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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

'Doei US$ 100 bilhões para caridade, mas meus filhos não ficarão pobres quando eu morrer', diz Bill Gates

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O cofundador da Microsoft diz que gosta de doar sua fortuna — e que isso não vai deixar seus filhos pobres.
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TOPO
Por Katie Razzall

Postado em 03 de Fevereiro de 2.025 às 15h10m

#.* Post. - Nº.\  5.056 *.#

Bill Gates — Foto: Maxine Collins/BBC
Bill Gates — Foto: Maxine Collins/BBC

É apenas no fim da nossa entrevista que Bill Gates revela em primeira mão quanto sua Fundação beneficente já gastou em seus esforços para combater doenças que podem ser prevenidas e reduzir a pobreza.

"Já doei mais de 100 bilhões", diz ele.

"Mas ainda tenho mais para doar."

O valor é em dólares e corresponde a cerca de R$ 580 bilhões.

Isso equivale, mais ou menos, ao tamanho da economia da Bulgária ou ao custo de construção de toda a linha de trem HS2, projeto ferroviário britânico de alta velocidade.

Mas, para efeito de comparação, também representa aproximadamente apenas um ano de vendas da empresa automotiva Tesla — Elon Musk, dono da Tesla, é atualmente o homem mais rico do planeta, posição que Gates ocupou por muitos anos.

O cofundador da Microsoft e seu colega filantropo Warren Buffett estão amalgamando seus bilhões por meio da Gates Foundation, que ele criou originalmente com sua agora ex-mulher Melinda.

Gates conta que a filantropia foi incutida nele desde cedo. A mãe dele sempre dizia que "com a riqueza vinha a responsabilidade de doá-la".

A Fundação completa 25 anos em maio, e Gates revelou com exclusividade à BBC a cifra de US$ 100 bilhões.

Ele me disse, por sua vez, que gosta de doar seu dinheiro — e cerca de US$ 60 bilhões da sua fortuna foram destinados à Fundação até agora.

No que se refere ao seu estilo de vida cotidiano, ele não sente diferença. "Não fiz nenhum sacrifício pessoal. Não pedi menos hambúrgueres nem assisti a menos filmes".

Ele também pode, é claro, continuar arcando com seu jato particular, e suas várias casas enormes.

Ele planeja doar "a grande maioria" da sua fortuna, mas me disse que conversou "muito" com os três filhos sobre qual seria a quantia certa a ser deixada para eles.

"Eles vão ficar pobres depois que se for?", eu pergunto.

"Não", ele responde com um breve sorriso, acrescentando que "em termos absolutos, eles vão se sair bem; em termos percentuais, não é um número gigantesco".

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Gates é um cara que gosta de matemática, e isso fica evidente. Na Lakeside School, em Seattle, na oitava série, ele participou de uma competição regional de matemática em quatro Estados, e se saiu tão bem que, aos 13 anos, era um dos melhores alunos de matemática do ensino médio de todas as idades na região.

A terminologia matemática é algo natural para ele. Mas, para traduzir, se a sua fortuna vale US$ 160 bilhões, como o Índice de Bilionários da Bloomberg afirma, mesmo que ele deixe para os filhos uma pequena porcentagem, eles ainda vão ser muito ricos.

Bill Gates (fotografado ao lado de Katie Razzall) caminha por sua antiga escola em Seattle, que ele recorda como sendo 'maravilhosa' — Foto: Maxine Collins/BBC
Bill Gates (fotografado ao lado de Katie Razzall) caminha por sua antiga escola em Seattle, que ele recorda como sendo 'maravilhosa' — Foto: Maxine Collins/BBC

Jogos de cartas

Estou com uma das únicas 15 pessoas do planeta que são centibilionárias (com fortuna avaliada em mais de US$ 100 bilhões), de acordo com a Bloomberg.

Estamos na casa em que ele passou a infância em Seattle, uma residência moderna de quatro quartos de meados do século, situada em uma colina, e estamos nos encontrando porque ele escreveu um livro de memórias, Código-fonte: Como tudo começou, com foco na infância.

Quero descobrir o que transformou uma criança desafiadora e obsessiva que não se encaixava nos padrões em um dos pioneiros da tecnologia da nossa era.

Ele trouxe as irmãs, Kristi e Libby, e os três visitaram com entusiasmo a casa onde cresceram. Eles não voltavam lá há alguns anos, e os atuais proprietários fizeram uma reforma (felizmente, os irmãos Gates parecem aprovar as mudanças).

Mas a visita traz lembranças, inclusive, quando entram na cozinha, do sistema de intercomunicação entre os cômodos, agora extinto, que a mãe deles adorava. Ela usava o sistema para "cantar para nós de manhã", conta Gates, para tirá-los dos quartos para o café da manhã.

Mary Gates também ajustava os relógios com oito minutos de atraso para que a família cumprisse os horários dela. O filho muitas vezes se rebelava contra os esforços dela para criá-lo, mas agora me diz que "minha ambição foi aquecida por meio desse relacionamento".

Ele atribui seu espírito competitivo à avó "Gami", que frequentemente estava com a família nesta casa, e que o ensinou a ser competitivo desde cedo jogando cartas.

Da esquerda para a direita, Bill Gates, Katie Razzall, as irmãs de Bill, Libby e Kristi, que assim como o irmão, viam o jogo de cartas como um 'esporte competitivo' graças à avó — Foto: Maxine Collins/BBC
Da esquerda para a direita, Bill Gates, Katie Razzall, as irmãs de Bill, Libby e Kristi, que assim como o irmão, viam o jogo de cartas como um 'esporte competitivo' graças à avó — Foto: Maxine Collins/BBC

Eu o sigo pelas escadas de madeira enquanto ele se dirige para seu antigo quarto de infância no porão. Agora é um quarto de hóspedes bem arrumado, mas o jovem Bill passava horas, até mesmo dias, aqui "pensando", como dizem suas irmãs.

Em determinado momento, sua mãe ficou tão cansada da bagunça que passou a confiscar qualquer peça de roupa que encontrava no chão, e cobrava 25 centavos do filho teimoso para comprá-la de volta. "Comecei a usar menos roupas", diz ele.

Naquela época, ele estava viciado em programação e, com alguns amigos da escola que entendiam de tecnologia, recebeu acesso ao único computador de uma empresa local, em troca de relatar qualquer problema.

Obcecado por aprender a programar nos primórdios da revolução tecnológica, ele se esgueirava à noite pela janela do quarto sem que seus pais soubessem, para passar mais tempo no computador.

"Você acha que conseguiria fazer isso agora?", pergunto.

Ele começa a desativar a trava, e abre a janela. "Não é tão difícil", diz ele com um sorriso, enquanto sobe e sai. "Não é nada difícil."

Há um vídeo antigo famoso de Gates em que um apresentador de TV pergunta se é verdade que ele consegue pular sobre uma cadeira de pé. Ele faz isso no próprio estúdio. Estou no quarto da infância de Gates para algo que parece ser "um momento" deste tipo. O cara tem quase 70 anos. Mas ele ainda topa o desafio.

Espectro do autismo

Ele parece à vontade — e não é só porque estamos em um ambiente familiar. No livro de memórias, ele revelou publicamente pela primeira vez que acha que, se estivesse na adolescência hoje, provavelmente seria diagnosticado dentro do espectro do autismo.

A única vez que o encontrei antes foi em 2012. Ele mal me olhou nos olhos enquanto fazíamos uma rápida entrevista sobre seu objetivo de proteger as crianças de doenças que ameaçam a vida. Certamente não houve nenhum papo furado antes da entrevista. Depois da nossa interação, fiquei imaginando se ele estava no espectro.

O livro explica tudo: sua capacidade de ter hiperfoco em assuntos que interessavam a ele; sua natureza obsessiva; sua falta de consciência social.

Ele conta que na escola primária entregou um relatório de 177 páginas sobre Delaware, tendo solicitado folhetos sobre o Estado e até mesmo enviado envelopes endereçados e selados para empresas locais pedindo seus relatórios anuais. Ele tinha 11 anos.

As irmãs dele me disseram que sabiam que ele era diferente. Kristi, que é mais velha, conta que se sentia protetora em relação a ele. "Ele não era um garoto normal... sentava no quarto e mastigava os lápis até o grafite", ela recorda.

Eles são obviamente próximos. Libby, que é terapeuta, me falou que não ficou surpresa ao saber que ele acredita estar no espectro. "A surpresa foi mais a disposição dele de dizer: 'Pode ser este o caso'", afirma.

Da esquerda para a direita, Kristi, que contou que o irmão 'mastigava lápis até o grafite', Bill e Libby em 1971 — Foto: Gates Family
Da esquerda para a direita, Kristi, que contou que o irmão 'mastigava lápis até o grafite', Bill e Libby em 1971 — Foto: Gates Family

Gates diz que não recebeu um diagnóstico formal, e não planeja buscar isso. "As características positivas para minha carreira foram mais benéficas do que os déficits foram um problema para mim", avalia.

Ele acredita que a neurodiversidade está "certamente" super-representada no Vale do Silício porque "aprender algo com grande profundidade em uma idade jovem —ajuda em certos assuntos complexos".

Elon Musk também disse que está no espectro, referindo-se à síndrome de Asperger. O bilionário da Tesla, X (antigo Twitter) e SpaceX está notoriamente cortejando Donald Trump, assim como outros magnatas da tecnologia moderna, como Mark Zuckerberg (Meta) e Jeff Bezos (Amazon), entre outros ícones do Vale do Silício, que participaram da posse do presidente dos EUA.

Gates me disse que, embora "você possa ser cínico" em relação aos motivos deles, ele também entrou em contato com o presidente. Eles tiveram um jantar de três horas em 27 de dezembro "porque ele está tomando decisões sobre saúde global e como ajudamos os países pobres, o que é um grande foco para mim agora".

Perguntei a Gates, ele próprio alvo de algumas teorias conspiratórias bastante inusitadas, o que ele acha da decisão tomada por Zuckerberg após a eleição de Trump de abandonar a checagem de fatos nos EUA em suas plataformas. Gates me disse que não está "muito impressionado" com a forma como os governos ou as empresas privadas estão lidando com os limites entre a liberdade de expressão e a verdade.

"Pessoalmente, não sei como traçar esse limite, mas me preocupa o fato de não estarmos lidando com isso tão bem quanto deveríamos", diz ele.

Ele também acredita que as crianças devem ser protegidas das redes sociais, e me disse que há uma "boa chance" de que a proibição para menores de 16 anos, como a Austrália está fazendo, seja "uma coisa inteligente".

De acordo com Gates, "as redes sociais, ainda mais do que os videogames, podem absorver seu tempo e fazer com que você se preocupe com a aprovação de outras pessoas", por isso temos que ser "muito cuidadosos com a forma como elas são usadas".

Quanto ao indicado de Trump para o cargo de secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., que afirma não ser antivacina, mas que promoveu alegações desmentidas sobre vacinas, Gates não se prolongou. Ele me disse que RFK Jr. está "enganando as pessoas".

A história da origem de Bill Gates não é da pobreza à riqueza. Seu pai era advogado, o dinheiro não era apertado, embora a decisão de mandar o filho para uma escola particular para tentar motivá-lo tenha sido "um exagero, mesmo com o salário do meu pai".

Se eles não tivessem feito isso, talvez nunca tivéssemos ouvido falar de Bill Gates.

Ele teve acesso a um computador mainframe antigo por meio de uma máquina de teletipo na escola, depois que as mães realizaram um bazar para arrecadar dinheiro. Os professores não conseguiam entender a máquina, mas quatro alunos a usavam dia e noite.

"Conseguimos usar computadores quando quase ninguém mais tinha acesso", diz ele.

Bill, fotografado em 1973, diz que estava 'tentando parecer descolado' na 'Sala de Teletipo' da Lakeside School, onde passava 'uma quantidade enorme de tempo' — Foto: Lakeside School
Bill, fotografado em 1973, diz que estava 'tentando parecer descolado' na 'Sala de Teletipo' da Lakeside School, onde passava 'uma quantidade enorme de tempo' — Foto: Lakeside School

Muito tempo depois, ele criaria a Microsoft com um desses amigos de escola, Paul Allen. Outro, Kent Evans, o melhor amigo de Gates, morreria tragicamente aos 17 anos em um acidente de escalada. Ao caminharmos pela Lakeside School, passamos pela capela onde foi realizado seu funeral, e onde Gates se lembra de ter chorado nos degraus.

Juntos, eles tinham grandes planos. Quando não estavam nos computadores, estavam lendo biografias para descobrir o que tornava as pessoas bem-sucedidas.

Agora, Gates escreveu sua própria biografia. Sua filosofia? "Muito de quem você é estava lá desde o início."

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domingo, 2 de fevereiro de 2025

Novas regras facilitam pagar boletos com PIX e dão largada para juro menor em mercado trilionário de antecipação de vendas a prazo

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BC padroniza regras para pagamento de boletos com PIX. E busca regulamentar plataformas que permitirão que as antecipações das vendas a prazo por meio de boletos, estimadas em R$ 10 trilhões por ano, possam ser alvo de mais concorrência maior e ter juros mais baixos.
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Por Alexandro Martello, g1 — Brasília

Postado em 02 de Fevereiro de 2.025 às 05h00m

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Pix: o que o governo faz com monitoramento das transações? — Foto: Getty Images via BBC
Pix: o que o governo faz com monitoramento das transações? — Foto: Getty Images via BBC

Resolução do Banco Central que entra em vigor nesta segunda-feira (3) facilita o pagamento de boletos com o PIX, o sistema de transferência de recursos em tempo real da instituição, assim como cria condições para aumentar a concorrência no mercado de duplicatas, ou seja, que trata da antecipação dos recursos provenientes de vendas a prazo feitas pelas empresas.

A primeira novidade cria normas para universalização do PIX como forma de pagamento nos boletos. O que as regras fazem é esclarecer e padronizar como a ferramenta poderá ser utilizada, com estabelecimento de responsabilidade entre os participantes. Algumas instituições já oferecem o PIX nos boletos, mas isso ainda está em fase de testes.

"Pagar pelo PIX é mais simples. Naturalmente, o mercado vai convergir para isso, vai ser natural. Quando uma instituição começa, a outra vai atrás não tem jeito. Já tem instituição fazendo, só que ainda não está padronizado. A convenção do boleto é que vai tornar o padrão para que isso aconteça, junto com potenciais ajustes no regramento do PIX, de forma padronizada", disse Mardilson Fernandes Queiroz, consultor do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro (Denor) do Banco Central.

No uso do PIX, haverá um QR Code específico, inserido no próprio boleto. Dessa forma, argumenta o Banco Central, incorpora-se na experiência do uso do boleto de pagamento, um instrumento amplamente utilizado, a agilidade, a conveniência e a grande aceitação do PIX.

Boleto dinâmico para aumentar concorrência

A grande novidade da nova regra, entretanto, é o chamado boleto dinâmico. Segundo o Banco Central, isso possibilitará que as empresas que recebem pagamentos mensalmente por boletos, dos compradores, possam antecipar o recebimento dos valores, algo que já acontece atualmente, mas possibilitando uma concorrência maior entre as instituições financeiras que ofertam essa linha de crédito.

No modelo atual, de acordo com o BC, as empresas que vendem produtos e serviços se utilizando de boletos, o que inclui também as incorporadoras imobiliárias, estão relativamente presas à instituição financeira que os emitiu. Se optou, por exemplo, pelo banco X para emitir os boletos, é difícil fazer a troca por outra instituição na hora de antecipar o seu recebimento (processo no qual são cobrados juros).

A ideia é que seja criada uma ou mais plataformas na internet, feitas e operadas pelo mercado financeiro, mas com supervisão do Banco Central, por meio das quais será possível registrar os chamadas "duplicatas escriturais" (títulos que provam os valores a receber) e, com isso, possibilitar que as empresas façam um leilão entre as instituições financeiras para ver em oferece o juro mais baixo.

"Só ponto de vista fornecedor, vai ser algo extremamente simples, como apertar uma tecla e dizer: eu deixo tal banco ver minhas duplicatas. Todo mundo vai ver, e aí vai ter uma negociação que eles vão mandar cotações [taxas de juros] para esse fornecedor. Até a hora que ele defina com quem ele quer fazer negociação. Uma vez feita essa negociação, aí você vai ter o boleto dinâmico", explicou Ricardo Vieira Barroso, Chefe de Divisão no Departamento de Normas do BC.

Além de possibilitar juro mais baixo para os comerciantes, e incorporadoras imobiliárias (que vendem imóveis na planta usando boletos) na hora de antecipar esses "recebíveis", o novo sistema também vai proporcionar segurança às instituições financeiras que liberarem os recursos das antecipações. Isso porque um sistema ligado ao boleto dinâmico vai possibilitar que os valores sejam direcionados diretamente para a instituição financeira que antecipou os recursos, sem intermediários.

"Tem várias entidades no mercado que querem comprar aquele direito, pagar ao vendedor, inclusive aceitam receber menos taxas de juros. Mas elas se sentem inseguras em comprar aquilo. Quem está comprando, tem que ter certeza que vai receber aquele recurso. Dá segurança a quem compra e barateia o juro a quem vende o direito. As duas pontas são melhores atendidas", avaliou Evaristo Donato Araújo, chefe de Divisão do Denor, do BC.

O mercado de antecipação de recebíveis tanto do comércio quanto das incorporadoras imobiliárias é trilionário. O fluxo de vendas a prazo, segundo o Banco Central, é de cerca de R$ 10 trilhões por ano, considerando as notas fiscais emitidas. Estas vendas podem se transformar em duplicatas eletrônicas, e serem registradas nas plataformas em busca de uma taxa de juros mais baixa.

A expectativa do Banco Central, entretanto, é de que a plataforma que possibilitará essa negociação dos recebíveis esteja pronta somente no segundo semestre de 2026. "Porque depende da aprovação do Banco Central, e para isso depende de os sistemas passarem no teste. Aí é uma coisa que a gente não tem um controle total", explicou Mardilson Fernandes Queiroz, do Departamento de Normas.

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sábado, 1 de fevereiro de 2025

Pesquisador brasileiro em IA explica por que DeepSeek impressionou: 'Fizeram de forma totalmente diferente da maioria das empresas de tecnologia'

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Lançado há menos de duas semanas, chatbot levou pânico ao Vale do Silício e esquentou corrida entre EUA e China pelo posto de superpotência da tecnologia. Mas para além da alta tensão na arena dos negócios e da geopolítica, a inovação da plataforma surpreendeu a comunidade científica, ressalta Cleber Zanchettin, do Centro de Informática da UFPE, referência em inteligência artificial na América Latina.
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Por Camilla Veras Mota

Postado em 01 de Fevereiro de 2.025 às 09h00m

#.* Post. - Nº.\  5.054 *.#

Pesquisador brasileiro em IA explica por que DeepSeek impressionou: 'Fizeram de forma totalmente diferente da maioria das empresas de tecnologia' — Foto: Reuters
Pesquisador brasileiro em IA explica por que DeepSeek impressionou: 'Fizeram de forma totalmente diferente da maioria das empresas de tecnologia' — Foto: Reuters

O chatbot de inteligência artificial chinês DeepSeek-R1 foi lançado discretamente em 20 de janeiro de 2025.

Dois dias depois, a equipe por trás da plataforma publicou um relatório técnico de 22 páginas em que avaliava seu desempenho e a colocava no mesmo patamar dos rivais americanos ChatGPT, da OpenAI, e Claude, da Anthropic.

O mundo da tecnologia reagiu inicialmente com ceticismo: quem garantia que o que estava escrito ali era verdade e que não se tratava de mera propaganda do governo chinês?

Esse momento foi breve. À medida que os especialistas foram testando o modelo e entendendo como tinha sido construído, perceberam que de fato rivalizava com os das big techs americanas — e embaralhava a disputa entre EUA e China pelo posto de superpotência da tecnologia.

Uma semana depois, o Vale do Silício entrou em pânico. As ações das 7 principais empresas de tecnologia dos Estados Unidos desidrataram e as Magnificent 7 (Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon, Nvidia, Tesla e Meta) perderam US$ 1 trilhão em valor de mercado em 27 de janeiro.

Depois vieram os questionamentos, de que os US$ 5,5 milhões que a empresa afirma ter investido para treinar o modelo eram subestimados, de que o número de chips usados no projeto era maior do que os dois mil divulgados pela companhia.

Na quinta-feira (29/1), a OpenAI alegou que a DeepSeek usou dados do ChatGPT para treinar seu chatbot, sem dar mais detalhes sobre o caso.

Também repercutiu a autocensura da plataforma, que desconversa e dá respostas como "Desculpe, isso está além do meu escopo atual. Vamos falar de outra coisa" quando questionada sobre temas considerados controversos do ponto de vista da ideologia Partido Comunista Chinês — "O que foi o massacre da Praça Celestial?", por exemplo.

Mas, para além da alta tensão na arena dos negócios e da geopolítica, a inovação em si trazida pela plataforma impressionou a comunidade científica, ressalta o pesquisador brasileiro Cleber Zanchettin.

Apesar de ter sido comparado ao ChatGPT do ponto de vista da experiência do usuário, por trás das cortinas o DeepSeek é bem distinto do concorrente americano.

"A forma como eles fizeram foi totalmente diferente da maioria das empresas de tecnologia", diz o professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (CIn-UFPE), montado na década de 1980 e hoje um dos líderes em pesquisa em inteligência artificial na América Latina.

Em entrevista à BBC News Brasil, o especialista mergulhou em quatro características que explicam porque o DeepSeek impressionou.

Sede da Nvidia em Santa Clara, na Califórnia: fabricantes de chips foi uma das viu ações despencarem nos últimos dias — Foto: JOHN G MABANGLO/EPA-EFE/REX/Shutterstock
Sede da Nvidia em Santa Clara, na Califórnia: fabricantes de chips foi uma das viu ações despencarem nos últimos dias — Foto: JOHN G MABANGLO/EPA-EFE/REX/Shutterstock

1. Código aberto

A primeira coisa que chamou atenção foi o código aberto. "Eles contaram coisas que não haviam sido divulgadas por outros fabricantes", ressalta o professor.

Até então, predominavam entre os modelos de linguagem de grande escala (LLM na sigla em inglês, de "large language models") os de código fechado, caso do ChatGPT e do Claude, em que toda a engrenagem por trás da interface é mantida em sigilo, e os de pesos abertos, em que alguns dos parâmetros são divulgados, caso do LLaMA, da Meta.

O DeepSeek, segundo Zanchettin, foi além.

"Eles de certa forma publicaram a receita de como você treina o modelo, que é um negócio protegido a sete chaves mesmo por quem publica os modelos em formato de open weights (pesos abertos). Acho que é um diferencial muito grande."

Antes da chegada do chatbot, os pesquisadores não tinham uma noção muito clara da cadeia de raciocínio para se chegar a modelos mais avançados de inteligência artificial.

Botão DeepThink mostra linha de raciocínio do modelo — Foto: Reuters
Botão DeepThink mostra linha de raciocínio do modelo — Foto: Reuters 

2. Raciocínio explícito

Nesse sentido, ele também aponta como diferencial o mecanismo que detalha o passo a passo do raciocínio em cada uma das respostas que o DeepSeek dá quando o botão "DeepThink" está ativo.

"A maioria das empresas não queria que a gente entendesse direito [como o modelo raciocina], porque isso pode levar você a perceber que ele está fazendo as coisas direito ou que não entendeu nada, e que o resultado é mais ou menos aleatório", argumenta.

Em um teste feito pela reportagem com uma questão de matemática da segunda fase do vestibular do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) de 2024, o DeepSeek testou uma série de caminhos até chegar no que considerou a resposta correta.

Foi e voltou na linha de pensamento, com expressões como "Calma", "Espere aí", "Mas como?", "Espere, talvez haja um caminho melhor", "Deixe-me tentar essa abordagem", "Outra ideia:", "Isso parece demais, vamos checar novamente", "Vamos nessa direção".

Enxergar esse processo, segundo Zanchettin, é útil para os especialistas entenderem melhor a robustez e interpretarem as habilidades do modelo.

"Essa é uma informação bastante relevante do ponto de vista de como o modelo toma decisões."

Para especialistas, experiência do usuário no DeepSeek se aproxima da última versão do ChatGPT — Foto: Reuters
Para especialistas, experiência do usuário no DeepSeek se aproxima da última versão do ChatGPT — Foto: Reuters 

3. Aprendizagem por reforço

Outra surpresa foi o método usado para desenvolver e treinar a plataforma.

Os modelos fechados até então demandavam bastante intervenção humana, uma estratégia conhecida no jargão da inteligência artificial como "humano no loop" (HITL, na sigla em inglês), muito usada nas etapas de ajuste fino ("fine tuning").

O DeepSeek tem uma dependência "muito menor" da supervisão humana, com uma abordagem centrada no aprendizado por reforço: o sistema é treinado dentro de um modelo de recompensas (em que recebe um retorno positivo, por exemplo, cada vez que dá a resposta correta para um problema matemático) e vai se sofisticando por conta própria, aprendendo a "raciocinar" de forma cada vez mais eficiente e, como consequência, melhorando a qualidade das respostas que devolve.

No relatório técnico divulgado em 22 de janeiro, a equipe compartilhou que perceber que a abordagem focada na auto-evolução tinha sido bem sucedida fora equivalente a um "aha moment", algo como um "momento Eureca".

"Isso tornou o processo não só mais interessante, mas também mais barato computacionalmente", diz Zanchettin.

O que pode significar, ele acrescenta, que estamos diante de uma mudança de paradigma importante. Sem a necessidade de investimentos bilionários, mais atores têm chance de competir na busca por inovação em inteligência artificial, inclusive os brasileiros.

O pesquisador, que foi professor visitante na Northwestern University, pondera que, mesmo nos Estados Unidos, grupos de pesquisa e startups sem grandes recursos dificilmente conseguem disputar com as big techs, que se baseiam na "força bruta" quando se trata de sistemas de inteligência artificial: "Quanto mais recursos você tem, mais hardware você consegue adquirir, mais dados você pode usar para treinar o modelo, e melhor é o modelo."

As inovações a menor custo da DeepSeek "colocam um monte de gente muito talentosa de volta ao tabuleiro de jogo, com possibilidade de inovar no mesmo nível", acredita.

"Acho que vai abrir portas não só para ir para a academia, mas para a indústria e para a população como um todo, que vai ser inundada com muita inovação e com um custo menor."

DeepSeek esquentou corrida entre EUA e China por supremacia tecnológica — Foto: Reuters
DeepSeek esquentou corrida entre EUA e China por supremacia tecnológica — Foto: Reuters

4. Da restrição à inovação

A aprendizagem por reforço é uma entre uma série de inovações que a DeepSeek apresentou.

"Tem vários avanços tecnológicos, do ponto de vista de engenharia, que eles conseguiram fazer funcionar em conjunto e que a gente não tinha conseguido ainda. Esse também foi um diferencial grande", diz o professor.

O feito chama ainda mais atenção por ter sido alcançado sem os melhores chips disponíveis no mercado, já que em 2022 os Estados Unidos impuseram à China restrições para importação de chips de última geração, justamente para barrar o avanço chinês nessa área, alegando preocupações com segurança.

"Aqui no Brasil, por conta das várias dificuldades que a gente enfrenta, a gente sempre teve esse mantra de que a dificuldade gera oportunidade, de que a inovação vem da restrição, e eu acho que a China provou isso agora", acrescenta.

Até a estreia do DeepSeek, a crença em boa parte do Ocidente era de que a China estava bem atrás dos Estados Unidos na área de IA avançada. O ChatGPT surgiu em 2022 e, desde então, as big techs americanas vinham lançando suas plataformas de IA generativa com algum sucesso, como o Claude, da Anthropic, e o Gemini, do Google.

Empresas chinesas como Baidu, Tencent e ByteDance, dona do TikTok, chegaram a colocar no mercado modelos de IA, mas que não tinham sido considerados à altura do ChatGPT.

O DeepSeek muda o jogo e esquenta a corrida entre China e Estados Unidos pelo posto de grande potência da tecnologia deste século 21.

Dias depois da estreia, outra empresa chinesa, a Alibaba, lançou seu modelo de IA e disse que ele era ainda melhor do que o da conterrânea.

Para o pesquisador brasileiro, essa rivalidade dos chatbots é uma fatia pequena das ambições dos dois países na área de inteligência artificial, um ângulo que talvez nem lhes interesse tanto do ponto de vista estratégico.

A IA, ele lembra, tem aplicações militares e em áreas tão diversas quanto as de robótica, de veículos autônomos, de sistemas de comunicação e de saúde.

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