanas e tecnológicas e fecha contas quando há uma violação
grave de seus termos.
Mas os documentos mostram que, embora o conteúdo ilegal em si seja
removido, o OnlyFans permite que os moderadores deem aos criadores de
conteúdo várias advertências antes de fechar as contas.
Um deles, de fevereiro deste ano, revela que o OnlyFans recomenda que sejam dadas três advertências às contas quando um conteúdo ilegal é descoberto.
E fornece modelos para cada aviso sucessivo — explicando por que o
material foi removido e que o não cumprimento dos termos de uso pode
resultar no encerramento da conta.
A BBC obteve várias versões com datas diferentes do mesmo documento de 2021.
Todas, exceto a mais antiga, afirmam que deve haver pelo menos cinco
exemplos de conteúdo "ilegal" em uma conta para que o caso seja
"escalado" imediatamente à gerência.
Versões mais recentes incluem uma declaração aparentemente
contraditória exigindo encaminhamento imediato à gerência para alguns
exemplos de conteúdo ilegal.
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OnlyFans — Foto: REUTERS/Andrew Kelly
O documento também fornece aos moderadores instruções específicas para
lidar com as contas — dependendo da popularidade de cada uma.
Diz que contas com um número maior de assinantes podem receber advertências adicionais quando as regras são violadas.
No entanto, a equipe é instruída a moderar as contas com baixo número
de usuários "como faríamos e [restringir] quando for necessário".
Com contas de médio alcance, eles são orientados a advertir, "mas restringir apenas após o terceiro aviso".
Se
um dos criadores de conteúdo do site mais bem-sucedidos — e lucrativos —
infringir as regras, o caso será tratado por uma equipe diferente.
"Existe uma discriminação entre contas", diz Christof.
"Isso mostra que o dinheiro é a prioridade."
O segundo moderador acrescenta que com violações de qualquer tipo,
"você recebe algumas advertências, não recebe apenas uma e então está
fora."
Um especialista em moderação de conteúdo diz que os documentos mostram claramente que o OnlyFans tem uma "certa tolerância" com material ilegal.
"Isso sugere que eles conhecem o suficiente o tipo de conteúdo ilegal
que seus usuários estão tentando fazer upload para ter padrões para
isso", afirma Sarah Roberts, codiretora do Centro de Investigação
Crítica da Internet da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA),
nos Estados Unidos.
"Como [o OnlyFans] tem uma certa dose de leniência, isso também sugere
que eles não estão dispostos a alienar completamente seus criadores de
conteúdo — mesmo pessoas que podem fazer coisas ilegais na pior das
hipóteses, inadequadas na melhor das hipóteses — retirando eles
imediatamente da plataforma."
Apesar de ser descrito como um "manual de compliance" no cabeçalho de
cada página de todas as versões do documento de 2021, o OnlyFans afirma
que os documentos não são manuais ou "orientações oficiais".
O primeiro documento — de 2020 — tem edições atribuídas a Tom Stokely, diretor de operações da empresa.
Christof conta que frequentemente se depara com conteúdos em que teme que as pessoas possam estar sendo exploradas.
Ele diz que embora os documentos estabeleçam instruções para lidar com
conteúdo proibido, eles não contêm requisitos para os moderadores
levantarem questões sobre exploração.
Vídeos, a que a BBC assistiu, do homem pagando moradores de rua para
fazer sexo diante das câmeras levantaram tais preocupações. A conta se
gaba de "caçar" sem-teto e fala abertamente sobre "tirar vantagem"
deles.
Uma conta diferente apresenta sinais característicos de tráfico e
exploração, de acordo com um advogado que direcionou a BBC News para a
mesma.
Uma mulher, cujo rosto nunca é mostrado, aparece em alguns vídeos com
as paredes e o chão totalmente cobertos por tapetes — e há referências
repetidas a viagens pela Europa.
O detetive Joseph Scaramucci, que trabalha no Texas, nos Estados
Unidos, diz que atuou recentemente em casos específicos de tráfico de
seres humanos em que havia sinais óbvios de mulheres sob o controle de
outra pessoa aparecendo em vídeos do OnlyFans.
Ele diz que alguns homens ficam felizes em pagar para fazer sexo com
essas mulheres — e pagam mais ainda para serem filmados e terem o vídeo
publicado no OnlyFans.
Neste
mês, 101 membros do Congresso americano assinaram uma carta pedindo que
o Departamento de Justiça dos EUA investigue o conteúdo do OnlyFans,
principalmente com foco na exploração sexual infantil.
Em resposta, o OnlyFans disse que tem uma política de tolerância zero
em relação a conteúdo de abuso sexual infantil, que denuncia às
autoridades relevantes e apoia suas investigações.
O agente especial Austin Berrier, do departamento de segurança nacional
dos EUA, é especialista em investigar exploração infantil online.
Ele estima encontrar entre 20-30 imagens de abuso infantil por semana, que ele diz terem claramente se originado no OnlyFans.
Segundo ele, todos os fóruns da internet que visitou como parte de suas
investigações nos últimos seis meses mais ou menos, incluíam imagens de
abuso infantil proveniente do OnlyFans.
A maioria são vídeos que foram transmitidos ao vivo no site. E, de
acordo com ele, em alguns deles, as crianças recebem orientações.
"Está por aí, está em todo o lugar e está sendo amplamente negociado."
Dezenas de contas que parecem ter sido criadas por usuários menores de
idade são fechadas todos os dias, de acordo com Christof, que
compartilhou com a BBC News um registro de algumas contas fechadas
durante um período de algumas semanas.
Quase todas as contas de menores de idade são de assinantes, e não de
criadores de conteúdo — incluindo, diz ele, crianças de 10 anos.
Embora não possam postar fotos ou receber pagamentos diretamente pelo
site, Christof afirma que alguns usam a plataforma para anunciar
serviços de "acompanhantes" ou a venda de fotos explícitas de si mesmos.
O perfil de um assinante afirmava ter 16 anos e anunciava a venda de fotos de pés "ou outras" partes por £ 4.
Christof diz que este é um problema particular em contas que não usam o inglês como idioma.
De acordo com ele, algumas contas em línguas estrangeiras são insuficientemente moderadas, apesar da enorme popularidade do site em todo o mundo.
A BBC News conseguiu abrir duas contas de assinantes em francês e
alemão — apesar de declarar explicitamente que eram jovens adolescentes
na biografia e anunciar a venda de fotos.
As contas permaneceram ativas por uma semana até que a BBC News entrou em contato com o OnlyFans.
O OnlyFans disse que todo o conteúdo pode ser denunciado por moderadores, e a empresa cumpre a legislação de combate ao tráfico e fornece treinamento anual para os funcionários.
A companhia afirmou ainda que a conta que apresenta moradores de rua
viola seus termos e condições e agora foi encerrada, e que analisa
ativamente os feeds transmitidos ao vivo.
A baronesa Kidron, ativista de direitos das crianças, diz que qualquer
leniência em relação a contas que postam material ilegal é "errada".
"A resposta está no nome: se for conteúdo ilegal, deve haver tolerância
zero", diz a fundadora da instituição 5Rights Foundation, que luta pelo
direito das crianças, e membro do comitê pré-legislativo de avaliação
do projeto de lei de segurança online, há muito adiado.
Segundo ela, as empresas de pagamento devem assumir a responsabilidade pela forma como seus serviços estão sendo usados.
"As empresas devem retirar seu apoio comercial, a menos que e até que
haja um OnlyFans que seja claramente um site adulto", sugere.
Na quinta-feira (19/8), o OnlyFans disse ao Financial Times que a empresa estava proibindo a pornografia na plataforma para "atender às solicitações de nossos parceiros bancários e provedores de pagamentos".
Muitos provedores de pagamento, incluindo os gigantes do setor Visa e
Mastercard, proíbem o uso de seus serviços para tipos específicos de
conteúdo. No ano passado, ambos encerraram seu relacionamento com o Pornhub após denúcias de material ilegal.
Kidron também acredita que padrões mínimos de moderação e um código de
conduta estatutário devem ser introduzidos para lidar com a leniência em
relação a contas que publicam material ilegal.
A BBC News soube que o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte (DCMS, na sigla em inglês) do Reino Unido
foi avisado por uma instituição americana de combate ao tráfico sobre o
conteúdo do OnlyFans em 2019 e assistiu a uma apresentação.
Em comunicado, o DCMS disse que o projeto de lei de segurança online
introduziria as leis mais rigorosas do mundo — e que o OnlyFans
enfrentaria multas pesadas ou seria bloqueado se falhasse em combater o
conteúdo ilegal.
E acrescentou que o Ofcom, órgão regulador britânico de
telecomunicações, já tem o poder de suspender sites de vídeo se não
tomarem medidas para proteger os usuários de conteúdo prejudicial.
Em maio, o OnlyFans publicou seu balanço mais recente e afirmou que
"qualquer lapso" no monitoramento de conteúdo de menores e tráfico
"poderia trazer sanções governamentais de uma ampla variedade de países e
órgãos reguladores".
A empresa se recusou repetidamente a ser entrevistada pela BBC News sobre esses assuntos.
Em resposta à BBC News, a companhia disse que cumpre integralmente
todas as leis e regulamentos que se aplicam a ela globalmente —
incluindo as da Ofcom — e que usa um software de monitoramento e
verificação de idade de última geração, juntamente ao monitoramento
humano.
O OnlyFans afirma acreditar que um dos moderadores com quem a BBC News
conversou foi um funcionário demitido por repetidas falhas no fechamento
de contas contendo material não autorizado.
A fonte diz que repetidamente levantou a questão do número de contas de assinantes menores de idade com o OnlyFans.

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