"Eu costumava ouvir shows de rádio e eles começaram a falar sobre
criptomoedas e bitcoins, então me interessei", diz ela. "Naquela época,
era tudo muito complicado, mas dei um jeito de entender o processo e
comprar."
Rhonda, que vive nos Estado americano de Illinois, gastou parte do seu
dinheiro digital no ano seguinte à compra e depois acabou esquecendo o
assunto.
Mas quando ela viu as manchetes do final de 2017 anunciando que o valor
individual do bitcoin havia alcançado quase US$ 20 mil ela correu para o
computador para resgatar o que havia investido. Mas havia um problema.
Rhonda não se lembrava de alguns detalhes do login para acessar sua
carteira de bitcoin- um programa de computador que armazena uma série de
números secretos ou chaves particulares.
"Eu
tinha um pedaço de papel com minha senha, mas não tinha ideia de qual
era o ID da minha carteira", conta. "Foi horrível. Eu tentei tudo por
meses, mas não consegui entrar. Então, acabei desistindo."
Rhonda Kampert (à esquerda) usou suas bitcoins resgatadas para pagar
custos associados à faculdade da filha dela, Megan — Foto: Arquivo
pessoal via BBC
Caçadores de tesouro
Em meados de abril do ano passado, o valor do bitcoin alcançou mais de US$ 50 mil – mais de 600 vezes o que Rhonda pagou oito anos antes.
Com um incentivo a mais para encontrar suas bitcoins, ela passou a
pesquisar como fazer isso na internet e encontrou Chris e Charlie
Brooks, pai e filho que trabalham como caçadores de criptomoedas.
"Depois de conversar com eles online por um tempo senti confiança para
passar os detalhes de login de que eu ainda me lembrava. Aí, comecei a
esperar", diz.
"Eventualmente, fizemos uma chamada de vídeo e eu assisti ao processo.
Chris abriu a minha carteira e os bitcoins estavam lá. Eu me senti tão
aliviada!".
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Charlie e Chris Brooks dizem que encontraram milhões em bitcoins perdidos — Foto: Arquivo pessoal via BBC
A carteira de Rhonda, com três criptomoedas e meia, valia, na ocasião, US$ 175 mil.
"Eu dei os 20% combinados a Chris e Charlie. Depois, a primeira coisa
que eu fiz foi sacar US$ 10 mil para ajudar a pagar a faculdade da minha
filha, Megan", diz.
Ela diz que está guardando o restante numa carteira de hardware – um
dispositivo semelhante a um pendrive que armazena os detalhes de login
de Rhonda offline. A senha de login para acessar a nova carteira de
hardware está gravada na memória dela.
Rhonda espera que os bitcoins, que agora valem US$ 43 mil cada, subam
de valor novamente. Ela considera essas economias como um fundo de
aposentadoria, para usar quando parar de trabalhar como corretora de
ações e criptomoedas.
Bilhões perdidos
Há várias Rhondas por aí que precisam de ajuda para recuperar suas criptomoedas. Uma estimativa da Chainanalysis,
que pesquisa criptomoedas, sugere que dos 18,9 milhões de bitcoins em
circulação, 3,7 milhões tenham sido perdidos pelos seus donos.
E no mundo descentralizado das criptomoedas não há encarregados pelo
sistema – então se você esquece seus detalhes de login da carteira não
há muitas alternativas para resgatar o dinheiro.
Chris e Charlie estimam que serviços como os que oferecem, que usam
computadores para tentar centenas de milhares de possibilidades de ID e
senhas, poderiam recuperar 2,5% dos bitcoins perdidos- um valor que
alcança US$ 3,9 bilhões.
Chris começou seu negócio, o Crypto Asset Recovery, em 2017, mas
interrompeu e focou em outros projetos por tempo. Foi numa conversa com o
filho, Charlie, há pouco mais de um ano, que ele decidiu reviver a
Crypto Asster Recovery.
"Tivemos
a ideia de retomar o negócio, então nas semanas que se seguiram,
compramos vários servidores de computador e reativamos tudo", conta
Charlie, que hoje tem 20 anos.
Trabalhando da casa de praia da família em New Hampshire, na
Inglaterra, pai e filho começaram a receber mais de 100 e-mails e
ligações por dia de potenciais clientes quando o preço do bitcoin subiu
pela última vez, em novembro de 2021.
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Bitcoin — Foto: Divulgação
Agora que os valores caíram um pouco eles estão tentando adiantar a
fila de pedidos feitos naquela ocasião. O negócio está indo tão bem que
Charlie não pretende mais terminar sua faculdade de ciência da
computação. No entanto, a dupla brinca que passa todo o seu tempo numa
frustração eterna.
Com os resquícios de memória e a papelada confusa de seus clientes, que
dão pistas sobre os detalhes possíveis de login, eles só alcançam
sucesso na tarefa em 30% dos casos.
Mesmo assim, normalmente ficam desapontados com o que encontram. "Na
maior parte dos casos, não conseguimos identificar o que há dentro da
carteira, portanto temos que confiar no que diz o cliente e acreditar
que o valor que realmente está lá justifica todo o nosso trabalho de
busca", explica Charlie.
"Tivemos um caso no verão em que uma pessoa nos disse que tinha 12
bitcoins. Nós agimos de maneira profissional na frente dele, mas
estávamos pulando de alegria com o potencial pagamento que receberíamos.
Gastamos umas 60 horas de servidor de computador, mais 10 horas com o
cliente tentanto identificar pistas", diz.
"Aí, numa chamada por vídeo, quando abrimos a carteira, ela estava totalmente vazia."
Chris e Charlie dizem que a única ocasião em que um cliente subestimou o
número de bitcoins que havia na carteira foi quando acharam a maior
quantia – US$ 280 mil em bitcoins.
No ano passado, eles dizem que recuperaram milhões, no total, em bitcoins perdidos.
Mercado em crescimento
Pai e filho são parte de uma indústria crescente de hackers éticos, que usam seus conhecimentos para ajudar pessoas a recuperarem criptomoedas perdidas.
Outro profissional desse setor é Joe Grand, que começou a atuar como hacker quando era adolescente.
Recentemente ele fez um vídeo no YouTube que viralizou sobre como ele
hackeou uma carteira de hardware contendo US$ 2 milhões de uma
criptomoeda chamada Theta.
Joe dedicou meses de preparo e prática, no seu escritório em Portland,
em Oregon, nos EUA, tentando entrar em outras carteiras de hardware até
criar um método próprio.
Ele finalmente conseguiu acessar as criptomoedas perdidas combinando
duas vulnerabilidades descobertas previamente na carteira em questão.
"Quando você entra numa carteira de criptomoeda ou quebra um sistema de
segurança, a sensação é mágica não importa quantas vezes você faça
isso", diz Joe.
O trabalho do dia a dia de Joe é ensinar fabricantes a garantir que
seus produtos sejam seguros a ataques de hackers, mas ele agora está
abrindo um negócio de resgate de carteiras de criptomoedas.
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