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terça-feira, 4 de abril de 2023

Qual a diferença entre o TikTok e o Douyin, versão do app usada na China

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Especialistas definem os dois aplicativos de rede social como 'irmãos gêmeos separados no nascimento' — mas não são idênticos.
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TOPO
Por BBC

Postado em 04 de abril de 2023 às 16h10m

Post. N. - 4.591

Aplicativo chinês TikTok — Foto: Getty Images via BBC
Aplicativo chinês TikTok — Foto: Getty Images via BBC

Estamos no verão de 2016 no hemisfério norte, e uma revolução está se formando nos escritórios da ByteDance na China.

Um grupo de desenvolvedores, liderado pelo empresário Zhang Yiming, está finalizando um aplicativo com o qual espera conquistar o incipiente mercado de plataformas de vídeos curtos.

O tão esperado lançamento acontece em setembro.

Eles decidem chamar o aplicativo de Douyin e, em menos de um ano, ele alcança mais de 100 milhões de usuários.

O nome não soa familiar?

Douyin é a versão do TikTok usada na China, seu "irmão gêmeo". A ByteDance decidiu lançar o aplicativo com o nome de TikTok no Ocidente.

Só o TikTok já foi baixado mais de 3,5 bilhões de vezes, impulsionado por um algoritmo habilidoso que nos prende irremediavelmente à tela, gerando preocupações.

A ferramenta coleta muitas informações: sua idade, localização, dispositivo e até seu ritmo de digitação.

Não é de se espantar que tenha levantado suspeitas por parte de vários governos, especialmente pelos supostos vínculos da empresa com o Partido Comunista chinês e as denúncias de que o mesmo usa o TikTok para espionagem e "lavagem cerebral".

Essas preocupações são agravadas pelo que está acontecendo com a versão chinesa do TikTok, o Douyin, um aplicativo fortemente censurado e, segundo várias reportagens, desenvolvido para incentivar a viralização de material didático e não conflituoso.

Mas o que mais sabemos sobre o Douyin? E como ele se diferencia do TikTok?

Como surgiu o Douyin

O Douyin domina o mercado de aplicativos de vídeos curtos na China.

"No final de 2022, tinha 730 milhões de usuários", diz Zizheng Yu, professor de publicidade e marketing da Universidade de Greenwich, no Reino Unido.

Como Yu explica em artigo publicado no site de notícias acadêmicas The Conversation, Douyin e TikTok são essencialmente o mesmo aplicativo, ambos permitindo que seus usuários criem, compartilhem e assistam a vídeos curtos.

O logotipo de ambas as ferramentas é o mesmo, e elas compartilham a mesma empresa-controladora, a ByteDance.

O Douyin e o TikTok foram desenvolvidos durante a gestão de Zhang Yiming como CEO da ByteDance, um dos desenvolvedores de aplicativos mais poderosos do mundo — Foto: Getty Images via BBC
O Douyin e o TikTok foram desenvolvidos durante a gestão de Zhang Yiming como CEO da ByteDance, um dos desenvolvedores de aplicativos mais poderosos do mundo — Foto: Getty Images via BBC

Quando foi lançado em 2016, o Douyin logo se destacou com conteúdo novo e bem-humorado.

Brincadeiras simples como a sincronização labial — também conhecida como lip sync — enquanto a música do momento tocava se espalharam rapidamente.

Então vieram os desafios virais, e houve um crescimento meteórico na popularidade do aplicativo.

"No início, era para os jovens compartilharem e assistirem a vídeos de música curtos. Agora se expandiu, e vários estilos surgiram, como vídeos de média e longa duração", explica Nara Bi, do Nanjing Marketing Group, na China, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

"A plataforma oferece uma ampla variedade de categorias, incluindo entretenimento, notícias, comentários, gastronomia, animais de estimação, saúde e conteúdo educacional", acrescenta.

Conteúdos que, por sua vez, também se popularizaram no TikTok nos últimos anos.

Ao estilo dos aplicativos chineses mais populares com vários recursos, como é o caso do WeChat, o Douyin permite entrega de comida e recomendações de restaurantes locais, por exemplo - um leque de possibilidades que o TikTok não oferece no momento.

'Dois gêmeos separados no nascimento'

Em seu livro TikTok Boom, o jornalista britânico Chris Stokel-Walker cita um grupo de acadêmicos para definir a relação entre o TikTok e sua versão chinesa, o Douyin.

"Eles são como duas plataformas gêmeas separadas no nascimento, desenvolvidas sob o mesmo teto, mas implementadas em dois contextos muito diferentes."

Nara Bi cita algumas das particularidades que levaram ao lançamento do TikTok para os mercados internacionais.

"Cada país tem políticas e regulamentos diferentes, especialmente a China, com mecanismos regulatórios únicos. Também há algumas restrições para usuários chineses quando acessam sites estrangeiros", diz ela à BBC.

A transmissão ao vivo está disponível no Douyin desde o lançamento do aplicativo, algo que o TikTok só implementaria anos depois — Foto: Getty Images via BBC
A transmissão ao vivo está disponível no Douyin desde o lançamento do aplicativo, algo que o TikTok só implementaria anos depois — Foto: Getty Images via BBC

"Portanto, o Douyin é exclusivo da China, enquanto o TikTok é para países estrangeiros", acrescenta a especialista em marketing.

O TikTok foi lançado logo após o Douyin, em 2017, se popularizando primeiro em outros mercados asiáticos, como Japão, Tailândia, Vietnã e Índia.

O Tenba Group, uma agência especializada em marketing digital chinês, explica que "por ter duas plataformas separadas, a ByteDance pode permitir mais conteúdo gerado por usuários no TikTok e cumprir com as restrições exigidas no Douyin".

Como o Douyin se diferencia do TikTok?

Navegar em ambos os aplicativos é praticamente a mesma experiência: layouts idênticos e menus simples que facilitam a criação, reprodução e localização de vídeos.

Mas há várias diferenças.

A primeira é que são aplicativos diferentes. Em outras palavras, abrir uma conta no TikTok não é o mesmo que abrir uma conta no Douyin.

Quando eles foram lançados, a transmissão ao vivo estava mais estabelecida na China do que no Ocidente. Por isso, desde o início, o Douyin incentivou lives entre seus usuários. O TikTok só disponibilizaria essa função com a chegada dos lockdowns impostos pela pandemia de Covid-19.

Da mesma forma, as doações para criadores de conteúdo no Douyin são tradicionalmente mais comuns do que no TikTok.

Outra diferença fundamental é onde os dados são armazenados. Com o TikTok ou qualquer outra rede social, a maioria de nós assume seu uso por meio de um acordo nada secreto: oferecemos informações pessoais em troca de entretenimento.

A possibilidade de os donos do TikTok compartilharem os dados coletados com o governo chinês é uma das principais preocupações que o aplicativo gera entre usuários e governos, sobretudo no Ocidente.

Uma das peculiaridades do Douyin em relação ao TikTok é sua multifuncionalidade, incluindo a possibilidade de fazer compras diretamente no aplicativo — Foto: Getty Images via BBC
Uma das peculiaridades do Douyin em relação ao TikTok é sua multifuncionalidade, incluindo a possibilidade de fazer compras diretamente no aplicativo — Foto: Getty Images via BBC

Mas essa relação entre o TikTok e a China não foi comprovada. Supostamente, os dados do TikTok são armazenados fora do gigante asiático.

Nos Estados Unidos, por exemplo, as informações se encontram em uma base de dados no estado da Virgínia com backup em Cingapura.

O Douyin, por outro lado, armazena seus dados na China.

"Da mesma forma, o Douyin segue as leis chinesas de proteção de dados, enquanto o TikTok cumpre as regulamentações de outros países", explica Bi.

O Tenba Group também destaca a diferença de idade dos usuários.

"Os (usuários) do Douyin continuam sendo jovens, mas um pouco mais velhos do que os do TikTok. É por isso que o Douyin oferece mais conteúdo sobre estilo de vida, dicas de negócios e até vídeos de autoridades locais."

As hashtags e tendências do TikTok também variam de acordo com a localização e as diferenças culturais.

Voltando à multifuncionalidade do Douyin, as agências de marketing digital destacam tudo o que pode ser feito no aplicativo, além de publicar e interagir com vídeos como no TikTok.

Por exemplo, desde 2021, o Tenba Group diz que os usuários podem comprar produtos diretamente em lojas nativas ou até mesmo em transmissões ao vivo.

"O comércio eletrônico está se tornando cada vez mais popular dentro do Douyin, você pode até mesmo reservar hotéis e fazer tours em restaurantes", afirma.

Censura e controle de idade

O Tenba Group destaca a maior presença de vídeos educativos e voltados para negócios no Douyin, enquanto observa que o TikTok é mais focado em música e dança, "provavelmente devido ao público um pouco mais jovem".

Neste sentido, o Douyin também parece ser afetado pela forte censura que existe em todas as redes sociais na China, com um exército de policiais na internet que apaga conteúdos críticos ao governo ou que possam incitar instabilidade política.

Em 2019, enquanto o TikTok começava sua grande ascensão internacional, a conta da usuária Feroza Aziz foi suspensa após ela falar sobre o tratamento dado por Pequim aos muçulmanos uigures da Província de Xinjiang.

Em 2019, a criadora de conteúdo Feroza Aziz foi censurada no TikTok após publicar um vídeo sobre a situação dos muçulmanos uigures na China — Foto: Reprodução/ BBC
Em 2019, a criadora de conteúdo Feroza Aziz foi censurada no TikTok após publicar um vídeo sobre a situação dos muçulmanos uigures na China — Foto: Reprodução/ BBC

A decisão gerou fortes críticas, e o TikTok se desculpou e restabeleceu a conta.

Desde então, não parece ter havido muitos outros casos de censura, além de certas decisões controversas de moderação de conteúdo comuns em todas as plataformas.

Os pesquisadores do Citizen Lab realizaram uma comparação entre o TikTok e o Douyin e concluíram que o TikTok não aplica a mesma censura política que sua versão chinesa.

No entanto, os usuários relataram um fenômeno conhecido como "shadow banning", uma espécie de censura encoberta que faz com que alguns conteúdos tenham menos impacto e sejam menos promovidos pela plataforma.

Dois aplicativos na mira

Ambas as plataformas enfrentam críticas de usuários, instituições e meios de comunicação.

"O Douyin foi criticado por material vulgar, enquanto o TikTok foi criticado por questões de privacidade, suposta censura e disseminação de desinformação", diz Bi à BBC.

A especialista observa que o Douyin tem sido criticado na China por prejudicar os jovens com um algoritmo que apresenta continuamente conteúdos que interessam a eles, em vez de conteúdos que sejam bons para eles.

“Isso pode deixar os usuários presos em uma câmera, expostos a um alcance limitado de ideias e perspectivas. Eles podem se tornar mais suscetíveis à influência do conteúdo que veem e perder a capacidade de pensar criticamente”, avalia Bi.

O TikTok e o Douyin foram criticados, entre outras questões, pela suposta censura de conteúdo — Foto: Getty Images via BBC
O TikTok e o Douyin foram criticados, entre outras questões, pela suposta censura de conteúdo — Foto: Getty Images via BBC

Essas críticas levaram o Douyin a habilitar uma seção na aba "Descobrir" que tampouco vemos no TikTok.

Chama-se zheng nengliang, que pode ser traduzida como "energia positiva", e exibe vídeos promovendo o Partido Comunista chinês e seus ideais sociais, segundo conta Stokel-Walker em seu livro sobre o TikTok.

"Acadêmicos e analistas chamaram isso de 'tática de sobrevivência', aplacando políticos que poderiam fechar o negócio por capricho (...) Isso mostrou como, apesar do mesmo mecanismo que roda os dois aplicativos, havia diferenças fundamentais entre eles em termos de ambientes operacionais muito distintos", escreveu Stokel-Walker.

As preocupações em relação ao nível de dependência que a plataforma pode gerar em menores de idade também tem sido alvo frequente de críticas.

Em 2019, o Douyin limitou o uso do "modo adolescente" a 40 minutos por dia — e acessível apenas entre 6h e 22h. Depois, em 2021, esse modo adolescente se tornou obrigatório para usuários menores de 14 anos.

Esses tipos de medidas demoraram um pouco mais para chegar ao TikTok. Só no início de março deste ano que a plataforma anunciou que implementaria um limite padrão de 60 minutos por dia para usuários menores de 18 anos.

Além disso, menores de 13 anos precisariam de um código inserido pelos pais para usar o aplicativo por mais 30 minutos.

Não está completamente claro, no entanto, como é viável cumprir essas limitações.

Assista:

Antes e depois do Bold Glamour: filtro do TikTok que usa inteligência artificialAntes e depois do Bold Glamour: filtro do TikTok que usa inteligência artificial
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domingo, 2 de abril de 2023

Lançado há 50 anos, 'tijolão' da Motorola foi o primeiro celular do mundo; inventor critica vício aos aparelhos

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Engenheiro americano Martin Cooper, de 94 anos, fez a primeira chamada móvel em 1973, com um pesado bloco com fios e circuitos.
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TOPO
Por France Presse

Postado em 02 de abril de 2023 às 13h10m

Post. N. - 4.590

Inventor do celular critica vício aos aparelhosInventor do celular critica vício aos aparelhos

"O problema com os celulares é que as pessoas não param de olhar para eles". Essa é opinião de Martin Cooper, de 94 anos, o homem que inventou esses aparelhos, há 50 anos, em 3 de abril de 1973.

O engenheiro americano que ganhou o apelido de "Pai do Celular", diz que o aparelho tem um potencial virtualmente ilimitado e que, um dia, pode ajudar na batalha contra algumas doenças. Mas, neste momento, podemos estar um pouco obcecados por eles.

"Quando vejo alguém atravessando a rua olhando para o telefone, eu me sinto péssimo. Eles não estão pensando", disse Cooper à AFP. "Mas depois que várias pessoas forem atropeladas, vão entender", brincou.

Cooper tem um Apple Watch e o iPhone mais recente, no qual ele pula, intuitivamente, de seu e-mail para suas fotos, para o YouTube e para o controle de seu aparelho auditivo.

Ele troca o aparelho a cada nova versão, a qual submete a uma análise minuciosa. Reconhece, no entanto, que, com milhões de aplicativos disponíveis, pode ser demais.

"Nunca vou aprender a usar um telefone celular da mesma forma que meus netos e bisnetos, afirma.

Martin Cooper, apelidado de 'Pai do Celular' — Foto: Valerie Macon/ AFP
Martin Cooper, apelidado de 'Pai do Celular' — Foto: Valerie Macon/ AFP

Mobilidade real

O iPhone de Cooper, que ele usa essencialmente para ligações, é uma versão bem distante do pesado bloco com fios e circuitos usado para fazer a primeira chamada móvel, em 3 de abril de 1973.

Na época, ele trabalhava para a Motorola, liderando uma equipe de designers e engenheiros em uma corrida para produzir a primeira tecnologia verdadeiramente móvel e evitar ficar de fora de um mercado emergente.

A empresa havia investido milhões de dólares no projeto, com a esperança de derrotar a Bell System, um gigante que dominou as telecomunicações nos Estados Unidos desde sua criação em 1877.

Os engenheiros da Bell lançaram a ideia de um sistema de telefonia celular logo após a Segunda Guerra Mundial e, no final da década de 1960, conseguiram colocar telefones em veículos, em parte por causa da enorme bateria necessária para funcionar.

Para Cooper, isso não era mobilidade real. No final de 1972, ele decidiu que queria um dispositivo que as pessoas pudessem usar em qualquer lugar.

Com os recursos da Motorola, reuniu especialistas em semicondutores, transistores, filtros e antenas, que trabalharam sem parar por três meses.

No final de março, a equipe revelou o modelo DynaTAC (acrônimo para Cobertura Dinâmica e Adaptativa de Área Total).

"Esse telefone pesava mais de um quilo e tinha bateria para 25 minutos de conversação", lembra. "Mas este último não foi um problema. O telefone era tão pesado que você não conseguia segurá-lo por mais de 25 minutos", completa.

Essa primeira ligação não precisava ser longa. Bastava ser bem-sucedida. E que melhor destinatário do que o rival?

"Eu estava na Sexta Avenida [em Nova York] e me ocorreu ligar para meu concorrente na Bell System, o doutor Joel Engel".

"E eu disse: 'Joel, aqui é Martin Cooper. Estou ligando de um celular de mão. Mas um celular de mão de verdade, pessoal, portátil, de mão. Houve um silêncio do outro lado da linha. Acho que ele estava rangendo os dentes", contou.

Motorola DynaTAC, primeiro celular do mundo — Foto: VALERIE MACON/AFP
Motorola DynaTAC, primeiro celular do mundo — Foto: VALERIE MACON/AFP

Avaliados em US$ 5 mil (em torno de R$ 131 mil), os primeiros telefones celulares definitivamente não eram baratos, mas trouxeram benefícios para seus primeiros usuários, que, segundo Cooper, incluíam pessoas no ramo imobiliário.

"Acontece que quem trabalha com imóveis, mostra casas, ou recebe novos clientes, pelo telefone (...) Agora, eles podiam fazer as duas coisas ao mesmo tempo, o que dobrou sua produtividade", explicou.

"O telefone celular se tornou uma extensão da pessoa, pode fazer tantas coisas", disse Cooper.

Desafios

"E estamos apenas no começo. Estamos apenas começando a entender o que ele pode fazer. No futuro, esperamos que o telefone celular revolucione a educação. Ele revolucionará a área médica", antecipa. "Sei que parece exagero, mas em uma, ou duas, gerações vamos vencer doenças", completou.

Assim como seu relógio monitora sua frequência cardíaca enquanto nada, e seu telefone controla seus aparelhos auditivos, os celulares um dia estarão conectados a uma série de sensores corporais que detectarão doenças antes que elas se desenvolvam.

Entre aquele tijolo cinco décadas atrás e os aparelhos atuais, a distância é gigantesca. Cooper sempre soube, no entanto, que o dispositivo que ele e sua equipe criaram mudaria o mundo.

"Sabíamos que um dia todos teriam celulares. Estamos quase lá. Há mais assinaturas de celular no mundo do que pessoas. Então, parte do nosso sonho se tornou realidade", afirmou.

Com frequência, novas tecnologias trazem desafios. "Quando surgiu a televisão, as pessoas ficavam hipnotizadas. Mas, de alguma maneira, (...) conseguimos entender que há uma qualidade associada a assistir televisão", observou.

Segundo ele, estamos na fase de olhar nossos telefones sem pensar, mas isso não vai durar.

"Cada geração é mais inteligente do que a anterior. Eles aprenderão a usar o celular com mais eficiência. Mais cedo, ou mais tarde, os humanos vão descobrir isso", completou.

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sábado, 1 de abril de 2023

Brasileiros recebem prêmio da Nasa por projeto de IA

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Grupo desenvolveu sistema baseado em inteligência artificial para identificar vazamentos de óleo nos oceanos. De acordo com um dos criadores, intenção é buscar apoio governamental para implantar a plataforma.
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TOPO
Por Deutsche Welle

Postado em 01 de abril de 2023 às 18h20m

Post. N. - 4.589

Brasileiros recebem prêmio da Nasa por projeto de IA — Foto: Divulgação/DW
Brasileiros recebem prêmio da Nasa por projeto de IA — Foto: Divulgação/DW

Na mitologia grega, Poseidon é o Deus que protege as águas. E foi este o nome escolhido por um grupo de brasileiros para um sistema que pretende utilizar imagens de satélite, inteligência artificial e algoritmos para detectar a existência de manchas causadas por vazamentos de óleo nos oceanos.

A ideia foi uma das vencedoras do Nasa Space Apps Challenge, uma competição internacional que busca ideias inovadoras, a partir de dados produzidos pela agência espacial americana, para resolver desafios tanto espaciais quanto terrestres. A premiação ocorreu em meados de março na sede da Nasa em Washington, capital dos Estados Unidos.

O grupo brasileiro foi formado com o objetivo de participar do concurso. Dois deles já se conheciam de uma competição anterior, realizada pela IBM. Os demais foram recrutados para o projeto. Recém-formados em áreas ligadas a tecnologia e informática, todos já atuavam na iniciativa privada.

Pelo regulamento da competição da Nasa, todo o projeto foi desenvolvido em 48 horas, na data estipulada para o certame, em 2019. Funcionou assim: eles souberam do desafio e, a partir de então, tiveram o prazo estabelecido para apresentarem uma solução.

De acordo com as informações do projeto inscrito no site da Nasa, uma API — sigla em inglês para interface de programação de aplicação — poderia cruzar informações captadas por satélites e, com uso de algoritmos e inteligência artificial, localizar com agilidade os pontos com vazamento de óleo em alto mar.

Segundo o descritivo do projeto, a API "poderia ser consultada por governos e terceiros" e essa detecção serviria para que órgãos competentes sejam capazes de "atuar rapidamente em resposta, minimizando o desastre ambiental e o impacto socioeconômico".

Como funciona

Em entrevista à DW Brasil, o designer, programador e empreendedor Felipe Ribeiro Tanso, um dos membros da equipe vencedora, esclarece o funcionamento do mecanismo.

"Ela possui uma inteligência artificial que checa imagens capturadas via satélite e retorna a probabilidade de haver manchas de óleo em uma determinada região do oceano, alertando os órgãos responsáveis pela fiscalização e mitigação desses acidentes. Dessa forma, o nosso objetivo é diminuir os impactos socioeconômicos e ambientais que tais desastres podem vir afetar a vida de milhões de pessoas", explica.

Como a proposta foi concretizada em forma de API, o sistema pode ser absorvido por outros softwares ou aplicativos, tornando-se facilmente aplicável. "Isso permite com que outras ferramentas possam utiliza nossa solução como algo dentro de seus próprios sistemas", explica Tanso.

O tecnólogo e cientista de dados Ricardo Ramos, outro integrante da equipe, conta que o método desenvolvido por eles se baseia nas chamadas "redes neurais". Mas houve um aprimoramento. "Acrescentamos atalhos para saltar duas ou três camadas [no andamento] para tornar o processo mais rápido", comenta.

Dos cinco envolvidos no grupo desenvolvedor do projeto, apenas três compareceram à premiação. Segundo Tanso, a agenda incluiu dois dias completos na sede da Nasa, "com reconhecimento e a possibilidade de ter o contato mais próximo com cientistas brilhantes e responsáveis por diversas missões relacionadas à exploração espacial, como a missão Artemis, que tem como objetivo levar o homem de volta à Lua".

"Foi incrível", acrescenta ele. "Só o fato de estar em Washington e ser recebido na sede da Nasa foi uma conquista enorme e emocionante. Foi como um sonho de criança sendo realizado. Assuntos espaciais sempre me chamaram a atenção e chegar até lá teve um apelo muito sentimental para mim."

Pandemia e atraso

A equipe vencedora lamenta, contudo, que o sistema ainda não esteja em uso. E, nesse ponto, nem dá para atribuir a não adoção da plataforma pela novidade do desenvolvimento. Afinal, o prêmio da Nasa está reconhecendo um projeto de 2019 — originalmente, os brasileiros seriam condecorados em 2020, mas a pandemia de covid suspendeu o cronograma da época.

"Não conseguimos ainda implementar essa tecnologia em nenhum setor para funcionar de forma real", afirma Tanso. "O nosso objetivo sempre foi ter o apoio governamental para implementar isso como uma solução que pudesse, de alguma forma, ajudar o nosso país, e não apenas servir como um produto privado."

Ele destaca que "uma das coisas brilhantes" dessa iniciativa da agência espacial americana é "justamente a causa social de como podemos impactar e melhorar a vida do homem na Terra ou fora dela". "Então, do meu ponto de vista, empatia é uma das principais características para se construir soluções eficazes e que atendam a grande parte dos desafios", comenta.

"A maior dificuldade para isso na época foi de fato a pandemia, a atenção e o foco acabaram se perdendo, o que impactou não apenas a rotina da equipe como também das empresas e do governo", enumera. "Do ponto de vista técnico, existe também a dificuldade em lidar com grandes dados fornecidos pelas agências espaciais que acabam necessitando de recursos financeiros e tecnológicos mais avançados para lidar, tratar e filtrar essa grande quantidade de dados."

"[A Poseidon] não está sendo utilizada, infelizmente", afirma Ramos. "Nosso objetivo inicial era conseguir atuar junto o algum órgão governamental".

A viagem de premiação reanimou as expectativas do grupo. "Nosso próximo passo agora é fazer contato com a Nasa e tentar algum programa de estágio internamente", diz Tanso. "De repente podemos compreender mais sobre os dados que eles possuem, as ferramentas, e expandir a solução. Nosso objetivo sempre foi social. Nunca foi tornar o projeto algo que de fato fosse rentável ou pudesse mudar nossas vidas, mas sim queremos ajudar pessoas."

Petroleiro Bouboulina

"No momento em que decidimos fazer um projeto voltado ao vazamento de óleo, estávamos com o intuito de sanar uma dor que o Brasil sentia naquela situação", ressalta Ramos.

O texto do projeto menciona que "todos os anos milhares de toneladas de óleo são despejadas nos oceanos". "No Brasil, nós recentemente fomos afetados por uma imensa e misteriosa mancha de óleo", prossegue o texto, dizendo que "o desastre estava afetando a biodiversidade do Atlântico Sul e prejudicando socioeconomicamente as regiões afetadas".

A referência era às manchas de óleo que misteriosamente apareceram no litoral brasileiro a partir de 30 de agosto de 2019, uma poluição que se espalhou por mais de 3 mil quilômetros da costa, do Maranhão ao norte do Rio de Janeiro. Mais tarde, investigações concluíram que o dano havia sido causado pelo petroleiro Bouboulina, de bandeira grega, embarcação carregada na Venezuela e com destino à África do Sul.

"A pandemia acabou dificultando os planos da viagem", comenta Tanso. "A princípio nossa viagem estava programada para 2020 com o objetivo de acompanhar o lançamento espacial do rover Perseverence, no cabo Canaveral, na Flórida. Com o fechamento dos aeroportos e a saúde em risco, a visita foi adiada até este ano de 2023, com a mudança do cronograma e local para Washington."

Ele conta que, na época, havia apoio de algumas empresas que patrocinariam a viagem, já que a Nasa "não se envolve em nenhuma responsabilidade financeira". "Isso, infelizmente, também acabou sendo prejudicado", relata.