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terça-feira, 22 de julho de 2025

'Brasil é hoje um sistema mais democrático do que os Estados Unidos', diz autor do best-seller

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'Como as democracias morrem' Para Steven Levitsky, atores que enfrentam 'ameaças' e 'intimidação' de Donald Trump têm mais chance de sucesso em embates comerciais e negociações de tarifa com os EUA.
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TOPO
Por BBC

Postado em 22 de Julho de 2.025 às 15h00m

. #.*     Post. - Nº.\  5.174     *..

Para professor de Harvard, diferentemente dos EUA, Brasil respeita a crença de que, se há forças políticas que infringem a lei e ameaçam abertamente a democracia, elas devem ser impedidas de assumir o poder — Foto: Getty Images via BBC
Para professor de Harvard, diferentemente dos EUA, Brasil respeita a crença de que, se há forças políticas que infringem a lei e ameaçam abertamente a democracia, elas devem ser impedidas de assumir o poder — Foto: Getty Images via BBC

As instituições brasileiras responderam melhor às ameaças à sua democracia do que as americanas fizeram em um cenário semelhante, afirma Steven Levitsky, autor do best-seller Como as democracias morrem e professor da Universidade de Harvard.

"Acho que hoje o Brasil é um sistema mais democrático do que os Estados Unidos. Esse pode não ser o caso daqui a um ano, mas hoje as instituições brasileiras estão funcionando melhor", disse o cientista política em entrevista à BBC News Brasil no início da tarde de segunda-feira (21).

Segundo Levitsky, a resposta brasileira às ameaças durante e depois das eleições de 2022 foi melhor orquestrada e mais forte do que a dada pelos Estados Unidos ao presidente Donald Trump após a tentativa de invasão ao Capitólio em 2021.

O autor afirma ainda que o Supremo Tribunal Federal (STFfez um importante trabalho de proteção da democracia durante o governo Jair Bolsonaro (PL), mas alerta para a necessidade de a Corte voltar "para o seu devido lugar" assim que a crise atual for superada.

"Sempre que há um órgão não eleito formulando políticas, se está em um território perigoso em uma democracia", diz, em referência ao STF. "Com relação ao processo contra Bolsonaro, pelo que posso perceber, o tribunal parece estar no seu devido lugar. Este é o trabalho do tribunal: julgar Bolsonaro e puni-lo, se ele for de fato considerado culpado."

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'Bullying de Trump contra Brasil está saindo pela culatra', diz jornal dos EUA
'Bullying de Trump contra Brasil está saindo pela culatra', diz jornal dos EUA

Questionado sobre as decisões do governo de Donald Trump de impor tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras e sancionar o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e seus "aliados", Steven Levitsky afirmou se tratar de ações de intimidação e bullying que estão "minando" o processo democrático no país.

Também segundo o professor de Harvard, a tentativa de interferência atual dos EUA no Brasil é mais "personalizada", "desinformada" e "arrogante" do que as ações desempenhadas pelos americanos na América Latina durante a Guerra Fria - quando Washington apoiou golpes militares que instalaram ditaduras que perseguiram e em alguns casos torturam e assassinaram inimigos políticos.

"Quer concordemos ou não com a política dos EUA em 1964 no Brasil, ou em 1973 no Chile, pelo menos se tratou de uma política de Estado´[...]. Não é isso [que está acontecendo agora]. O que vemos é um capricho pessoal de Trump baseado em muita desinformação, muita ignorância e muita arrogância", afirma.

"Não se trata de uma política séria, mas de um país muito grande, rico e poderoso, fazendo política externa de uma república das bananas."

Levitsky disse ainda acreditar que "aqueles que enfrentam Trump têm mais probabilidade de sucesso" no embate contra as "ameaças unilaterais" e políticas comerciais do republicano.

"É difícil pedir a qualquer governo para enfrentar Trump, mas acho que todos nós estaremos melhor se ele for contido", afirmou, sobre a melhor resposta do Brasil às últimas ações da Casa Branca.

Para o estudioso, o governo brasileiro se tornou alvo do presidente americano por "motivos pessoais" de Donald Trump e por não se curvar aos Estados Unidos.

"De nações que não são potências nucleares, que não são a Rússia ou a China, Trump espera subserviência. E governos como o Brasil, que não se curvam, têm mais chances de se tornarem alvos."

Interferência atual dos EUA no Brasil é mais personalizada, desinformada e arrogante do que durante a Guerra Fria, diz professor de Harvard — Foto: Arquivo Pessoal
Interferência atual dos EUA no Brasil é mais personalizada, desinformada e arrogante do que durante a Guerra Fria, diz professor de Harvard — Foto: Arquivo Pessoal

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista de Steven Levitsky à BBC Brasil.

As declarações foram dadas pelo pesquisador no início da tarde da segunda-feira, dia 21, antes da decisão do ministro Alexandre de Moraes sobre a veiculação de falas de Jair Bolsonaro por redes sociais de terceiros. O magistrado do STF também determinou que a defesa do ex-presidente explique em até 24h, sob pena de prisão, por que ele apareceu em um vídeo publicado pelo seu filho, deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

BBC News Brasil - Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre as exportações do Brasil, a partir de 1º de agosto, descrevendo as ações do Judiciário brasileiro contra o ex-presidente Jair Bolsonaro como uma "caça às bruxas". O que esse tipo de tentativa de interferir em outro país, e mais especificamente no sistema judiciário de outro país, diz sobre os Estados Unidos neste momento?

Steven Levitsky - Esta não é a primeira vez que os Estados Unidos intervêm nos processos democráticos internos de outros países. Mas é a primeira vez em muito tempo, que eu saiba, que os EUA usam uma política comercial para fazer bullying contra outros governos.

Durante a Guerra Fria e mesmo antes dela, os EUA usaram intervenção militar, ações subversivas da CIA e de outras agências de inteligência [para interferir]. Os Estados Unidos são uma grande potência e seus governos têm a capacidade, quando escolhem fazê-lo, de intimidar governos estrangeiros e intervir nos seus processos internos. É uma coisa terrível para a democracia e, a longo prazo, para a posição dos EUA no mundo.

BBC News Brasil - O que difere o que está acontecendo neste momento do que foi feito no passado, na Guerra Fria?

Levitsky - É diferente em muitos aspectos, mas principalmente por ser um movimento personalizado. Isso não é algo que está sendo conduzido pelo Departamento de Estado ou pela CIA. Não é um produto da política externa dos EUA ou uma ação do Estado. É tudo Donald Trump.

Neste caso, ele não entende de política brasileira. Eu nem sei se Donald Trump entende que o Brasil é uma democracia. Ele é um cara bem limitado e ignorante sobre política na América do Sul, que não sabe como funciona o processo judicial no Brasil. E eu não acho que ele entenda muito sobre o que Bolsonaro fez. Mas ele foi convencido de que Bolsonaro foi injustiçado, assim como ele acredita que foi injustiçado. Creio que ele acredite que, de alguma forma, está fazendo justiça no Brasil.

Mas quer concordemos ou não com a política dos EUA em 1964 no Brasil, ou em 1973 no Chile, pelo menos se tratou de uma política de Estado. Não é isso [que está acontecendo agora]. O que vemos é um capricho pessoal de Trump baseado em muita desinformação, muita ignorância e muita arrogância.

Não se trata de uma política séria, mas de um país muito grande, rico e poderoso, fazendo política externa de uma república das bananas.

BBC News Brasil - Como o senhor descreveria o estado atual da democracia nos Estados Unidos?

Levitsky - Escrevi um artigo no The New York Times há alguns meses argumentando que os Estados Unidos perderam sua democracia. Recaímos em uma forma relativamente branda e reversível de autoritarismo, onde o custo de se opor legalmente ao governo – seja organizando protestos, dando dinheiro a um candidato da oposição, escrevendo um editorial ou se manifestando contra o governo – aumentou.

Pessoas podem ser presas ou sofrer uma investigação fiscal por se oporem ao governo. A mídia pode ser processada. Todos os tipos de críticos do governo Trump estão sendo investigados pelo Departamento de Justiça. Quando você precisa pensar duas vezes [antes de fazer algo], porque pode haver um custo por se envolver em uma oposição pacífica legal, você não está mais vivendo em uma democracia.

A democracia dos EUA não está apenas ameaçada, ela foi descarrilada. Temos uma boa chance de recuperá-la, mas não vivemos mais em um sistema totalmente democrático. Os americanos têm muita, muita dificuldade em aceitar e reconhecer isso. Nós meio que presumimos que nossa democracia é invulnerável. Mas perdemos nossa democracia nos últimos seis meses e temos que lutar para recuperá-la.

BBC News Brasil - Os EUA são conhecidos por seu sistema de pesos e contrapesos, mas Donald Trump vem implementando ações unilaterais significativas, tanto internamente quanto externamente, com pouca resistência institucional. O que aconteceu com os outros Poderes?

Levitsky - Eles falharam. Pode ser que nosso sistema de pesos e contrapesos, que costumava ser forte, tenha enfraquecido. Ou pode ser que ele não era tão forte quanto imaginávamos.

A instituição do impeachment e da condenação foi criada pelos Pais Fundadores [dos EUA] para lidar com demagogos e autoritários como Donald Trump. Essa instituição falhou. O sistema Judiciário, o Legislativo e o Partido Republicano falharam em responsabilizar Trump. Todas as nossas instituições de responsabilização, todos os nossos famosos pesos e contrapesos, falharam.

BBC News Brasil - O senhor vê alguma possibilidade de o Congresso ou o Judiciário americanos anularem as tarifas impostas ao Brasil e as sanções contra os ministros do STF?

Levitsky - Não sei. Não parece haver muita disposição para restringir o poder Executivo no seu uso de tarifas. E, em geral, quando se trata de política externa, o Legislativo tende a ceder ao Executivo. Então, meu palpite é que caberá ao Brasil forçar Trump a recuar. Ou que o próprio governo terá que perceber que se trata de uma política incrivelmente estúpida.

BBC News Brasil - E como o Brasil poderia agir para fazer os EUA recuarem?

Levitsky - Isso cabe ao Brasil. Mas tanto internacionalmente quanto domesticamente, Trump tem agido como um 'bully' que quebra normas e regras e faz ameaças unilaterais na tentativa de conseguir o que quer.

Mas o que aprendemos é que muitos atores, governos, meios de comunicação, juízes, legislaturas, partidos e universidades permitiram que Trump se safasse de muita coisa. Eles recuaram diante das ameaças dele, e isso só o encorajou a se envolver em mais abusos. São aqueles que enfrentam Trump que têm mais probabilidade de sucesso.

É difícil pedir a qualquer governo para enfrentar Trump, mas acho que todos nós estaremos melhor se ele for contido. Mas, novamente, não posso aconselhar o governo brasileiro sobre o que fazer. Só os brasileiros sabem [como devem agir].

BBC News Brasil - Por que o Brasil se tornou alvo e como esse confronto beneficia Trump?

Levitsky - É muito difícil determinar o que está por trás das decisões de Trump, pois nem sempre há uma lógica racional. Ele não está sendo bem informado ou aconselhado e, ao contrário do primeiro mandato, não há mais ninguém perto dele que possa contê-lo ou dizer que ele está errado. Então, se alguém consegue persuadir Trump a fazer algo, há pouco que possa impedi-lo.

Neste caso, acho que a família Bolsonaro conseguiu a atenção dele. Trump acredita que a eleição de 2020 nos EUA foi roubada e que o sistema judiciário se envolveu em uma caça às bruxas contra ele. E os Bolsonaro parecem ter persuadido Trump de que Bolsonaro enfrenta uma situação muito semelhante no Brasil. Acredito que Trump esteja fazendo isso por motivos pessoais.

Ao mesmo tempo, este é um governo que, no cenário internacional, não gosta de países que discordam dele ou que assumem uma posição diferente e se recusam a curvar-se aos Estados Unidos. De nações que não são potências nucleares, que não são a Rússia ou a China, Trump espera subserviência. E governos como o Brasil, que não se curvam, têm mais chances de se tornarem alvos.

BBC News Brasil - Lula acusou Trump de agir como uma espécie de "xerife" ou "imperador" do mundo. O senhor identifica essa dita "tendência imperialista" nas decisões recentes do presidente?

Levitsky - Como disse, este governo não tem uma lógica muito clara. Por um lado, continua alegando que quer se afastar do internacionalismo americano, que quer deixar de ser xerife do mundo e colocar os Estados Unidos em primeiro lugar. Mas aí, ocasionalmente, ele sai e tenta intimidar governos no exterior. É bastante inconsistente.

Os Estados Unidos são uma potência imperial, com poder de coagir. E qualquer governo que decida fazer isso, seja por razões econômicas, geopolíticas ou em defesa dos direitos humanos, pode fazê-lo. Este governo está coagindo outros pelos objetivos pessoais de Trump.

Não me parece haver uma lógica suficientemente estratégica para chamar de imperialismo. Diria que são mais queixas pessoais, mal informadas e egocêntricas de Trump. E é muito... é muito triste, é patético, é destrutivo que isso esteja moldando a política externa dos EUA no ano de 2025. Mas essa é a realidade.

BBC News Brasil - O que isso significa para a governança global e o equilíbrio de poder no mundo?

Levitsky - O mundo, durante toda a história da humanidade e até a 1ª Guerra Mundial, operou de acordo com uma lógica mercantilista dos 'poderosos devoram os fracos'. Se você fosse um Estado poderoso, poderia fazer o que quisesse. Mas aí nos industrializamos e aprendemos o custo desse tipo de confronto aberto na 1ª e ainda mais na 2ª Guerra Mundial. As potências globais lidaram com isso criando uma ordem internacional baseada em regras. Essa ordem nunca funcionou perfeitamente, mas nos restringiu. Criou um mundo muito mais pacífico, que era necessário dado o poder militar disponível.

Trump não entende como funciona essa ordem internacional baseada em regras.

A invasão da Ucrânia por Putin já foi um golpe sério para ela. E a visão de mundo de Trump, que propaga a ideia de que se os EUA quiserem podem retomar o Canal do Panamá, tomar a Groenlândia e usar qualquer ferramenta disponível, seja ela comercial ou política, para intimidar outros governos, é mais uma séria ameaça.

BBC News Brasil - O senhor vê algum risco de que outros líderes globais adotem uma abordagem semelhante ou comecem a imitar as táticas de Trump?

Levitsky - Acho que vai depender do sucesso de Trump. Se ele se safar, for percebido como bem-sucedido, então, sim, outros governos podem muito bem o imitar. É por isso que, se estivermos interessados em preservar a ordem internacional baseada em regras que prevalece desde a Segunda Guerra Mundial, governos como os de Putin e Trump não podem ser percebidos como bem-sucedidos.

Por enquanto, ainda é cedo para dizer como Donald Trump será visto. Seus índices de aprovação caíram, mas se passaram apenas seis meses. Mas se sua estratégia funcionar, ele fará isso mais vezes e outros governos seguirão o exemplo.

BBC News Brasil - O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, afirma que os Estados Unidos não têm intenção de voltar atrás em sua decisão — e poderiam até não reconhecer os resultados das eleições presidenciais de 2026 se Jair Bolsonaro não for autorizado a concorrer. Na sua opinião, qual a gravidade dessa ameaça?

Levitsky - É sempre séria. Trump tem muito poder e é um cara sem restrições, com muito poder econômico, militar e diplomático por trás dele. Então, qualquer ameaça que Trump faça tem que ser levada a sério.

Agora, Trump recua em suas ameaças o tempo todo, especialmente em relação às tarifas. Então, Eduardo Bolsonaro não sabe o que Trump vai fazer. Eu não acho que Trump saiba o que Trump vai fazer em 1º de agosto. Bolsonaro pode dizer o que quiser, mas ele não tem ideia do que está por vir na política externa dos EUA. Este governo é capaz de fazer coisas muito estúpidas e destrutivas.

BBC News Brasil - Bolsonaro é frequentemente comparado a Trump. Tanto os EUA quanto o Brasil presenciaram uma invasão de prédios do governo por apoiadores de Trump e Bolsonaro. No entanto, no Brasil, Bolsonaro não está autorizado a concorrer à Presidência, enquanto nos EUA Trump pôde se candidatar e venceu. Como você vê essas diferenças?

Levitsky - O Brasil adotou uma resposta diferente às ameaças à democracia em comparação com os Estados Unidos. A resposta do Brasil é muito mais semelhante à de outras democracias, onde existe a crença de que, se há políticos ou forças políticas que infringem a lei e que ameaçam abertamente a democracia, eles devem ser impedidos pelo Estado de assumir o poder. O Estado tem o direito, seja o Judiciário ou outros atores no Estado, de tomar medidas para impedir o combate às ameaças à democracia.

Há uma lei aprovada há poucos anos no Brasil que determina pena de prisão para aqueles que atacam abertamente a democracia. Há evidências bastante sólidas - que ainda não foram comprovadas na Justiça - de que Bolsonaro tentou orquestrar um golpe em 2022. Você pode concordar com isso ou não, mas é o processo democrático do Brasil funcionando.

E, novamente, Trump não entende isso. Os EUA têm uma abordagem muito diferente. Temos uma abordagem muito mais laissez-faire [termo francês que significa "deixar em paz" ou "deixar fazer"], e criminosos e [pessoas que fazem] ameaças à democracia podem concorrer a cargos públicos. Nunca tomamos medidas sérias para impedir que um candidato de um partido tradicional concorra a um cargo.

Então, esse tipo de ação [do Brasil] é um tanto estranha aos Estados Unidos. Mas qualquer pessoa no Departamento de Estado, no aparato de política externa dos EUA ou com alguma experiência sobre como outros países funcionam, saberia que o que o Brasil está fazendo é bastante comum em democracias.

Mas Trump está interpretando [as ações no Brasilatravés de sua própria lente, que é muito tendenciosa e muito ignorante. Em última análise, trata-se de uma potência estrangeira tentando intimidar um governo democrático e, ao fazê-lo, minando o seu processo democrático.

BBC News Brasil - Como se compara o Estado e a força da democracia atual nos EUA e no Brasil?

Levitsky - A democracia brasileira tem muitos problemas e muitas ameaças também – e a crise de 2022 também não está totalmente superada. Não pretendo retratar o Brasil como uma democracia sem crises ou como um modelo.

Mas tanto os Estados Unidos quanto o Brasil elegeram figuras autoritárias de extrema direita: os Estados Unidos em 2016, o Brasil em 2018. Ambos tentaram anular os resultados de uma eleição e, de maneiras diferentes, tentaram orquestrar um golpe presidencial. Donald Trump escapou impune. Ele falhou em dar o golpe, mas o Legislativo, o Judiciário ou seu próprio partido não o responsabilizaram. Ele foi autorizado, apesar de ter tentado um golpe, a concorrer à reeleição e venceu.

No Brasil, houve uma denúncia bastante ampla da tentativa de golpe de 2022 e um esforço muito mais sério para responsabilizar Jair Bolsonaro. Ele ainda tem muito apoio, muitos aliados políticos, e não sabemos o que vai acontecer a seguir. Mas, por enquanto, o Judiciário impediu uma figura abertamente autoritária de concorrer novamente. E Bolsonaro pode acabar preso por seus crimes contra a democracia.

Então as instituições democráticas do Brasil parecem ter respondido de forma muito mais saudável do que as dos Estados Unidos. Acho que hoje o Brasil é um sistema mais democrático do que os Estados Unidos. Esse pode não ser o caso daqui a um ano, mas hoje as instituições brasileiras estão funcionando melhor.

BBC News Brasil - O senhor já afirmou que, nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) expandiu seu papel para talvez além do que deveria, em nome da democracia. Como o senhor avalia as decisões mais recentes do tribunal sobre o julgamento de Bolsonaro e a regulamentação das plataformas digitais?

Levitsky - Não sou especialista o suficiente na política brasileira cotidiana para opinar com muita inteligência sobre isso. Mas acho que o Brasil enfrentou uma situação extraordinária entre 2018 e 2022, e logo após as eleições alguém teve que se levantar e defender a democracia. Faz algum sentido que tenha sido o Supremo Tribunal Federal no Brasil, e acho que foi, em última análise, positivo para a democracia que ele tenha feito isso.

Agora, ninguém jamais abre mão do poder voluntariamente. Quando você entrega poder aos tribunais, ao governo ou aos militares, eles nunca o devolvem voluntariamente. Então, depois que essa crise – espero – for superada, os brasileiros terão que enfrentar a tarefa de empurrar o Supremo Tribunal Federal de volta para o seu devido lugar. Sempre que há um órgão não eleito formulando políticas, se está em um território perigoso em uma democracia.

Com relação ao processo contra Bolsonaro, pelo que posso perceber, o tribunal parece estar no seu devido lugar. Este é o trabalho do tribunal: julgar Bolsonaro e puni-lo, se ele for de fato considerado culpado. Vou ter que me desvencilhar da questão sobre regulamentação das plataformas digitais porque não estou acompanhando o tema de perto o suficiente.

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segunda-feira, 21 de julho de 2025

Como uma senha fraca permitiu que hackers falissem empresa de 158 anos

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A empresa de transporte KNP foi forçada a fechar as portas depois que gangues de hackers internacionais atacaram milhares de empresas do Reino Unido.
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TOPO
Por BBC

Postado em 21 de Julho de 2.025 às 20h30m

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Como criar uma senha forte, difícil de ser violada, e proteger suas contas
Como criar uma senha forte, difícil de ser violada, e proteger suas contas

Acredita-se que uma única senha tenha sido suficiente para que uma gangue de ataque cibernético do tipo ransomware destruísse uma empresa de 158 anos — e deixasse 700 pessoas sem emprego.

A KNP, empresa de transportes de Northamptonshire, é apenas uma das dezenas de milhares de empresas do Reino Unido que foram alvo de ataques deste tipo.

Grandes companhias, como M&S, Co-op e Harrods, foram atacadas nos últimos meses. O CEO da Co-op confirmou na semana passada que todos seus 6,5 milhões de usuários tiveram seus dados roubados.

No caso da KNP, acredita-se que os hackers conseguiram entrar no sistema de computador adivinhando a senha de um funcionário e, em seguida, criptografaram os dados da empresa e bloquearam seus sistemas internos.

O diretor da KNP, Paul Abbott, diz que não contou ao funcionário em questão que sua senha comprometida provavelmente levou à destruição da empresa.

"Você gostaria de saber se fosse você?", ele pergunta.

"Precisamos que as organizações tomem medidas para proteger seus sistemas, para proteger seus negócios", afirma Richard Horne, CEO do Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido (NCSC, na sigla em inglês), onde a reportagem do programa Panorama, da BBC, teve acesso exclusivo à equipe que combate gangues internacionais de ataques do tipo ransomware.

Em 2023, a KNP estava operando 500 caminhões — a maioria sob a marca Knights of Old.

A empresa afirmou que sua TI estava em conformidade com os padrões do setor, e que havia contratado um seguro contra ataques cibernéticos.

Mas uma gangue de hackers, conhecida como Akira, entrou no sistema, deixando a equipe incapaz de acessar os dados necessários para administrar a empresa. A única maneira de obter os dados de volta, disseram os hackers, era pagar um resgate.

Paul Abbott era diretor da KNP, empresa que foi atacada por hackers — Foto: BBC
Paul Abbott era diretor da KNP, empresa que foi atacada por hackers — Foto: BBC

"Se você está lendo isso, significa que a infraestrutura interna da sua empresa está total ou parcialmente inoperante. Vamos guardar todas as lágrimas e ressentimentos para nós mesmos e tentar construir um diálogo construtivo", dizia a nota sobre pagamento de resgate.

Os hackers não indicaram um valor, mas uma empresa especializada em negociação em ataques do tipo ransomware estimou que a quantia poderia chegar a 5 milhões de libras (cerca de R$ 37 milhões). A KNP não tinha esse dinheiro. No fim das contas, todos os dados foram perdidos, e a empresa foi à falência.

O NCSC afirma que seu objetivo é "tornar o Reino Unido o lugar mais seguro para se viver e trabalhar online" — e diz que lida com um grande ataque todos os dias.

A organização faz parte da Agência de Comunicações do Governo (GCHQ, na sigla em inglês), um dos três principais serviços de segurança do Reino Unido, ao lado do MI5 e o MI6.

Quando a KNP faliu, 700 pessoas perderam seus empregos — Foto: BBC
Quando a KNP faliu, 700 pessoas perderam seus empregos — Foto: BBC

Os hackers não estão fazendo nada de novo, diz "Sam" (nome fictício), que lidera uma equipe do NCSC que lida com ataques diários. Eles estão apenas à procura de um elo fraco, diz ele ao Panorama.

"Estão sempre encontrando organizações em um dia ruim e tirando proveito delas."

Por meio de fontes de inteligência, os agentes do NCSC tentam detectar ataques e expulsar os hackers dos sistemas de computador antes que eles possam implantar o software malicioso.

"Jake" (nome fictício) era o agente de plantão noturno durante um incidente recente em que hackers foram detidos.

"Você entende a dimensão do que está acontecendo e quer reduzir os danos", diz ele. "Pode ser emocionante, especialmente se formos bem-sucedidos."

Mas o NCSC só pode oferecer uma certa camada de proteção, e o ataque do tipo ransomware é um crime crescente e lucrativo.

"Parte do problema é que há muitos hackers", diz Sam. "E não somos muitos."

As estatísticas são difíceis de obter porque as empresas não precisam denunciar ataques ou se pagaram resgates. No entanto, estima-se que houve 19 mil ataques do tipo ransomware a empresas do Reino Unido no ano passado, de acordo com o levantamento de segurança cibernética do governo.

Pesquisas do setor indicam que o valor do pedido de resgate típico é de cerca de 4 milhões de libras (aproximadamente R$ 30 milhões) no Reino Unido, e que cerca de um terço das empresas simplesmente paga.

Richard Horne, CEO do NCSC, afirma que as empresas precisam reforçar sua segurança cibernética — Foto: BBC
Richard Horne, CEO do NCSC, afirma que as empresas precisam reforçar sua segurança cibernética — Foto: BBC

"Temos visto uma onda de ataques cibernéticos criminosos nos últimos anos", observa Richard Horne, CEO do NCSC. Ele nega que os criminosos estejam vencendo, mas diz que as empresas precisam melhorar sua segurança cibernética.

Se a prevenção não funcionar, outra equipe de agentes da Agência Nacional de Combate ao Crime (NCA, na sigla em inglês), tem a tarefa de capturar os criminosos.

Os ataques estão em alta porque são muito lucrativos, diz Suzanne Grimmer, que chefia uma equipe da NCA.

A unidade dela realizou a avaliação inicial do ataque à M&S, rede de varejo britânica.

Suzanne Grimmer, da NCA, diz que os ataques de hackers quase dobraram — Foto: BBC
Suzanne Grimmer, da NCA, diz que os ataques de hackers quase dobraram — Foto: BBC

Os incidentes quase dobraram para cerca de 35 a 40 por semana desde que ela assumiu a unidade há dois anos, diz Grimmer.

"Se continuar assim, prevejo que este será o pior ano já registrado para ataques do tipo ransomware no Reino Unido."

A invasão está se tornando mais fácil, e algumas das táticas não envolvem nem sequer um computador — como, por exemplo, ligar para o suporte de TI para obter acesso.

Isso reduziu a barreira para possíveis ataques, explica Grimmer. "Esses criminosos estão se tornando muito mais capazes de acessar ferramentas e serviços para os quais você não precisa de um conjunto de habilidades técnicas específicas."

Os hackers da M&S invadiram o sistema da empresa por meio de manipulação ou truques. Isso causou transtornos para os consumidores, como atrasos nas entregas e algumas prateleiras vazias, e os dados dos clientes também foram roubados.

James Babbage, diretor geral da área de ameaças da NCA, diz que essa é a característica de uma geração mais jovem de hackers, que agora está "entrando no crime cibernético provavelmente por meio de games".

James Babbage, diretor geral da área de ameaças da NCA, afirma que existe uma nova geração de hackers — Foto: BBC
James Babbage, diretor geral da área de ameaças da NCA, afirma que existe uma nova geração de hackers — Foto: BBC

"Eles estão reconhecendo que esse tipo de habilidade pode ser usado para enganar as centrais de suporte de TI e afins para que tenham acesso às empresas."

Uma vez lá dentro, os hackers podem usar um software para ataque do tipo ransomware, comprado na dark web, para roubar dados e bloquear sistemas de computador.

De acordo com Babbage, o ataque do tipo ransomware é a ameaça de crime cibernético mais significativa que enfrentamos.

"É uma ameaça à segurança nacional por si só, tanto aqui quanto no mundo todo."

Outros chegaram à mesma conclusão.

Em dezembro de 2023, o Comitê Conjunto do Parlamento sobre a Estratégia de Segurança Nacional alertou que havia um alto risco de um "ataque catastrófico do tipo ransomware a qualquer momento".

No início deste ano, o Serviço Nacional de Auditoria elaborou um relatório que dizia que a ameaça ao Reino Unido era grave e estava avançando rapidamente.

As empresas precisam "pensar na segurança cibernética em todas as decisões que tomam", diz Richard Horne, do NCSC.

Babbage afirma que também não aconselha as vítimas a pagar resgates.

"Cada vítima precisa fazer sua própria escolha, mas é o pagamento de resgates que alimenta esse crime", diz ele.

O governo propôs a proibição do pagamento de resgates por parte de órgãos públicos.

As empresas privadas podem ter que denunciar ataques com pedido de resgate e obter permissão do governo para pagar.

Em Northamptonshire, Paul Abbott, da KNP, agora dá palestras alertando outras empresas sobre a ameaça cibernética.

Ele acredita que as empresas deveriam ter que provar que possuem proteção de TI atualizada, uma espécie de "vistoria veicular cibernética".

"É preciso haver regras que tornem as empresas muito mais resilientes a atividades criminosas", diz ele.

No entanto, muitas empresas estão optando por não denunciar o crime, e simplesmente pagar os criminosos, diz Paul Cashmore, um especialista em cibernética contratado pelas seguradoras da KNP.

Diante da possibilidade de perder tudo, as empresas cedem às gangues.

"Isso é crime organizado", ele afirma. "Acho que há muito pouco avanço na captura dos criminosos, mas é devastador."

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Ataque a programa da Microsoft afeta cerca de 100 organizações, dizem pesquisadores

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Sharepoint é usado para compartilhar informações dentro de empresas e foi alvo de um ataque 'dia zero', em que cibercriminosos aproveitam brechas que não eram conhecidas.
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Por Redação g1

Postado em 21 de Julho de 2.025 às 19h25m

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Sede da Microsoft em Issy-les-Moulineaux, perto de Paris, na França, em 18 de abril de 2016 — Foto: REUTERS/Charles Platiau
Sede da Microsoft em Issy-les-Moulineaux, perto de Paris, na França, em 18 de abril de 2016 — Foto: REUTERS/Charles Platiau

Um ataque realizado no último final de semana ao programa Sharepoint, da Microsoft, afetou cerca de 100 organizações, informaram nesta segunda-feira (21) pesquisadores da empresa de cibersegurança Eye Security e da entidade sem fins lucrativos Shadowserver Foundation.

A operação foi confirmada no sábado (19) pela Microsoft, que citou "ataques ativos" a servidores locais do Sharepoint. Segundo a empresa, os servidores do programa que operam na nuvem não foram afetados.

O Sharepoint é uma ferramenta da Microsoft usada para criar sites que funcionam na rede interna de organizações como empresas e governos.

O Sharepoint foi alvo do que é chamado de ataque "dia zero". Esse tipo de operação aproveita uma brecha que, até então, não era conhecida para se infiltrar em servidores vulneráveis.

Os nomes das organizações afetadas não foram revelados, mas, de acordo com os pesquisadores, as vítimas incluem órgãos de governo e estão principalmente nos Estados Unidos e na Alemanha.

O Reino Unido também tem um "número limitado" de alvos, informou o Centro Nacional de Segurança Cibernética, vinculado ao governo britânico.

Segundo a agência de notícias Reuters, a Microsoft disse em comunicado que "forneceu atualizações de segurança e incentiva os clientes a instalá-las".

Ainda não está claro quem está por trás desse ataque. O Google afirmou na segunda que, ao menos parte dos ataques, tem ligação um grupo de espionagem chinês. Até o momento, não houve resposta da embaixada da China nos EUA.

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