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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

O primeiro computador Mac faz 40 anos – e continua em uso

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Em 24 de janeiro de 1984, o computador pessoal Apple Macintosh 12
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TOPO
Por Chris Baraniuk

Postado em 30 de janeiro de 2024 às 06h35m

Post. N. - 4.826

O lançamento do Macintosh 128K acaba de completar 40 anos — Foto: Alamy via BBC
O lançamento do Macintosh 128K acaba de completar 40 anos — Foto: Alamy via BBC

David Blatner preserva até hoje praticamente todos os computadores Macintosh que já comprou. Mas um deles merece destaque: o primeiro.

Ele se lembra da forma da disposição da tela; do volumoso manual; e dos tutoriais em fitas cassete, ensinando como usar a máquina. Era tudo o que ele achava que um computador devia ser.

Ele já havia observado versões anteriores de computadores pessoais quando era criança.

Blatner costumava ir de bicicleta até o Centro de Pesquisa da Xerox em Palo Alto, na Califórnia (Estados Unidos), onde seu padrasto trabalhava nos anos 1970. Ali, ele conseguiu operar os primeiros computadores pessoais, como o Alto, que tinha uma interface gráfica e um mouse.

"Um computador que funcionaria para uma única pessoa — a própria ideia era extraordinária", lembra Blatner.

Hoje, ele é presidente do portal CreativePro Network, dedicado a profissionais da área de criação.

Mas Blatner precisou esperar ainda mais uma década até conseguir seu próprio computador, com a chegada do Macintosh da Apple.

No dia 24 de janeiro de 1984, um homem chamado Steve Jobs (1955-2011) subiu em um palco e retirou uma caixa bege de uma maleta de transporte. Ele introduziu um disco flexível na caixa e ficou esperando.

Ao som da música-tema de Carruagens de Fogo, a palavra Macintosh varreu a minúscula tela daquele computador e surgiu uma série de imagens monocromáticas. A plateia formada por acionistas da Apple ficou encantada e enlouquecida.

Pelos padrões da tecnologia atual, a tela minúscula, o formato de caixa e os elementos gráficos rudimentares do Macintosh original parecem ridículos.

Aquele aparelho não foi nem mesmo o primeiro computador pessoal. Mas, sem dúvida, foi o primeiro a mudar o mundo.

O pomposo lançamento feito por Steve Jobs no Centro Flint em Cupertino, na Califórnia, passou a servir de modelo para suas muitas apresentações posteriores de aparelhos da Apple, incluindo o iMac e o iPhone.

Hoje, o Mac 128K — assim chamado porque vinha com 128 KB de RAM (na sigla em inglês, memória de acesso aleatório) — é uma peça de museu. Apple deixou de produzir o aparelho em outubro de 1985 e suspendeu sua assistência de software em 1998.

Mas um punhado de obstinados admiradores ainda usa seus computadores Mac 128K até hoje, apesar das frustrações. Afinal, essas máquinas são extremamente limitadas devido à sua pouca capacidade de memória.

Steve Jobs queria que o Macintosh fosse um computador pessoal acessível, usado por qualquer pessoa — Foto: Getty Images via BBC
Steve Jobs queria que o Macintosh fosse um computador pessoal acessível, usado por qualquer pessoa — Foto: Getty Images via BBC

Criativo e duradouro

Mesmo com sua memória diminuta, gráficos rudimentares, ausência de modem e sem possibilidade de conexão à internet, existe uma comunidade de ávidos fãs que se divertem operando esse equipamento aparentemente antiquado.

O historiador da computação David Greelish, da Flórida (EUA), lançou em janeiro um documentário sobre o predecessor do 128K, o Apple Lisa.

Ele destaca a criatividade da placa-mãe original do 128K.

"Ela tem tudo: ROM, RAM, processador e todas as entradas e saídas", conta.

"Tudo está ali em uma pequena e bela placa quadrada integrada. Para 1984, era incrível."

E, para os colecionadores, ele é uma parte da história da computação, com as assinaturas da equipe que o construiu inscritas na parte de trás do gabinete de plástico, no lado interno.

Mas alguns donos de Mac 128K usam suas valiosas máquinas para jogar games curiosos, como Frogger ou Lode Runner — tudo em preto e branco. O Macintosh II, primeiro Macintosh com tela colorida, só foi lançado em 1987.

O Centro da História da Computação de Cambridge, no Reino Unido, é uma das muitas coleções que apresentam um 128K funcionando.

"Ele tem 40 anos de idade e ainda funciona", conta a diretora do centro, Lisa McGerty.

Ela se lembra do lançamento dos computadores Macintosh como um desenvolvimento "de massa" para pessoas do setor editorial e gráfico. A impressora gráfica da Apple, ImageWriter, foi lançada pouco antes do 128K.

Adrian Page-Mitchell, colega de McGerty e responsável pelas coleções, afirma que nem sempre é fácil manter esses antigos Macintoshes funcionando.

Ele conta que um outro 128K que ficou em exibição por muito tempo no Centro da História da Computação acabou quebrando e "não pôde ser consertado".

Às vezes, os Macs demonstram sua idade de formas estranhas.

O YouTuber e colecionador de computadores Steven Matarazzo conta que um dos capacitores da máquina, às vezes, pode se degradar com o tempo. Com isso, a tela do 128K não irá funcionar corretamente — ela irá parecer levemente comprimida.

Em 2023, ele postou um vídeo no YouTube sobre um aparente protótipo do 128K. Ele não estava funcionando e seu dono pediu a Matarazzo que desse uma olhada no aparelho. Em pouco tempo, Matarazzo fez o computador voltar a funcionar.

Ele estudou detalhadamente cada centímetro daquele Mac. E ficou entusiasmado com as minúsculas diferenças entre aquele aparelho e a versão que chegou ao mercado.

Havia no protótipo, por exemplo, pequenos logos da Apple impressos sobre os pés de borracha, que não estavam presentes no design final. Essas descobertas são um pouco como uma arqueologia dos aparelhos eletrônicos.

"Você tenta juntar as peças: qual era o processo aqui, qual a idade disso, qual a idade daquilo", explica ele. "É isso que, especialmente para mim, é realmente interessante."

Apple II e o Apple Lisa, lançados antes do 128K, também pretendiam ser aparelhos intuitivos com alta capacidade. Mas cada um deles tinha suas próprias falhas ou limitações.

Apple II, por exemplo, não tinha uma interface gráfica de usuário ou mouse. Já o Lisa era muito mais caro que o 128K.

Na época do lançamento do 128K, Blatner estava no final do ensino médio. Ele procurava um computador para levar para a faculdade que tivesse a mesma capacidade das máquinas que ele havia visto na Xerox anos antes.

Seus pais o levaram às compras e eles logo encontraram um 128K à venda em uma loja no centro de Palo Alto.

"Ele tinha menus, tinha pastas, tinha uma interface gráfica de usuário, tinha um mouse", relembra ele. "Era tudo o que eu achava que um computador deveria ser."

Blatner ainda guarda a nota fiscal da compra. Seus pais pagaram pelo aparelho, em 1984, US$ 2.495.

Na faculdade, Blatner logo estaria mostrando o aparelho para seus colegas. Eles costumavam formar filas atrás dele no dormitório, aguardando uma chance de usar o computador.

"Tenho um arquivo com todas aquelas coisas malucas que imprimíamos na faculdade", ele conta. "As pessoas simplesmente adoravam."

Não foi por coincidência que aquela tecnologia refletiu as experiências anteriores de Blatner com computadores na Xerox.

Jef Raskin, que começou o projeto do Macintosh — e deu ao computador o nome da sua variedade preferida de maçã —, também havia observado a mesma tecnologia da Xerox, que serviu de inspiração.

Mais do que isso: em dezembro de 1979, Jobs e um grupo de engenheiros da Apple visitaram diversas vezes a Xerox. Eles conseguiram ideias que, mais tarde, seriam usadas no Lisa e no Macintosh.

Em troca dessas importantes demonstrações, a Xerox recebeu uma grande quantidade de ações da Apple, que foram rapidamente vendidas. A empresa perdeu a possibilidade de ganhar bilhões de dólares se tivesse mantido as ações em seu poder.

Como se sabe, Jobs acabou assumindo o projeto do Macintosh iniciado por Raskin, depois de ser excluído da equipe do Lisa. Naquela época, ele já havia desenvolvido a visão do computador pessoal acessível e decidiu que o Macintosh o ajudaria a tornar esse aparelho uma realidade.

Um dos pontos que diferenciava o Macintosh era sua apresentação. Ele não era apenas um computador pessoal — ele tinha personalidade.

A designer gráfica Susan Kare criou ícones que pareciam sair de desenhos animados e que praticamente qualquer pessoa conseguiria compreender. Ela também colaborou com a coleção de fontes digitais do Macintosh.

O Macintosh 128K ocupa até hoje um lugar especial no coração dos primeiros funcionários da Apple que trabalharam na época do seu desenvolvimento — Foto: Getty Images via BBC
O Macintosh 128K ocupa até hoje um lugar especial no coração dos primeiros funcionários da Apple que trabalharam na época do seu desenvolvimento — Foto: Getty Images via BBC

Mas grande parte do impacto causado pelo Mac foi alimentado pelo marketing e pela propaganda.

O cineasta e historiador Jason Scott trabalha no Internet Archive, uma plataforma de arquivo digital sem fins lucrativos. Ele se lembra de ter visto o anúncio original do Mac 128K na televisão quando era adolescente.

A estranha propaganda foi dirigida por Ridley Scott e ilustrava um futuro distópico inspirado pelo romance de George Orwell, 1984.

O que nos salvaria daquele futuro sombrio? O Mac 128K, é claro!

"Aquele comercial começou a passar e parecia algo totalmente vindo de Marte", relembra Scott. "Alguma coisa estava acontecendo, mas eu não entendia muito bem o quê."

Não muito tempo depois, Scott testou um Macintosh pela primeira vez e ficou maravilhado. Era, segundo ele, como observar outro mundo por um telescópio.

Ainda assim, o Mac não foi o sucesso de vendas que alguns esperavam.

"Ele não foi vendido para pessoas de negócios, como Steve acreditava que seria", relembra Andy Cunningham, que trabalhou na campanha de marketing do aparelho.

"Foi por isso, em última instância, que Steve acabou sendo despedido da Apple."

Jobs saiu da empresa em 1985, mas retornou no final dos anos 1990.

Foi apenas em 1988 que o total de vendas dos aparelhos Macintosh, incluindo diversas de suas versões posteriores, superou o do Apple II, lançado em 1977.

Macintosh SE usado entre 1988 e 1994 por Steve Jobs, cofundador da Apple — Foto: Reprodução
Macintosh SE usado entre 1988 e 1994 por Steve Jobs, cofundador da Apple — Foto: Reprodução

Mas os Macs realmente chamaram a atenção de muitas pessoas, especialmente jovens e profissionais de áreas criativas.

Cunningham e sua colega Jane Anderson ajudaram a impulsionar a publicidade do Macintosh original. Eles ofereceram seis horas com pessoas da Apple, incluindo Jobs, a jornalistas individualmente — e fizeram diversas demonstrações do aparelho para ter certeza de que eles compreenderiam o objeto das suas reportagens.

"Observei todos eles brincando com o computador e seus olhos simplesmente brilhavam", relembra Cunningham.

Seria errado afirmar que o Mac 128K era um computador perfeito. Na verdade, ele tinha sérias limitações e seu sucesso comercial inicialmente foi limitado. Mas ele deixou uma marca indelével.

A ascensão do computador pessoal, sem dúvida, foi um divisor de águas. Os computadores com gabinetes ridiculamente grandes, que você só conseguia conectar com um terminal desajeitado, agora parecem irremediavelmente antiquados.

Hoje em dia, temos máquinas portáteis, divertidas e acessíveis, que quase qualquer pessoa consegue usar.

Mas o engraçado é que a era dos computadores individuais iniciada pelo Macintosh original, de certa forma, está chegando ao fim.

No século 21, estamos ficando cada vez mais dependentes de fazendas de servidores, processamento em nuvem, grandes volumes de dados e sistemas em rede. Os computadores de outras pessoas são cada vez mais indispensáveis para podermos operar o nosso próprio equipamento.

"Estamos agora do outro lado", reflete Blatner. "Nós realmente precisamos desse período de 40 anos para capacitar e empoderar as pessoas."

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TV desatualizada? Como transformar sua televisão em smart

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Dispositivos de streaming servem para “salvar” as TVs conectadas da falta de atualização de sistema e apps dos fabricantes.
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Por Henrique Martin, g1

Postado em 30 de janeiro de 2023 às 06h00m

Post. N. - 4.825

Guia de Compras: dispositivos para streaming — Foto: Veronica Medeiros/g1
Guia de Compras: dispositivos para streaming — Foto: Veronica Medeiros/g1

As smart TVs compradas alguns anos atrás nem sempre têm acesso aos serviços de streaming mais recentes.

Isso ocorre porque, como nos celulares e computadores, as TVs precisam de atualização dos aplicativos e do próprio sistema operacional.

E nem sempre os fabricantes atualizam os modelos para os apps e sistemas mais novos, independentemente da resolução ou do tamanho da tela.

Em um caso desses, vale mais comprar um dispositivo de smart TV e economizar do que investir em um televisor novo.

O Guia de Compras selecionou sete aparelhos que, ao serem conectados à TV, trazem recursos novos e aplicativos atualizados para se divertir com filmes, séries e muito mais.

É só conectar o dispositivo direto ao televisor, no caso dos modelos que lembram um pen drive (como os da Amazon e da Xiaomi), ou o cabo HDMI nos aparelhos em formato de caixa (como os da Apple e da Roku), e curtir os serviços favoritos.

Os preços dos equipamentos variavam de R$ 210 a R$ 2.400 nas lojas on-line consultadas no final de janeiro.

Veja a lista a seguir, dividida entre aparelhos para telas 4K e Full HD. Ao final da reportagem, leia no que prestar atenção na hora da compra e instalação.

Resolução Full HD

Amazon Fire TV Stick

Resolução 4K

Amazon Fire TV 4K

Roku Express 4K

📺 CHECAR OS APPS: nem todos os serviços de streaming estão disponíveis nos produtos da lista ou demoram a ser lançados. Verifique no site do fabricante os aplicativos disponíveis.

⚠️ VELOCIDADE DE INTERNET: Para ver streaming em 4K, o indicado é ter uma conexão mais veloz em casa, de pelo menos 25 Mbps. A velocidade da sua internet pode ser testada em sites como speedtest.net e fast.com.

📡 WI-FI MAIS RÁPIDO: A rede de 5GHz, presente na maioria dos roteadores de internet sem fio domésticos, é mais recomendada para transmissão de vídeos, pois têm uma velocidade maior de transmissão de dados.

A conexão dos dispositivos de streaming à internet é feita por wi-fi, porém alguns modelos também oferecem a opção de conectar utilizando um cabo de rede padrão Ethernet.

Vale notar que a configuração do produto é auxiliada por um controle remoto que vem junto na caixa do produto ou app para smartphone (iOS ou Android), que ajudam a digitar na tela, para senha da rede sem fios e de login dos serviços de streaming.

📱 CELULAR NA TV: grande parte dos aparelhos de streaming também permite espelhar a tela do smartphone na TV com poucos toques, ótimo para mostrar fotos e vídeos para a família.

Busque pelos termos Chromecast (para enviar de celulares Android) e AirPlay (para transmitir do iPhone e outros produtos da Apple).

Esta reportagem foi produzida com total independência editorial por nosso time de jornalistas e colaboradores especializados. Caso o leitor opte por adquirir algum produto a partir de links disponibilizados, a Globo poderá auferir receita por meio de parcerias comerciais. Esclarecemos que a Globo não possui qualquer controle ou responsabilidade acerca da eventual experiência de compra, mesmo que a partir dos links disponibilizados. Questionamentos ou reclamações em relação ao produto adquirido e/ou processo de compra, pagamento e entrega deverão ser direcionados diretamente ao lojista responsável. 

Guia de compras: como escolher um tablet

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domingo, 28 de janeiro de 2024

A perigosa moda de funcionários gravarem demissão para postar no TikTok

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Especialistas alertam que transformar uma demissão em conteúdo de rede social, por melhores que sejam as intenções, pode trazer consequências profissionais de longo prazo.
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Por Lillian Stone

Postado em 28 de janeiro de 2024 às 11h00m

Post. N. - 4.824

A perigosa moda de funcionários gravarem demissão para postar no TikTok — Foto: Getty Images via BBC
A perigosa moda de funcionários gravarem demissão para postar no TikTok — Foto: Getty Images via BBC

Milhões de pessoas assistiram nas redes sociais à profissional de tecnologia Brittany Pietsch sendo demitida do emprego em uma chamada de vídeo.

Pietsch trabalhava como executiva de contas na empresa de TI americana Cloudflare. No dia 12 de janeiro, ela postou no TikTok um vídeo de nove minutos com a legenda: "Quando você sabe que vai ser demitida e grava".

O vídeo mostra a reação exaltada de Pietsch quando dois representantes da empresa, que ela não conhecia, explicam que ela não conseguiu atender às "expectativas de desempenho" e será demitida.

Durante a conversa, ela defende seu trabalho, detalhando o feedback positivo que recebeu, e tenta saber dos representantes da empresa quais são os motivos específicos que a levaram a ser cortada (mas os funcionários do outro lado da linha se recusaram a informar esses motivos).

Vídeos similares estão ganhando força no TikTok e no X (antigo Twitter), enquanto as demissões em massa continuam a causar impactos em vários setores em todo o mundo.

Em mais uma mudança do cenário atual do trabalho, muitos profissionais são demitidos em chamadas de vídeo nas suas próprias casas – uma situação desoladora para os profissionais jovens, especialmente se estiverem sendo demitidos pela primeira vez.

Alguns observadores podem considerar os vídeos de demissão transparentes e empoderadores, especialmente quando conseguem se identificar com essa experiência. E a seção de comentários também pode ser um lugar para oferecer conselhos profissionais sobre como superar uma demissão.

No caso de Pietsch, ela gravou e divulgou a demissão "para poder compartilhar o que aconteceu com a família e os amigos", segundo declarou ao The Wall Street Journal, em 16 de janeiro.

Mas especialistas alertam que transformar uma demissão em conteúdo de rede social, por melhores que sejam as intenções, pode trazer consequências profissionais de longo prazo.

A hashtag #layoffs (demissões) no TikTok já atraiu mais de 366 milhões de visualizações.

Esse pico de interesse é totalmente esperado. Afinal, as demissões em massa no setor de tecnologia em 2023 invadiram o ano novo.

Google, Amazon e outras gigantes da tecnologia reduziram seus quadros de funcionários de 1° de janeiro para cá. E demissões em empresas de comunicação continuam a atingir milhares de pessoas.

Para os profissionais da geração Z (os que nasceram entre 1995 e 2010) que estão no centro da tendência das demissões ao vivo, os vídeos podem ser interpretados como extensões do conteúdo sobre sua vida cotidiana, publicado na forma de vídeos Get Ready With Me (GRWM – "apronte-se comigo", em tradução livre). Nesta seção do TikTok, os criadores de conteúdo apresentam suas rotinas diárias aos seus seguidores.

Os criadores ganham exposição oferecendo ao público a oportunidade de observar sua vida diária. E, seguindo esse padrão, a demissão do emprego pode ser algo perfeitamente normal para ser compartilhado nas redes sociais.

As demissões simplesmente podem gerar bom conteúdo, perfeitamente alinhado aos formatos de formação de tendências e temas relativos ao zeitgeist (o espírito da época).

Para os espectadores, os vídeos oferecem uma forma de se sentirem menos sozinhos em um novo mundo do trabalho, com demissões ocorrendo frequentemente em chamadas de vídeo de 10 minutos no home office do funcionário, em vez da privacidade de uma sala de conferências sem janelas.

O vídeo de Pietsch gerou comentários de apoio e empatia.

"Sinto muito por ouvir isso", escreve um espectador. "Fui demitido depois de sete anos de lealdade a uma empresa na qual trabalhei. Aquilo literalmente me matou."

Outra pessoa escreve: "As empresas não se importam com você, então também podemos constranger essas pessoas".

À parte do seu valor como entretenimento, esse tipo de conteúdo também reflete o panorama profissional de momento, depois da mudança de poder favorável aos funcionários, especialmente em meados do ano passado.

Ao lado dos movimentos trabalhistas, como o "verão de greves" de 2023 (um período de atividade sindical generalizada com grande repercussão nos EUA e no Reino Unido, com os trabalhadores conseguindo acordos em níveis recorde), os vídeos de demissão ao vivo questionam o padrão segundo o qual os empregadores sempre detêm o poder.

Os vídeos também refletem a ideia de que os profissionais estão menos preocupados em proteger um padrão de profissionalismo possivelmente ultrapassado e mais motivados para promover a mobilização e a solidariedade no ambiente de trabalho.

E, para muitos desses criadores de conteúdo, isso significa responsabilizar os empregadores, mesmo depois que os profissionais deixam de fazer parte da sua folha de pagamento.

Farah Sharghi é recrutadora da área de tecnologia, criadora de conteúdo e coach profissional de São Francisco, nos Estados Unidos. Ela acredita que os vídeos de demissão são uma consequência natural de um mercado de trabalho tumultuado na era das redes sociais.

"O compartilhamento público de experiências de demissão em plataformas como o TikTok reflete uma mudança para maior transparência e o desejo de compartilhar histórias pessoais em um mundo digital", segundo Sharghi.

"Isso também destaca o impacto profissional e emocional das decisões corporativas sobre os indivíduos", prossegue ela. "Uma coisa é falar sobre a demissão – outra é passar pela experiência em tempo real, junto com a pessoa que sofreu o impacto."

Sharghi afirma que vídeos como o de Pietsch podem expressar uma sensação cada vez maior de insatisfação com as relações entre empregados e empregadores.

"A empresa [pode tentar] transferir a culpa da demissão para o funcionário – quando, na realidade, se for uma demissão em massa, pode ser falha de administração ou avanços tecnológicos que estão trazendo mudanças", explica ela. "Esses vídeos estão expondo as falhas das empresas."

Poste com cautela

A ira dos criadores de vídeos de demissões pode ser justificada, mas analistas aconselham os jovens profissionais a reconsiderar sua abordagem. Eles chegam a criticar esses profissionais como sendo ingênuos e precipitados.

No X, a comentarista conservadora Candace Owens chamou Pietsch de "jovem e estúpida" depois que seu vídeo viralizou.

"Agora, qualquer empresa que pesquisar Brittany Pietsch no Google irá encontrar esse vídeo da gravação secreta da empresa em que ela trabalhava, expondo-os por fazerem seu trabalho. Inacreditavelmente inconsequente", escreveu ela.

Outro comentarista criticou Pietsch e a Cloudflare, considerando que ambos agiram mal. Para ele, "ser demitido é difícil, mas é importante enfrentar a situação com dignidade. Demitir alguém também é difícil e exige compaixão e respeito. Total desastre de ambas as partes, neste caso."

Sharghi não concorda com as posições extremistas, mas recomenda cautela.

"Embora esses vídeos possam oferecer apoio e solidariedade, eles também têm o potencial de prejudicar as perspectivas profissionais futuras daquela pessoa. As grandes empresas de tecnologia, por exemplo, formam um mundo pequeno no topo [das companhias] e, se um desses vídeos viralizar, é mais do que provável que um recrutador, um gerente de contratações ou um entrevistador tenha visto."

As empresas podem pensar duas vezes antes de contratar um candidato que poderá "expor publicamente o trabalho interno da companhia", afirma ela.

Este, de certa forma, é um caso de assertividade extrema nas redes sociais, que pode fazer o gerente parar para pensar antes de contratar um funcionário. E, em alguns casos, esses vídeos podem até colocar seus criadores em dificuldades.

Antes de seguir o impulso de postar, Sharghi recomenda que os indivíduos demitidos verifiquem seus acordos de rescisão. Eles podem conter cláusulas de não depreciação ou limitações à discussão das suas experiências na empresa.

Nos Estados Unidos, a Junta Nacional de Relações Trabalhistas determinou em 2023 que as cláusulas de não depreciação em acordos de rescisão profissional são ilegais. Mas existem exceções a esta regra, como divulgar segredos da companhia ou prestar declarações falsas e mal-intencionadas.

"Divulgar publicamente detalhes sobre o processo de demissão, especialmente se retratarem a empresa de forma negativa, pode representar uma quebra dessas cláusulas", adverte Sharghi.

Em resumo, a mensagem dos especialistas é esta: faça uma pausa antes de postar. Qual é o objetivo deste vídeo e quais são suas possíveis ramificações?

Se existe algo a se aprender com a hashtag #layoffs no TikTok, é que a noção dos trabalhadores sobre a sua imagem profissional passa por mudanças importantes – e criadores de conteúdo como Brittany Pietsch estão conduzindo essas mudanças.

Pietsch declarou ao The Wall Street Journal que não se arrepende e que outros profissionais estão dizendo a ela: "gostaria ter me defendido como você fez".

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