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segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Os dados que a Amazon coleta de seus clientes e como faz isso

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A partir de assistente de voz, loja virtual, plataformas de vídeo e música, câmeras de segurança doméstica e de monitores de atividade física, empresa é capaz de traçar um perfil detalhado dos usuários.
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TOPO
Por Reuters

Postado em 22 de novembro de 2021 às 13h35m

Post. N. - 4.202

Amazon — Foto: Mike Segar/Reuters/Arquivo
Amazon — Foto: Mike Segar/Reuters/Arquivo

Como legislador no estado norte-americano da Virgínia, Ibraheem Samirah estudou questões de privacidade na internet e debateu a regulamentação da coleta de dados privados pelas empresas de tecnologia. Ainda assim, ele ficou surpreso ao saber todos os detalhes que a Amazon coletou sobre ele.

A empresa possuía mais de 1.000 contatos de seu telefone. Também tinha registros de exatamente qual parte do Alcorão ele ouviu em 17 de dezembro do ano passado.

A Amazon sabia ainda todas as pesquisas que ele fez na plataforma da empresa, incluindo uma busca por livros sobre "organização comunitária progressiva" e outras mais delicadas, relacionadas à saúde, e que ele acreditava serem privadas.

Eles estão vendendo produtos ou espionando pessoas comuns? questionou Samirah, um membro do partido democrata na casa legislativa da Virgínia.

Samirah esteve entre os poucos legisladores da Virgínia que se opuseram a um projeto de lei estadual sobre privacidade, elaborado pela Amazon e favorável à indústria. O texto foi aprovado no início deste ano. À pedido da Reuters, Samirah solicitou à Amazon a divulgação dos dados que coletou sobre ele.

As informações que a Amazon coleta

A companhia reúne uma vasta gama de informações sobre seus clientes nos EUA e começou a disponibilizar esses dados para todos, mediante solicitação, no início do ano passado.

O movimento ocorreu depois que a Amazon tentou, e não conseguiu, derrotar uma medida de 2018, na Califórnia, que exigia tais divulgações. (Os clientes da Amazon nos EUA podem obter seus dados preenchendo um formulário na Amazon.com.)

Sete repórteres da Reuters também obtiveram seus respectivos arquivos mantidos pela Amazon. Os dados revelam a capacidade da empresa de reunir retratos incrivelmente íntimos dos consumidores.

A empresa coleta dados por meio de sua assistente de voz Alexa, de seu marketplace, do Kindle, de audiolivros pelo Audible, de suas plataformas de vídeo e música, de câmeras de segurança doméstica e de monitores de atividade física.

Dispositivos habilitados para a Alexa fazem gravações dentro das casas das pessoas, e câmeras de segurança Ring capturam todos os visitantes.

Assistentes virtuais Echo da Amazon, que contam com a Alexa — Foto: Divulgação/Amazon
Assistentes virtuais Echo da Amazon, que contam com a Alexa — Foto: Divulgação/Amazon

Essas informações podem revelar a altura, o peso e as condições de saúde de uma pessoa; sua etnia (por meio de pistas contidas em dados de voz) e inclinações políticas; seus hábitos de leitura e compra; seu paradeiro em um determinado dia e, às vezes, quem ela encontrou.

O dossiê de um repórter mostra que a Amazon coletou, por meio da Alexa, mais de 90.000 gravações de familiares entre dezembro de 2017 e junho de 2021 – uma média de cerca de 70 por dia. As gravações incluem detalhes como os nomes de seus filhos pequenos e suas músicas favoritas.

Interações com a Alexa são gravadas

A companhia gravou as crianças perguntando como convencer os pais a deixá-las brincar, e recebendo instruções detalhadas da Alexa sobre como persuadi-los a comprar videogames.

Estejam totalmente preparadas, aconselhou a Alexa às crianças, para refutarem argumentos comuns dos pais, como "é muito violento", "muito caro" e "você não está indo bem na escola". A informação veio de um site externo utilizado pela Alexa, chamado "wikiHow", que fornece instruções sobre como fazer algo através de mais de 180.000 artigos, de acordo com o site da Amazon.

A Amazon disse que não é dona do wikiHow, mas que a Alexa, às vezes, responde a solicitações usando informações retiradas de sites.

Algumas gravações envolveram conversas entre membros da família, que usaram a Alexa para se comunicarem entre diferentes partes da casa.

Várias gravações capturaram crianças se desculpando com seus pais após serem advertidas. Outras registraram os pequenos, de 7, 9 e 12 anos, questionando à Alexa sobre termos como "pansexual".

Em certa gravação, uma criança pergunta: Alexa, o que é uma vagina?” Em outra: Alexa, o que significa escravidão?

O repórter não percebeu que a Amazon estava armazenando as gravações antes da divulgação dos dados.

O que diz a Amazon

A Amazon diz que os produtos Alexa são projetados para gravar o mínimo possível: começa após a palavra de gatilho, "Alexa", e encerra quando o comando do usuário chega ao fim. Os registros da família do repórter, no entanto, às vezes capturavam conversas mais longas.

Em um comunicado, a Amazon disse que tem cientistas e engenheiros trabalhando para melhorar a tecnologia e evitar gatilhos falsos que levam à gravação. A empresa afirmou que alerta os clientes sobre o armazenamento das gravações quando a conta na Alexa é configurada.

Além disso, a companhia disse que a coleta dados pessoais serve para melhorar produtos e serviços e personalizá-los para os indivíduos.

Questionada sobre os registros de Samirah ouvindo o Alcorão, a Amazon disse que tais informações permitem aos clientes continuar de onde pararam anteriormente.

A única maneira de os consumidores excluírem muitos desses dados pessoais é encerrando suas contas, disse a Amazon. Ainda assim, a empresa afirmou que retém algumas informações, como o histórico de compras, mesmo depois do encerramento da conta devido a obrigações legais.

A Amazon também disse que permite aos clientes o ajuste das configurações em assistentes de voz e outros serviços, para limitar a quantidade de dados coletados.

Astro, o robô da Amazon que se parece com um pet — Foto: Divulgação
Astro, o robô da Amazon que se parece com um pet — Foto: Divulgação

Os usuários da Alexa, por exemplo, podem impedir que a empresa salve o conteúdo coletado ou optar por excluí-lo automaticamente de forma periódica. É possível ainda, segundo a companhia, desconectar seus contatos ou calendários dos dispositivos, caso o cliente não queira usar as funções de ligação ou de agenda da Alexa.

Um cliente pode optar por não ter suas gravações da Alexa analisadas, mas deve navegar por uma série de menus e dois avisos que dizem: Se você desligar isso, o reconhecimento de voz e os novos recursos podem não funcionar bem.

Questionada sobre os avisos, a Amazon disse que os consumidores que limitam a coleta de dados podem não ser capazes de personalizar alguns recursos, como a reprodução de música.

Preocupações com vigilância e pedidos do governo

O parlamentar Ibraheem Samirah, de 30 anos, ganhou uma Alexa no final do ano passado. Ele disse que usou o produto por apenas três dias antes de devolvê-lo, após perceber a coleta de gravações.

O aparelho já havia reunido todos os seus contatos telefônicos, como parte de um recurso de ligações. Segundo a Amazon, os usuários da Alexa devem dar permissão de acesso aos contatos telefônicos. Para excluir os registros de sua conta Amazon, os clientes devem desabilitar esse acesso, não apenas excluir o aplicativo da Alexa.

Samirah afirmou que também ficou nervoso com o fato de a Amazon ter registros detalhados de suas sessões de leitura em audiolivros e no Kindle.

Encontrar informações sobre como ouviu o Alcorão, disse ele, fez-o pensar sobre a história da polícia e das agências de inteligência dos EUA, que vigiam muçulmanos por suspeitas de ligações terroristas após os ataques em 11 de setembro de 2001.

Por que eles precisam saber disso?, questionou. O mandato de Samirah termina em janeiro, já que ele não foi reeleito ao cargo.

Às vezes, agências de segurança dos Estados Unidos procuram dados sobre clientes de empresas de tecnologia. A Amazon diz que cumpre os mandados de busca e outras ordens judiciais relacionadas, mas se opõe a "solicitações excessivas ou inadequadas".

Dados da empresa referentes aos três anos encerrados em junho de 2020, os mais recentes disponíveis, mostram que a empresa cumpriu pelo menos parcialmente com 75% das intimações, mandados de busca e outras ordens judiciais que miraram dados de clientes nos EUA. Foram atendidas plenamente 38% dessas solicitações.

No ano passado, a empresa parou de divulgar a frequência com que atende a essas solicitações. Questionada sobre o motivo, a Amazon disse que expandiu o escopo do relatório para torná-lo global e tornou mais simples as informações de cada país.

A Amazon afirmou que é obrigada a cumprir decisões válidas e vinculativas, mas que seu objetivo é liberar o mínimoexigido por lei.

A política de privacidade da Amazon, documento que contém mais de 3.500 palavras, além de links para mais de 20 outras páginas, dá a empresa ampla liberdade para coletar dados.

A Amazon disse que a política descreve a coleta, uso e compartilhamento de dados de uma forma que seja fácil para os consumidores entenderem.

Essas informações coletadas podem ser bastante pessoais. O Kindle, por exemplo, rastreia com precisão os hábitos de leitura de um usuário, mostrou o arquivo de dados da Amazon de outro repórter.

Jeff Bezos, CEO da Amazon, mostra o tablet Kindle Fire, concorrente do iPad — Foto: Shannon Stapleton/Reuters
Jeff Bezos, CEO da Amazon, mostra o tablet Kindle Fire, concorrente do iPad — Foto: Shannon Stapleton/Reuters

A divulgação incluiu registros de mais de 3.700 sessões de leitura desde 2017, incluindo data e hora - até o milissegundo - do conteúdo consumido. A Amazon também rastreia palavras destacadas ou pesquisadas, páginas viradas e promoções vistas.

O registro mostrou, por exemplo, que um membro da família do repórter leu The Mitchell Sisters: A Complete Romance Series em 8 de agosto de 2020, a partir das 16h52 até 19h36, folheando 428 páginas.

Em julho, fundador da Amazon foi ao espaço em foguete da sua empresa Blue Origin. Relembre:

Jeff Bezos no espaço: Veja os melhores momentos do voo e entenda o caso
Jeff Bezos no espaço: Veja os melhores momentos do voo e entenda o caso

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domingo, 21 de novembro de 2021

'Minha caçada aos hackers mais procurados do mundo que vivem como milionários na Rússia'

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Equipe da BBC foi à Rússia bater na porta de acusados de crimes cibernéticos pelos EUA. Eles atuam livremente e, segundo especialistas, às vezes são contratados pelo próprio governo russo.
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TOPO
Por BBC

Postado em 21 de novembro de 2021 às 12h20m

Post. N. - 4.201

Imagens de procurados pelo FBI por acusação de envolvimento com crimes cibernéticos — Foto: BBC
Imagens de procurados pelo FBI por acusação de envolvimento com crimes cibernéticos — Foto: BBC

Muitos dos nomes na lista de pessoas procuradas pelo FBI (a polícia federal americana) em meio a investigações sobre crimes cibernéticos vêm da Rússia.

Enquanto alguns são acusados de trabalhar para o governo recebendo um salário normal, outros supostamente fazem fortunas com ataques e roubos online. Se eles deixassem a Rússia, seriam presos, mas lá eles parecem não ter qualquer restrição.

"Estamos perdendo nosso tempo", pensei, enquanto observava um gato lambendo a carcaça de uma galinha.

Certamente não haveria mais nenhum vestígio de um multimilionário acusado de envolvimento com crimes cibernéticos nesta propriedade a cerca de 700 km de Moscou.

Mas continuei caminhando, ao lado de um tradutor e um cinegrafista, tentando espantar o gato sarnento para longe da entrada de um bloco de apartamentos.

Quando batemos em uma das portas, um jovem atendeu e uma mulher idosa com olhar curioso nos espiou da cozinha. "Igor Turashev? Não, não reconheço este nome", disse o jovem.

"A família dele está registrada [como vivendo] aqui, então quem é você?" nós perguntamos.

Depois de uma conversa amigável, explicamos que éramos repórteres da BBC, e o clima mudou repentinamente. "Não vou dizer onde ele está, e você não deveria tentar encontrá-lo. Você não deveria ter vindo aqui", disse o jovem, com raiva.

Não dormi bem naquela noite, pensando nos conselhos inquietantes que recebi de pessoas da área de segurança.

Alguns indicaram que tentar encontrar criminosos cibernéticos em seus locais de moradia é arriscado. "Eles terão seguranças armados", me disseram. "Você vai acabar em uma vala em algum lugar", avisou outro.

Outros não viram tanto problema. Foi o caso de uma pessoa que me disse que as pessoas que eu procurava eram apenas "nerds da computação".

Mas todos disseram que não conseguíramos chegar nem perto deles.

'Ladrões de banco habilitados em cibernética'

Em uma entrevista coletiva há dois anos, o FBI nomeou nove membros do grupo de hackers russo Evil Corp e acusou Igor Turashev e o suposto líder da gangue, Maksim Yakubets, de roubar ou extorquir mais de US$ 100 milhões em ataques que afetaram 40 países diferentes.

Departamento de Estado dos EUA — Foto: Em entrevista coletiva em 2019, o FBI anunciou o indiciamento de membros do Evil Corp, além de nomear Maksim Yakubets e Igor Turashev
Departamento de Estado dos EUA — Foto: Em entrevista coletiva em 2019, o FBI anunciou o indiciamento de membros do Evil Corp, além de nomear Maksim Yakubets e Igor Turashev

As vítimas variam de pequenas empresas a multinacionais como a americana Garmin, além de instituições de caridade e uma escola.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos diz que os homens são "ladrões de banco habilitados em cibernética", realizando ataques de ransomware ou invadindo contas para roubar dinheiro.

O anúncio fez de Maksim Yakubets, com apenas 32 anos na época, um símbolo da imagem do hacker russo playboy.

Algumas imagens da gangue obtidas pela Agência Nacional do Crime do Reino Unido mostram homens dirigindo Lamborghinis personalizados, rindo com maços de dinheiro e brincando com um filhote de leão.

Maksim Yakubets em frente a um Lamborghini customizado — Foto: Agência Nacional de Crimes do Reino Unido
Maksim Yakubets em frente a um Lamborghini customizado — Foto: Agência Nacional de Crimes do Reino Unido

O indiciamento dos dois homens pelo FBI foi resultado de anos de investigação, incluindo entrevistas com ex-membros do grupo e o trabalho de peritos digitais.

Algumas informações coletadas remontam a 2010, quando a polícia russa ainda estava disposta a colaborar com colegas americanos.

Esses tempos se foram: o governo russo rotineiramente ignora as acusações de crimes cibernéticos contra seus cidadãos vindas dos EUA.

Na verdade, na prática, não apenas os hackers têm liberdade para continuar atuando no país, como também são em algumas ocasiões recrutados pelos serviços de segurança russos.

Casamento luxuoso

Nossa investigação sobre Maksim Yakubets começou em um lugar improvável, um campo de golfe a cerca de duas horas de Moscou. Este foi o local de seu grandioso casamento em 2017, como mostra um vídeo publicado pelo site da rádio Free Europe/Liberty.

O rosto de Yakubets nunca é mostrado na filmagem, feita por uma produtora especializada em casamentos. Mas, em um dado momento, ele aparece dançando durante o show de uma famosa cantora russa, em meio a um belo show de luzes.

O casamento de Maksim Yakubets pode ter custado mais de meio milhão de dólares — Foto: Agência Nacional de Crimes do Reino Unido
O casamento de Maksim Yakubets pode ter custado mais de meio milhão de dólares — Foto: Agência Nacional de Crimes do Reino Unido

A organizadora de casamentos Natalia não quis entrar em detalhes sobre o grande dia de Yakubets, mas nos mostrou alguns locais usados na ocasião, como uma construção na colina com pilares esculpidos, perto de um lago.

"É o nosso quarto exclusivo", disse ela. "Os recém-casados adoram ir para lá para ter sessões de fotos e um romance."

Enquanto nos deslocávamos em um carrinho de golfe, fiz algumas contas. Com as informações que tínhamos, era de se imaginar que o casamento tenha custado mais do que as estimativas que escutamos, de cerca de US$ 250 mil. Possivelmente, custou algo entre US$ 500 mil e US$ 600 mil.

Não sabemos como a cerimônia foi paga, mas se Yakubets pagou a conta, isto demonstra o quão luxuoso é seu estilo de vida.

Igor Turashev, de 40 anos, também não está sendo nada discreto.

Igor Turashev foi indiciado e é procurado pelo FBI — Foto: Departamento de Estado dos EUA
Igor Turashev foi indiciado e é procurado pelo FBI — Foto: Departamento de Estado dos EUA

A partir de registros públicos, meu colega Andrey Zakharov, repórter especializado em cibernética da BBC Rússia, encontrou três empresas registradas no seu nome.

Todos têm escritórios na famosa Federation Tower de Moscou, um arranha-céu chamativo no distrito financeiro que não destoaria em Manhattan ou no Canary Wharf de Londres.

Uma recepcionista procurou um número de telefone dos escritórios e descobriu que não havia nenhum. Ela então encontrou um número de celular vinculado ao nome de uma das empresas e nos colocou na linha.

Uma música de Frank Sinatra tocou por cerca de cinco minutos, então finalmente alguém atendeu, parecendo falar de uma rua movimentada. Quando dissemos que éramos jornalistas, a pessoa desligou.

Conforme Andrey me explicou, Turashev não é procurado na Rússia, então ninguém o impede de alugar este caro escritório no centro da cidade.

Também pode ser conveniente para ele estar localizado em meio a empresas financeiras, incluindo algumas que negociam criptomoedas, como bitcoins — que a Evil Corp teria tirado das vítimas em alguns ataques.

Em um dos casos investigados, a gangue teria conseguido de uma vez o equivalente a US$ 10 milhões.

Um relatório da Bloomberg, baseado em uma pesquisa de analistas da Chainalysis, afirmou que a Federation Tower abriga inúmeras empresas de criptografia que atuam como "máquinas de dinheiro para criminosos cibernéticos".

Tentamos dois outros endereços ligados a Turashev e a outro nome importante do Evil Corp, Denis Gusev. Também tentamos contato por telefone e e-mail, mas ninguém respondeu.

'Americanos criaram um problema para minha família'

Andrey e eu passamos muito tempo tentando encontrar algum local de trabalho de Maksim Yakubets.

Ele já foi o diretor de uma empresa de ração para gado, da qual sua mãe é dona, mas hoje em dia parece não ter nenhum vínculo formal com qualquer empresa ou empregador.

Mas encontramos, sim, endereços que poderiam ser de sua moradia. Então, uma noite, fomos bater à sua porta.

De primeira, um homem atendeu e riu no interfone enquanto explicamos de onde éramos. "Maksim Yakubets não está aqui. Ele não está aqui há, provavelmente, 15 anos. Eu sou o pai dele", disse a voz.

Para nossa surpresa, o pai de Yakubets saiu pelo corredor e nos deu uma passional entrevista de 20 minutos diante das câmeras, condenando com raiva as autoridades americanas por indiciarem seu filho.

A recompensa de US$ 5 milhões oferecida pelos EUA em troca de informações que pudessem levar à prisão de Yakubets — o maior já disponibilizado na área da cibersegurança — levou a família a viver com medo de um ataque, disse o pai, exigindo que publicássemos suas palavras à risca.

"Os americanos criaram um problema para minha família, para muitas pessoas que nos conhecem, para nossos parentes... Qual é o propósito? A Justiça americana se transformou na Justiça soviética. Ele não foi questionado, não foi interrogado, nem houve procedimentos que tenham provado sua culpa."

Ele negou que seu filho seja um cibercriminoso. Quando perguntei como ele achava que Maksim Yakubets tinha ficado tão rico, o pai riu, dizendo que eu estava exagerando o preço do casamento. O homem disse que carros de luxo usados pelo filho eram alugados.

O salário de Maksim era maior do que a média, disse ele, porque o filho "trabalha, recebe, tem um emprego".

"O que ele faz como trabalho, então?", perguntei.

"Por que eu deveria te contar?", respondeu o homem. "E as nossas vidas privadas?"

O homem disse que não teve mais contato com o filho desde o indiciamento, por isso não poderia nos colocar em contato com Maksim.

A resposta dos EUA e Europa

Nomes indiciados por autoridades ocidentais são impedidos de viajar para o exterior e têm ativos congelados — Foto: BBC
Nomes indiciados por autoridades ocidentais são impedidos de viajar para o exterior e têm ativos congelados — Foto: BBC

Yakubets e Turashev fazem parte da crescente lista de cidadãos russos acusados de crimes cibernéticos, conforme o Ocidente luta para conter estes ataques.

O número de pessoas e organizações russas indiciadas e punidas por isso é maior do que qualquer outra nacionalidade.

As acusações impedem os hackers de viajar para o exterior, congelam ativos que eles possam ter e impedem que façam negócios com empresas ocidentais.

No ano passado, a União Europeia começou a emitir sanções cibernéticas, seguindo os passos dos EUA, e a maioria dos citados na lista são russos.

Diz-se que a grande maioria dos nomes nessas listas têm ligação direta com o Estado russo, que usaria os hackers para espionar, exercer pressão e poder.

Embora todas as nações estejam envolvidas em ataques mútuos, os EUA, a União Europeia e aliados dizem que alguns dos ataques vindos da Rússia cruzaram a linha do aceitável.

Alguns são acusados de causar apagões generalizados na Ucrânia, depois de atacarem redes de energia; outros são procurados por tentarem invadir uma instalação de testes de armas químicas logo após o envenenamento do ex-espião Sergei Skripal e sua filha na Inglaterra, em 2018.

O Kremlin nega todas as acusações, rotineiramente classificando-as como histeria ocidental e "russofobia".

Como não existem regras claras sobre o que é aceitável em ataques perpetrados por países, concentramos nossa investigação em indivíduos acusados de crimes com fins lucrativos.

Regra de ouro

E então, as acusações e punições contra hackers "criminosos" funcionam?

Falando com o pai de Yakubets, parece que elas têm algum impacto — no mínimo, deixam quem está no entorno dos acusados furioso.

No entanto, a Evil Corp parece não ter sido afetada como um todo. Pesquisadores de segurança cibernética dizem que a gangue ainda está fazendo ataques lucrativos, principalmente contra alvos ocidentais.

A "regra de ouro" entre hackers russos, de acordo com pesquisadores e ex-hackers, é que criminosos não contratados pelo Estado podem atacar quem quiserem, desde que as vítimas não estejam em territórios de língua russa ou ex-soviéticos.

A regra parece funcionar, já que os pesquisadores de segurança cibernética há muitos anos notam menos ataques nesses países. Eles também já descobriram que alguns malwares são projetados para evitar computadores com sistemas de língua russa.

Lilia Yapparova, repórter investigativa da Meduza — uma das poucas organizações de jornalismo independente do país — diz que a "regra de ouro" é útil para os serviços de inteligência, que podem explorar as habilidades que os hackers desenvolveram enquanto trabalhavam por conta própria.

"É mais valioso para a FSB [agência de inteligência russa] recrutar hackers na Rússia do que colocá-los na prisão. Uma de minhas fontes, que é um ex-oficial da FSB, me disse que já tentou pessoalmente recrutar alguns caras da Evil Corp."

Os EUA afirmam que Maksim Yakubets e outros hackers procurados — incluindo Evgeniy Bogachev, que carrega uma recompensa de US$ 3 milhões por sua prisão — trabalharam diretamente para os serviços de inteligência russo.

Pode não ser coincidência que o sogro de Yakubets, visto no vídeo do casamento, seja um ex-membro do alto escalão do FSB.

Pedimos um posicionamento do governo russo, mas não recebemos resposta.

Quando o presidente russo, Vladimir Putin, foi questionado sobre isso na cúpula de Genebra, em junho, ao se encontrar com o presidente americano, Joe Biden, ele negou que ataques de alto nível tivesse origem em seu país e até afirmou que a maioria dos ataques cibernéticos tem origem nos EUA.

Putin disse, entretanto, que trabalharia com os americanos para "criar ordem".

Nos últimos seis meses, os EUA e seus aliados passaram a adotar uma represália mais agressiva — conseguiram fazer ataques cibernéticos contra as gangues e colocar algumas delas offline. REvil e DarkSide publicaram em fóruns que não estão mais operando por conta da ação americana.

Em duas ocasiões, os hackers do governo dos EUA conseguiram até mesmo recuperar milhões de dólares de bitcoins roubados das vítimas.

Um esforço internacional envolvendo a Europol e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos também viu supostos hackers serem presos na Coréia do Sul, Kuwait, Romênia e Ucrânia.

No entanto, os pesquisadores de segurança cibernética dizem que mais grupos estão surgindo e que ataques estão ocorrendo todas as semanas. O fenômeno não acabará, dizem eles, enquanto os hackers puderem agir livremente na Rússia.

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